Cultura Indigena

O Conto da Criação do Mundo – um mito Guarani – em relação à Ciência Oculta de Rudolf Steiner.

Susanne Rotermund.

No congresso sobre o trabalho da Associação Comunitária Monte Azul que ocorreu do dia 3 a 5 de outubro de 2008 no Goetheanum na Suíça, o grupo que representou a Monte Azul apresentou uma peça de teatro sobre a sua história. O começo da encenação formou o canto da criação do mundo, um mito dos índios guaranis, que nós foi passado por Kaká Werá Jecupé, como segue: 

Num tempo imemorial existia Nhamandú e também Kuaray, dele mesmo brotou Tupã, que criou os mundos através dos sons, palavras, do verbo Guaraci – a essência que Ele é – luminosidade, Grande Sol.
Tupã criou Mãe Terra e desenhou na Terra as formas futuras: montanhas, lagos, rios. Agora precisava de alguém para continuar o trabalho de criação. Tupã cuidou das grandes coisas assim – criou o primeiro ser humano. O primeiro ser humano foi Tupã-mirim que significa pequeno criador.
Quando Tupã-mirim veio ele não conseguia viver na Terra. Ele era etéreo, alado, luminoso – assemelhava-se a um pássaro. Tupã-mirim disse a Tupã que não conseguia viver na terra. Então Tupã pediu a ele que fosse aos quatro cantos do mundo para buscar sabedoria.
Tupã-mirim saiu do nascente e foi ao poente. Lá encontrou uma pedra e disse: “Pedra, você pode me ensinar a viver na Terra?”
E a pedra respondeu: “Entra em mim.”
E enquanto pedra, ele aprendeu a meditar. Porém a pedra disse a ele que deveria prosseguir. Assim ele saiu em direção ao Sul aonde ele encontrou a primeira árvore, uma Palmeira. E então ele disse: “Árvore, você pode me ensinar a viver na Terra?”. 
E a árvore respondeu: “Entra em mim.” 
Assim eles se fundiram, tornando-se um só. E ele se sentiu enraizado. Passado algum tempo a árvore lhe disse: “Você já aprendeu. Agora saia e busque outros mestres.”
Tupã-mirim foi para o Norte e encontrou o primeiro animal – uma onça. E sendo onça ele sentiu o cheiro da terra, sentiu o ar, andou e percorreu vários caminhos. E então, quando ele aprendeu, a onça disse: “Segue teu caminho.”
Ele foi ao Leste e encontrou uma montanha e lá no alto viu uma gruta que irradiava luz. Tupã-mirim subiu e entrou, pois havia uma luminosidade prateada que vinha de uma serpente. E ele perguntou: “Você me ensina a viver na Terra?” 
E a serpente responde: “Eu sou o espírito da terra!”
E foi rodeando e modelando uma forma a partir do barro e da água. Usou dois cristais e fez assim os olhos, surgindo então a primeira forma humana. A Mãe Terra disse: “Entra nessa forma, pois assim aprenderá muito sobre a terra.”
A Mãe Terra disse: “Vá e veja!”
E foi a primeira vez que ele viu o mundo com olhos de cristais e disse: “Que lindo!”
E a serpente completou: “Junto com o que te dei você está levando meus dons. Os dons da terra, da água, do fogo e dos ventos.”
E Tupã-mirim disse: “E o que faço com esses dons?”
“Você tem quatro dons da minha influência, com esses dons você me ajudará no mundo a fazer novas formas de vida. O que você quiser.” – disse a serpente. “Além dos quatro dons você recebeu também o dom de Nhandecy– dom de Tupã – e juntando os dons você será imbatível.” 
“Como é isso” perguntou Tupã-mirim “Onde está o dom de Nhandecy?” 
E a serpente respondeu: “Está nas palavras! E atenção, cuidado com o que pensa e com o que fala, pois o que você pensar e falar acontecerá.”
E assim, ele desceu a montanha com os dons da Terra e do Céu. E experimentou dizendo “Arara” – e apareceu a primeira arara, e ele disse “Urkurea”, que significa coruja, e apareceu uma coruja. Assim foram surgindo vários pássaros, e ele viu que era verdade o poder da palavra. Porém ele continuou. Olhou para o chão e disse “Jacaré!” e assim apareceu o primeiro jacaré. “Paca, tatu.” e assim ele foi andando e falando, até chegar à margem de um rio. Quando ele falou “Aruanã, pirarucu”, foram surgindo os primeiros peixes na terra. E ele continuou falando e vários tipos de peixes foram sendo criados. Ele ficou impressionado e ressabiado – falou nomes de plantas, árvores e assim passou muito tempo no mundo pensando e falando. 
Passado algum tempo ele voltou para a gruta e disse: “Oh Mãe Terra, vim devolver o corpo e os dons para viver na terra.”
“Não, não precisa devolve-los. Pode ficar para sempre” – respondeu a Mãe Terra. 
E ele disse – “Eu tive a onça, a palmeira e a pedra, e tudo isso que eu tive, eu devolvi. Já aprendi e quero voltar para a terra do meu pai.” 
A Mãe Terra então disse para Tupamirim que ele poderia ficar com o corpo o tempo que quisesse e que quando ele se cansasse poderia fazer uma cova e lá deixar o seu corpo. Isso poderia ser em qualquer lugar e que ele não mais precisaria mais voltar para devolvê-lo.
Mãe Terra nos deu o corpo, e nós o recusamos e o devolvemos.
Tupã-mirim desceu, criou tudo e nada mais tinha para criar. Resolveu então ir para a cachoeira de águas cristalinas e que formava um espelho d´agua. Assim ele se viu pela primeira vez e disse: “Mavutzinim!” (que significa, que coisa bela, maravilhosa) – e assim nasceu a primeira mulher que é nomeada Mavutzinim. Eles caminharam sobre a terra e como ela havia vindo da água ele quis ensinar todas as coisas a ela. “Com os dons” – ele disse – “Já criei tudo.” Ela disse: “Só existem bichos cinzentos e nada coloridos”. Então, ela falou: “Panamby” – que quer dizer borboleta, e assim falou o nome de todos os bichos coloridos, pequenos e bonitos. E falou outros nomes de frutas saborosas e flores perfumadas e participou assim da criação do mundo. Ela perguntou a Tupã-mirim o que ele acharia de ter mais gente no mundo. E ele: “Mas como?” Então, ela foi à floresta, pegou uma semente de cada arvore, pôs numa cabaça, fechou com um pedaço de pau e fez a primeira maraca. Ela chacoalhou e cantou vários sons e as sementes viraram crianças. Nasceu a primeira tribo – vermelho, amarelo, azul - de varias raças, que se tornaram nossos primeiros pais. Nosso primeiro ancestral ensinou o que aprendeu: os primeiros fundamentos, os dons da terra e do céu, e ensinou também sobre o cuidado com o que se fala. Até que um dia Tupã-mirim se cansou e falou para Mavutzinim que a contribuição havia se completado e que ele queria voltar. Assim, entregou sua forma à Mãe Terra e seu ser espiritual saiu e voltou para o Sol, o Sol que vem do nascente. Ele resolveu ficar por perto para ver o crescimento dos seus filhos e netos. Passado o tempo Mavutzinim também se foi e entregou a sua forma, porém o ser dela se transformou na Lua. Mavutzinim olha a Terra de noite e Tupã-mirim olha de dia. A lua e o sol são os nossos primeiros ancestrais.
Nessa mesma tribo, dessas mesmas sementes, haviam nascido dois irmãos considerados os primeiros, cumprindo o papel de líderes, que eram Nhanderu-guaçu(o mais velho) e Nhanderykei (o mais novo). Houve um momento em que o mais novo queria conhecer o outro lado do mundo. Tentou convencer a todos, porém nem todos queriam ir. Foi assim que surgiu a primeira desavença, pois o mais velho, além de não querer atravessar o rio, disse que o mais novo fosse sozinho. Houve uma reunião do conselho e foi decidido que metade atravessasse o rio. 
O mais novo, com seu grupo, atravessou o rio e sumiu por entre as matas. O mais velho ficou e preservou os fundamentos primeiros. Continuaram vivendo na floresta em casas comunitárias, conhecidas por maloca, grande oca onde viviam várias famílias. O conjunto de malocas é Taba, que significa aldeia. O povo vivia de forma comunitária, coletiva e trabalhava na roça, pesca, confecção de cerâmica e arte.
Passado um longo tempo o irmão mais velho sonhou que Nhanderykei voltaria para casa. Sonhou debaixo da lua cheia, da mãe ancestral, e ficou aguardando. O irmão mais novo então voltou para casa com um grupo de guerreiros que criaram as primeiras armas, a discórdia. Eles haviam se subdividido em outros grupos e Nhanderykei, quando voltou, não reconheceu a tribo e nem o irmão Nhanderu-guaçu. Ele derrubou o irmão e aconteceu a primeira morte com uma flecha poderosa. Nhanderykei havia se esquecido de sua origem, de onde veio, dos parentes, dos amigos. O irmão abriu os braços para recebê-lo e morreu. O mais novo dominou a tribo e os descendentes do irmão mais novo viveram na base da discórdia até que Tijary, uma mulher anciã, teve um sonho. Neste sonho semente, ela viu que o tempo de conflito estaria chegando ao fim. Viu o primeiro grupo que atravessou o rio se dividir em três grupos diferentes e como cada um desses grupos foi numa direção diferente. Ela viu grupos de raça branca, amarela e negra retornarem encontrarem a raça que ficou, a vermelha. Este encontro geraria num primeiro momento muita confusão, mas, num segundo momento surgiria um novo povo, o povo dourado.

Gostaria de fazer algumas comparações entre o mito e a “Ciência Oculta” de Rudolf Steiner. Elas não pretendem ser completas, mas surgiram do encanto de reencontrar neste mito tão antigo, do berço do nosso Brasil, tantas imagens que correspondem e dialogam com as descrições na “Ciência Oculta”, frutos da pesquisa de R. Steiner.


O NÚMERO QUATRO

Enquanto conhecemos da antroposofia o número sete para tudo que tem a ver com a evolução e o desenvolvimento, aparece no mito repetidamente o quatro. O quatro no sete, forma o meio e representa tudo que tem a ver com a encarnação, com a evolução da Terra, com a formação da matéria e o despertar do Eu na Terra.

Nhamandu, Kuaray, Tupã, e a Terra são as grandes imagens arquetípicas da criação. Kaká Werá denomina em “Tupã Tenondé” Nhamandu de “nosso pai primeiro”, “o Um”, “a origem”, “o grande mistério”, “o imanifestado”, Kuaray de “mãe”, “fogo” ou “o Dois”, Tupã de “o desdobramento do todo”, “o três” ou “a primeira terra” e a Terra de “o Quatro” ou “o mundo material”.
Poderíamos chamar estas quatro imagens também de unidade, dualidade, relação entre os opostos ou interiorização e materialização ou individualização. Em todos os processos de evolução encontramos estes quatro passos e chegamos nos sete passos quando a partir do quarto transformamos os anteriores. Na Ciência Oculta, lemos: “Basicamente, toda evolução se processa da seguinte maneira: primeiro, de um todo se separa uma porção de essência independente: mais tarde o ambiente se imprime, como que por reflexo, no ser que se separou, e finalmente, este último continua sua evolução independentemente.”

APRENDER COM A PEDRA

Quando o gérmen humano nomeado de Tupã Mirim, o pequeno criador, é chamado para ajudar na criação na Terra deve passar por quatro etapas de aprendizagem.
A primeira etapa é de unir-se com a pedra e aprender a meditar.
São quatro etapas de evolução planetária que Steiner descreve até chegar na Terra atual e seu sistema solar: a evolução do Antigo Saturno, do Antigo Sol, da Antiga Lua e a da Terra. Na descrição sobre o Antigo Saturno, Steiner relata que o ser humano adquire os primórdios da organização do corpo físico e uma consciência primária: “...os próprios fantasmas humanos aparecem com uma forma de consciência extremamente rudimentar e nebulosa. Imaginemo-la ainda mais reduzida do que aquela do sono sem sonhos; é a consciência dos minerais, nas condições atuais. Esta consciência estabelece uma harmonia entre o ser interior e o mundo exterior físico.”

APRENDER COM A PLANTA

Depois de ser expulso pela pedra, Tupã Mirim se une com a palmeira.
Correspondente a isto lemos na Ciência Oculta: “O segundo dos grandes períodos evolutivos referidos, o “período solar”, proporciona ao ser humano um grau de consciência superior aquele conquistado em Saturno......[equivalendo] aproximadamente ao estado em que se encontra o ser humano atual quando dorme sem sonhar. Poderíamos compara-lo também ao grau de consciência inferior em que dormita atualmente o nosso mundo vegetal.” Este grau superior de consciência adquire “graças à integração do corpo etérico ou vital...Aquilo que tivemos de caracterizar como vida aparente, para Saturno, torna se agora vida real...[O corpo etérico] adquire a faculdade de executar no corpo físico certos movimentos interiores, comparáveis a circulação da seiva nas plantas atuais...O ser humano manifesta-se como uma personalidade – contudo não dirigida por um “eu” interior. Aparece antes como uma planta atuante como personalidade.”

APRENDER COM O ANIMAL

Continuando a sua caminhada Tupã Mirim vai ao norte e se une com a onça, sentindo pela primeira vez os cheiros, percorrendo os caminhos da terra. Fazendo novamente uma comparação com a Ciência Oculta lemos no período da Antiga Lua que o ser humano ganha, além do corpo físico e etérico, um corpo astral: “...este (o corpo astral) adquire as primeiras qualidades anímicas...começam a despertar sensações de prazer e desagrado...aparece no ser humano o primeiro indício do desejo, da cobiça...Quanto ao homem, podemos chamá-lo de homem-animal.”

OS PRESENTES DA MÃE TERRA E A DESCIDA DA MONTANHA

Na próxima imagem do mito Tupã Mirim chega à montanha, à caverna e encontra o espírito da terra. Kaká Werá interpreta esta etapa como sendo um cume na evolução: o ser humano se eleva à cima do resto da criação e passa por um desenvolvimento mais interiorizado.
Os quatro elementos (os presentes da mãe terra) criam junto a configuração humana enquanto ele ‘desce” da montanha. R. Steiner escreve, ainda bem no começo da descrição da evolução da Terra como o processo da encarnação do ser humano e a formação do germe das almas da sensação, racional e da consciência são relacionadas com os elementos:
“Os seres destinados a tornarem-se homens na forma atual da terra são aqueles ...que permanecem...quase inteiramente na esfera circundante não condensada [da terra]...Entram em contato com a terra ígnea apenas por um ponto de sua forma anímica, e isto faz com que o calor condense uma parte de sua forma astral. Desse modo, acende-se neles a vida terrestre...somente o contato com o fogo terrestre torna-os circundados de calor vital... O fato de estar envolto em calor resulta,para o homem, não só na deflagração da vida como simultaneamente numa transformação do corpo astral. Neste se incorpora o primeiro rudimento daquilo que será mais tarde a alma da sensação...
...Entretanto, progride sem cessar a condensação da terra; com isso, define-se cada vez mais a referida estruturação do homem...ele não se acha em contato apenas com o calor terrestre; a substância aérea incorpora-se ao seu corpo ígneo. E enquanto o calor lhe deflagrou a vida, o ar que vibra ao seu redor produz nele um efeito que podemos chamar de som. Seu corpo vital ressoa. Simultaneamente, separa-se uma parte do corpo astral que constitui o primeiro rudimento daquilo que será mais tarde a alma racional...
...Nesse ínterim, continua progredindo a evolução na Terra, e esse progresso manifesta-se de novo por uma condensação. A substância aquosa se incorpora à massa terrestre, de modo que a terra compreende agora três elementos: o ígneo, o gasoso e o aquoso...A incorporação ao elemento líquido à massa terrestre é acompanhada de uma transformação no homem. Agora, não apenas o fogo se derrama sobre ele e o ar flutua a sua volta, mas também a substância líquida incorpora-se ao seu corpo físico. Ao mesmo tempo, modifica-se a sua parte etérica, que o homem percebe agora como um sutil corpo luminoso...o homem percebe o fluxo e refluxo desse elemento líquido como uma luz que brilha e se obscurece alternativamente. Mas também em sua alma houve uma transformação...acrescenta-se agora [o rudimento] da alma da consciência.
...No entanto, prossegue o processo de condensação da substância terrestre. Ao elemento aquoso junta-se o elemento sólido, que podemos chamar de “térreo”. E com isso também o homem começa a integrar a seu corpo e elemento térreo.” 
Quando o elemento térreo se juntou à corporalidade humana, formando assim aos poucos um corpo cada vez mais físico, o ser humano se tornou capaz de formar como que uma cópia, uma primeira reprodução do seu próprio corpo na qual ele ancora uma parte do seu potencial de vida. O seu Eu começa a envolvê-lo como já o faziam os sons e a luz. O ser humano “encontra” o seu Eu.

OS PRESENTES DO CÉU E A CRIAÇÃO NA TERRA

Tupã-mirim cria animais e plantas com o poder do pensamento e da palavra. Com as palavras de Steiner: “Naquela época, as energias humanas e as forças da natureza ainda não estavam tão separadas umas das outras como posteriormente.O que ocorria na Terra ainda procedia em alto grau das forças dos homens. Quem houvesse observado, naquele tempo, do exterior, os processos naturais que se desenvolviam na Terra, teria visto nestes processos, além de elementos independentes do homem, efeitos da atividade humana.”
Em seguida há um a descrição como os antepassados do reino animal, vegetal e mineral se originaram por haverem ter sido expulsos da evolução geral da humanidade.

Encontramos também, na Ciência Oculta, as descrições sobre a separação dos sexos em relação à separação da lua com a terra, o surgimento das raças quando as almas humanas se espalharam pelas várias partes da Terra e assim foram submetidas por influências diferentes...Estas comparações vão se restringir a esta primeira parte do desenvolvimento do ser humano. Elas querem ser uma pequena contribuição no sentido de uma ponte do nosso passado espiritual do povo indígena com a Antroposofia no Brasil, como uma das tarefas da alma da consciência.