Festival Multicultural Brasil-Alemanha - 2013

O mito de criação

Num tempo imemorial existia IANBIRU e também GUARAÚ, dele mesmo brota TUPÃ, que cria os mundos através dos sons, palavras, do verbo Guaraci – a essência que Ele é – luminosidade, Grande Sol.

TUPÃ cria a Mãe Terra e desenha na Terra as futuras formas: montanhas, lagos, rios. Agora precisava de alguém para continuar o trabalho de criação. Tupã cuida das grandes coisas. Assim cria o primeiro ser humano. O primeiro ser humano é Tupã-mirim que significa pequeno criador.
Quando Tupã-mirim veio ele não conseguia viver na Terra – na visão humana. Ele era etérico, alado, luminoso – assemelhava-se a um pássaro. Tupã-mirim disse a Tupã que não conseguia viver na terra. Então Tupã pede para que ele vá aos quatro cantos do mundo para buscar sabedoria.
Tupã-mirim sai do nascente e vai ao poente e encontra uma pedra e diz:
Pedra, você pode me ensinar a viver na Terra? 
E a pedra respondeu: Entre em mim. 
E enquanto pedra ele aprende a meditar. Porém a pedra diz para ele que não é só assim. Assim ele sai, vai ao Sul e encontra a primeira árvore, uma Palmeira. E então ele diz:
Arvore, você pode me ensinar a viver na Terra? 
E a arvore respondeu: Entre em mim. 
Assim eles se fundiram e se tornaram um só. E ele se sentiu enraizado. Passado algum tempo a arvore lhe disse:
Você já aprendeu. Agora sai e busque outros mestres. 
Tupã-mirim foi para o Norte e encontrou o primeiro animal – uma onça. E sendo onça ele sente o cheiro da terra, sente o ar...andou e percorreu vários caminhos. E então, quando ele aprendeu a onça disse: siga o seu caminho.
Ele foi ao Leste e encontrou uma montanha e lá no alto viu uma gruta que irradiava luz. Tupã-mirim subiu e entrou, pois havia uma luminosidade prateada que vinha de uma serpente. E ele pergunta:
Você me ensina a viver na Terra? 
E a serpente responde:
Eu sou o espírito da terra! E vai rodeando e modelando uma forma a partir do barro e da água. Usou dois cristais e fez assim os olhos surgindo então a primeira forma humana. A Mãe Terra disse:
Entre nessa forma, pois assim aprenderá muito sobre a terra.
Mãe Terra disse:
Vá e veja! E foi a primeira vez que ele viu o mundo com olhos de cristais e disse:
Que lindo!
A serpente completou: junto com o que te dei você está levando meus dons. Os dons da terra, da água, do fogo e dos ventos. E Tupã-mirim diz:
E o que faço com esses dons? 
Você tem quatro dons da minha influencia... com esses dons você me ajudará no mundo a fazer novas formas de vida. O que você quiser. – disse a serpente. Além dos quatro você recebe também o dom de IANDERÍ – dom de Tupã – e juntando os dons você será imbatível. 
Como é isso, perguntou Tupã-mirim... onde está o dom de IANDERÍ? 
E a serpente respondeu: está nas palavras! 
E atenção, cuidado com o que pensa e com o que fala, pois o que você pensar e falar acontecerá. 
E assim, ele desce a montanha com os dons da Terra e do Céu. E experimenta e diz arara – e apareceu a arara (que em tupi-guarani é anu -???), e ele diz URUQUEUA que significa coruja, e aparece a coruja...assim vão surgindo vários pássaros, e ele vê que é verdade o poder da palavra... Porem ele continua...olha para o chão e diz jacaré! e assim apareceu o primeiro jacaré... paca-tatu.... e assim ele foi andando e falando, até chegar à margem de um rio. Quando ele fala ARUANÃ, PIRARUCU, e continua falando vários tipos de peixes que foram surgindo pela primeira vez na Terra... Ele ficou impressionado e ressabiado – falou nomes de plantas, arvores e assim passou muito tempo no mundo pensando e falando. 
Passado algum tempo ele volta para a gruta e diz:
Oh Mãe Terra, vim devolver o corpo e os dons para viver na terra. 
Não, não precisa devolver. Pode ficar para sempre – respondeu a Mãe Terra. 
E ele disse – Eu tive a onça, a palmeira e a pedra, e tudo isso que eu tive, eu devolvi. Já aprendi e quero voltar para a terra do meu pai. 
A Mãe Terra então disse para Tupamirim que ele poderia ficar com o corpo o tempo que quisesse e que quando ele se cansasse poderia fazer uma cova e deixar o seu corpo. Isso poderia ser em qualquer lugar e que ele não mais precisava voltar.
Mãe Terra nos deu o corpo, e nós recusamos e devolvemos.
Tupã-mirim desceu, criou tudo e nada mais tinha para criar. Resolveu então ir para a cachoeira de águas cristalinas e que forma um espelho d'água. Assim ele se vê pela primeira vez, fala MAVUTZINIM (que coisa bela, maravilhosa) – e assim nasceu a primeira mulher que é nomeada MAVUTZINIM. Eles ficam andando e como ela veio da água ele quer ensinar as coisas a ela. Os dons – ele diz – já criei tudo. Ela diz – Só tem peixes cinzentos nada coloridos e então, ela fala PANAMBY – que quer dizer borboleta – e assim ela fala todos os bichos coloridos, pequenos e bonitos... E fala outros nomes de frutas e participa da criação do mundo. Ela fala para Tupã-mirim o que ele acharia de ter mais gente. E ele: mas como? Então, ela vai à floresta, pega uma semente de cada arvore, põe numa cabaça e fecha com um pedaço de pau e faz a primeira maracá... Ela chacoalha e canta vários sons e as sementes viram crianças. Nasce a primeira tribo – vermelho, amarelo, azul - de varias raças – se tornam nossos primeiros pais. Nosso primeiro ancestral ensinou o que aprendeu: os primeiros fundamentos, dons da terra e do céu, e ensinou também sobre o cuidado com o que se fala. Até que um dia Tupã-mirim se cansou e falou para MAVUTZINIM que a contribuição havia se completado e que ele queria voltar. Assim, entregou sua forma à Mãe Terra e seu ser espiritual saiu e voltou para o Sol, o Sol que vem do nascente. Ele resolveu ficar por perto para ver o crescimento dos seus filhos e netos. Passado o tempo MAVUTZINIM também se foi e entregou a sua forma, porém o ser dela se transformou na Lua. MAVUTZINIM olha ele de noite e Tupimirim olha de dia. A lua e o sol são os nossos primeiros ancestrais.
Nessa mesma tribo, dessas mesmas sementes, haviam nascido dois irmãos considerados os mais velhos, cumprindo o papel de líder. IANDERU WASÚ (= o mais velho) e IANDERU QUEI (= o mais novo / entre o mais velho) assumiram a liderança. Houve um momento em que o mais novo queria conhecer o outro lado do mundo. Tentou convencer a todos, porém nem todos queriam ir. Foi assim que surgiu a primeira desavença, pois o mais velho além de não querer atravessar o rio disse que o mais novo fosse sozinho. Houve uma reunião do conselho e metade quis atravessar o rio. 
O mais novo com seu grupo atravessou o rio e sumiu por entre as matas. O mais velho ficou e preservou os fundamentos primeiros. Continuaram vivendo na floresta em casas comunitárias conhecida. 
Por maloca, grande oca onde viviam varias famílias. O conjunto de maloca é TABA, que significa aldeia. O povo vivia de forma comunitária, coletiva e trabalhava na roça, pesca, confecção e cerâmica, arte.
Passado um longo tempo o mais velho sonhou que IANDERU QUEI voltava para casa. Sonhou debaixo da lua cheia (mãe ancestral) e ficou aguardando. O mais novo então voltou para casa com um grupo de guerreiros que criaram as primeiras armas, a discórdia. Eles haviam se subdivididos em outros grupos e IANDERU QUEI quando voltou não reconheceu a tribo e nem o irmão IANDERU WASÚ. Ele derruba o irmão e acontece a primeira morte com uma flecha poderosa. IANDERU QUEI havia se esquecido de sua origem, de onde veio, dos parentes, dos amigos. O irmão abre os braços para recebê-lo e morre. O mais novo domina a tribo e até hoje os descendentes do irmão mais novo vivem na base de discórdia até que DITIARI (uma mulher anciã) tem um sonho (sonho semente): este tempo de conflito estaria chegando ao fim. Ela vê o primeiro grupo que atravessa o rio se dividir em três grupos diferentes e cada um vai em uma direção. Ela vê grupos de raças brancas, amarela e negra retornar e a raça que ficou, vermelha. Ela vê cada um retornar. Gerará num primeiro momento muita confusão, e no segundo momento gera o novo povo.

Tupã Tenondé 

Pra conhecer as Primeiras Palavras Formosas do Fundamento do Mundo deves acordar o coração. Para acordar o coração precisamos dar-te teu nome, celebrar tua Palavra-alma e cantar! Assim acorda teu Tom dentro do teu coração, uma tonalidade da Grande Música Divina.

- Vamos então cantar para acordar nosso coração e os futuros corações, para que eles floresçam.

(Musica dos quatro cantos da sala)

PRIMEIRA ERA
Nosso Pai-Primeiro, Pai-Mãe Criador
criou-se por si mesmo
na Vazia Noite iniciada.

(Circulo com ponto no meio)

Antes que existisse o Sol
O criador existia pelo reflexo do seu próprio coração!
Sua essência é ritmo, Espírito-Música
è o Grande Som primeiro: Tupã Tenondé
(Sons)


2) FUNDAMENTO DO SER
Antes de existir a Terra
em meio a Noite Primeira
e antes de ter-se conhecimento das coisas
o AMOR era.
Assim a alma-som desdobrou-se do amor
havendo criado em sua solidão sagrada 
o hino da VIDA
E assim co-criou os Pais verdadeiros das palavras-almas
as Mães verdadeiras das palavras-almas.


(dois círculos e sete sons ancestrais inclusos o silenciam)


Foi assim que assentou no centro do nosso coração
a origem da palavra-alma
o Som - vivo de cada ser humano.

3) A SEMENTE DA MÃE TERRA
O verdadeiro grande Mistério, o primeiro, concebeu do seu cetro
o gérmen da Mãe Terra,
as quatro respirações da Grande Mãe.


Criou uma palmeira eterna no futuro centro da terra
Criou outra no Nascente 
e mais uma no Poente
criou uma palmeira eterna no Sul
e outra no Norte:
essas cinco palmeiras asseguraram o eixo da morada terrena, 
a coluna vertebral do ser humano.
( três círculos)
Depois desta criação
inspirou o canto sagrado aos Pais Primeiros
inspirou o canto sagrado às Mães Primeiras
para que viessem no devido tempo à Terra
para se erguerem em grande número.

4) a TERRA - O MUNDO MATERIAL.

" IRÁS À TERRA
RECORDAR-TE-ÁS DE MIM EM TEU CORAÇÃO
ASSIM EU FAREI QUE CIRCULE A MINHA PALAVRA.
EU INSPIRO PALAVRAS FORMOSAS EM TEU CORAÇÃO
DE MODO QUE NÃO PODES IGUALAR-TE
ÀS IMPERFEIÇÕES DA MORADA TERRENA"

TU ÉS UM SOM ANDANTE: TUPY QUE CANTARÁ VIDAS.
CADA QUAL EM SEU TOM
(4 CÍRCULOS)

"Irás à Terra, filho do Grande Espírito
e mesmo que todas as coisas em sua diversidade
apresentam se por vez horrorosas
deves enfrentá-las com valentia.

A canção dos homens

“Quando uma mulher, de certa tribo da África, sabe que esta grávida segue para a selva com outras mulheres e juntas rezam e meditam até que aparece a” canção da criança”.
Quando nasce a criança, a comunidade se junta e lhe canta a sua canção. Logo, quando a criança começa sua educação, o povo se junta e lhe canta sua canção.
Quando se torna adulta, a gente se junta novamente e canta.
Quando chega o momento do seu casamento a pessoa escuta a sua canção.
Finalmente, quando sua alma esta para ir-se deste mundo, a família e amigos se aproximam – se e, igual como em seu nascimento, canta sua canção para acompanhá-lo na “viagem”.
“Nesta tribo da África há outra ocasião na qual os homens cantam a canção”.
Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime ou ato social aberrante, o levam até o centro do povoado e a gente da comunidade forma um circulo ao seu redor.
Então lhe canta a sua canção”

“A tribo reconhece eu a correção para as condutas anti-sociais não e castigo; e o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade”.

Quando reconhecemos nossa própria canção já não temos desejos nem necessidade de prejudicar ninguém “.

“Teus amigos conhecem a” tua canção” e a cantam quando a esqueces.
Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes ou às escuras imagens que mostras ao demais.
Eles recordam tua beleza quando te sentes feio;
Tua totalidade quando estas quebrados tua inocência quando te sentes culpado e teu propósito quando estas confuso” 


Mito dos índios guaranis, por Kaká Werá Jecupé, índio de origem tapuia, iniciado na cultura guarani e fundador do Instituto Arapoty, uma instituição voltada para a difusão dos valores sagrados e éticos da cultura indígena. http://institutoarapoty.ning.com/