Cultura Indigena

Reunião do Grupo Pindorama em 21/10/2007

Convidado: Kaká Werá

Sou Kaká Werá de família tapuia mas fui acolhido na família guarani primeiro em São Paulo e depois no Sul.
Em Itapecirica da Serra, desenvolvo há alguns anos um trabalho pelo Instituto Arapoty que procura fazer um resgate dessa cultura juntando fragmentos.
A partir do que existe ainda dessa cultura procuramos recuperar o que ainda é possível já que a minha geração nasceu esfacelada em relação à sua cultura, seus valores e sua história. Os povos investigados são os de matriz tupy.
Como ando muito pelo Brasil, conheço há muito tempo várias formas de expressar o som.
São muitos os brasis que co-existem.
Poderia compartilhar dois aspectos que na minha visão interferem na língua portuguesa do Brasil tornando-a diferente da de Portugal. Primeiro a questão dos povos: inicialmente há uma língua matricial que origina o tupy, mas existem mais de 200 línguas hoje no Brasil e as diferenças entre elas se verificam também na maneira de falar.
Os guaranis de matriz tupy estão hoje presentes da Argentina ao Espírito Santo passando pelo Rio Grande do Sul. Aqui no Brasil os tupy interferiram no modo de falar, especialmente pela sua relação com o colonizador, pela mestiçagem.
Quando chegaram os primeiros portugueses houve o primeiro período de mestiçagem do povo tupy. De 1500 até aprox. 1590 no litoral de São Paulo a língua adquire um outro dialeto, ela se transforma em nheengatu porque os portugueses procuram fazer uma mistura entre a língua portuguesa e a língua indígena criando uma língua artificial. O jeito português de falar foi-se modificando e adquirindo uma forma que não era mais nem o tupy nem o português que se falava em Portugal. O tupy recebe a influência portuguesa de algumas palavras anasaladas que começaram a ser modificadas. Ilustram este fato as palavra M’boy que teria um som de “M” para dentro mas que os portugueses começaram a pronunciar do seu jeito, o mesmo acontecendo com a palavra Embu que também não existia no tupy e foi modificada.
Trata-se de sons guturais que interferiram na língua portuguesa e vice versa. Nota-se outras modificações como o grande detalhismo na forma lusa de falar enquanto que o tupy enxuga as frases dando origem a um português com frases muito mais enxutas do que o original. Ao mesmo tempo que se vai incorporando a influência da língua portuguesa ao tupy quando começa a expansão para o sul no intuito de caçar índios, do Rio de Janeiro para cima ocorre a interferência dos franceses e da sua língua. Os tupy casam-se com os franceses e também com eles se gera uma mestiçagem.
No nordeste, em Pernambuco no início do século XVI, do mesmo modo acontece a mestiçagem com os holandeses e há expressões no nordeste que vêem dessa época como as interjeições que ainda são muito usadas hoje. Piratininga, Santos e o que é hoje o ABC foram colonizados pelos portugueses, mas o Brasil teve também outras colonizações, sendo o elo comum entre elas, a matriz tupy.
Até ao século XVIII falava-se o nheengatu. Essa língua ia variando conforme as colonizações e as regiões. Além disso, no final do século XVI começa a chegar a África que vai sendo incorporada na Baía, em São Paulo, etc. Quando o Brasil avança primeiro para sul em busca das minas gerais, e depois para o centro (sertão) buscando as esmeraldas, entra em contato com os espanhóis e com os tapuias. Esse contato vai também provocar mudanças na linguagem. Em Minas Gerais existe muito a interjeição “hehe” que é tapuia, assim como o hábito de estalar a língua.
Essas diferenças se dão primeiro por causa de diferentes colonizações e depois porque os povos são diferentes. A língua Gê por exemplo é um falar sem falar. Usa muitas interjeições e estalos e começa do mesmo modo a ser incorporada na língua brasileira. Na metade do séc. XIX, em 1860 mais ou menos, é proibido falar o nheengatu. Quando D. João VI e a corte chegam ao Rio de Janeiro não conseguem se comunicar com o povo e o rei vê nisso um perigo para a hegemonia de Portugal. Baixa um decreto proibindo que se fale a língua geral. A sociedade revolta-se; especialmente os artistas e os literatos que como Lima Barreto em “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” escreve um romance que trata da tentativa de implantar a obrigatoriedade da língua tupy, “a verdadeira língua brasileira”. A população é então obrigada a falar o português, só que a língua já incorpora todas as influências anteriores. Assim, é só no século XIX que se começa a falar um tipo de português. Pode-se dizer que o brasileiro começa a falar português praticamente no séc. XX.
O índio influencia a língua e essa influência é incorporada na língua apesar de hoje se enfatizar mais a denominação dos lugares. O momento em que o negro entra no panorama brasileiro traz para a língua um tempero muito especial e interessante porque o negro está dentro da casa do senhor, ao passo que o cotidiano do índio não incorpora essa experiência, ele fica à margem.
Quando se começa a falar o português no Brasil, já começam a chegar as outras migrações da Europa com Pedro II e essas colonizações (???) também interferem no jeito de falar. O “bah” “tché” do Rio Grande do Sul é indígena e estas expressões estão ligadas aos antigos Gauchos que vêm do povo Guaicuru dos Minuanos, que são povos de raíz tupy, e de onde surgem os gaúchos. A prática de tomar o mate e assar a carne é desse povo. Subindo em direção ao norte vê-se uma forte influência européia mas além da língua há outras influências que caminham juntas.
A própria natureza determina a forma e o ritmo da fala. Cariocas e baianos têm uma fala mais lenta do que a paulista, enquanto a fala do sul é extremamente rápida. Em Florianópolis os manezinhos da ilha falam de forma cantada e essa fala se estende até o Paraná. Nos lugares mais frios os índios dizem que o “nhandarecó” do povo é gelo. No nordeste há expressões que não são localizadas facilmente na língua indígena ou na portuguesa, mas existe também a colonização holandesa que não se sabe como contribui para a língua geral.
O tupy é a língua que procura seguir o som e há palavras que são onomatopaicas como, por exemplo, pipoca e soco. Esses casos ficaram colados na língua sedimentando as diferenças, bem como o acento que em alguns lugares tem o hábito de puxar o “s” ou falar chiando enquanto noutros lugares esse acento desaparece. Tudo vai-se juntando na língua. Se no litoral a língua portuguesa é nova, na Amazônia é mais nova ainda, pois faz aproximadamente 50 anos que o português é falado mais correntemente. Os extrativistas de borracha no início já contam com uma língua totalmente nova cheia de particularidades onde existe uma interferência andina e espanhola criando-se então novas nuances.
Os xavantes têm a crença de que os ancestrais vieram da água onde as primeiras sementes humanas eram girinos. Os sons dos sapos estão presentes na língua que falam. O povo karajá parece passarinho cantando porque acreditam que têm ligação com os pássaros. Os tapuias e botocudos, caçadores de capivaras, têm sons guturais que parecem de animais.
Os ianomamis falam baixinho, são do alto Xingu onde existem muitos sons. O povo guarani quando fala o português fala aos soquinhos. Os povos têm consciência de que pertencem a uma unidade não só com o português, mas também com o resto dos povos. Eles vivenciam o mundo à sua maneira e a história de outro povo que chegou depois ainda não faz parte do seu universo.
A língua tem uma coisa que não é simbólica: são os sons que vêem do lugar onde ela se originou. Eu posso falar da experiência de dois amigos que moram na beira do Rio Negro e pertencem aos baniva. Falam um dialeto próprio, e o português chegou para eles como interferência das missões religiosas. Para salvar os baniva e educá-los, os religiosos começaram a fazer isso de acordo com a concepção desse povo traduzindo a bíblia para a língua baniva e aprendendo a falar baniva para poderem interferir na língua. Os povos do rio têm a tendência a serem silenciosos.
Os tucanos são guerreiros e caçadores e têm uma fala que procura impor-se. Os povos mais isolados usam o português só como língua de relação e não como expressão interior. Os guaranis acreditam que só existem como tal porque dentro da sua comunidade falam o guarani e não o português, especialmente as mulheres que são as grandes educadoras. Os índios no Rio de Janeiro aceitaram mais facilmente a influência francesa do que a portuguesa porque os franceses não tinham interesse na terra ou na dominação. O seu interesse era a madeira. Todas essas interferências deram início a um novo povo que ainda está sendo criado. Os jesuítas deram uma organizada na língua que já existe e que tinha sido criada pelos Tamen (chamados de tamoios) que eram os sábios.
Os tamoios já vinham fazendo essa unificação. Quatro mil anos antes dos portugueses chegarem aqui, começou a haver a circulação de povos desde a Patagônia que seguiam os calendários sagrados e religiosos. Era uma mistura de línguas. Essa circulação (caminhos) foram os mesmos aproveitados pelos portugueses para a colonização. Foi então criado um conselho tribal com sacerdotes e pagés que foi amoldando e unificando a língua que acabou incorporando expressões astecas, incas, aimaras e outras com base tupy. A civilização tupy há 12.000 anos foi-se expandindo para o sul. Era o povo tupano que se juntando aos guaranis formou o povo tupy guarani. Quando chegam à Patagônia começam a subir e vão ficando pelo litoral chegando até o Ceará e parando no Pindorama (lugar das palmeiras altas).
Esse percurso dura 12.500 anos. Os tupanos e os topecas vieram da Atlântida numa época em que o mar entrava pela Amazônia. Os tupanos se fixaram aí e os topecas seguiram e formaram os aztecas, os incaicas e os povos das regiões mais altas. Hoje o português que falamos representa uma unidade. Quando os baniva voltam para as suas aldeias demoram 8 dias mais ou menos no percurso e têm que pousar em outras aldeias que falam línguas diferentes e por isso a língua de comunicação é o português. 

No final da palestra foram colocadas duas perguntas: 

P: Já que o solo e o clima também interferem na fala, os povos dos Andes que têm um solo extremamente mineral, repleto de metais são mais aguerridos e duros que os povos da bacia amazônica onde a água é o maior elemento?

R: Não conheço os povos andinos mas o povo Campa que é intermediário entre Amazônia e Andes, se denomina ashanim (porque é descendente de incas), e fala de forma mais imperativa e curta. As pessoas falam pouco mas são mansos e doces. 

A maneira de cada povo buscar a espiritualidade também é diferente. A espiritualidade dos tupis e guaranis é diferente dos outros povos. Os guaranis usam a oração, os cânticos ininterruptos enquanto outros povos usam plantas alucinógenas.

A mesma palavra “nheeng” significa tanto alma como fala.

A palavra para ser humano é uma palavra habitada. 

Resumo da reunião Grupo Pindomara em 21/10/2007

Convidado: Kaká Werá

Nosso convidado trouxe como tema do encontro a língua Tupi-guarani e seu som.

Kaká Werá fez uma introdução neste tema falando um pouco sobre os povos, esclarecendo que a língua matricial é a língua Tupi, mas que há mais de duzentas línguas diferentes, variantes desta matricial.
Depois, ele discorreu sobre as influências e conseqüentes modificações sonoras que esta língua sofreu no processo de “mestiçagem” ocorrido no Brasil ao longo de sua história, principalmente na época do Descobrimento.
A primeira geração de mestiçagem que interferiu na língua Tupi, modificando o modo de falar ocorre no sul/ sudeste, na região de Cananéia, teve início entre os anos de 1490 e 1491.
Depois de 1500, a língua se torna um dialeto artificial, por invenção dos portugueses, que chegavam e dominavam a língua, modificando o modo de falar.
Do Rio de Janeiro para cima (em direção ao Norte / Nordeste do Brasil) ocorrem ainda outras mudanças. No Rio de Janeiro há a mestiçagem com os franceses (em São Paulo, “Colégio Piratininga”, Santos, região do ABC etc. a mestiçagem se dá principalmente com os portugueses).
No nordeste ocorre a mestiçagem com os holandeses também. 
Tudo isto vai modificando a língua Tupi, pois os fonemas e o modo de falar, gutural ou nasal característico de cada língua, ao se juntar com outra, provoca um outro som, bem diferente do original.
Nos primeiros trezentos anos foram estas as colonizações. 
No início do século XVI vem a influência africana, que também contribuiu para uma mudança.
Quando o Brasil avança em direção o centro, em busca das “Minas”, ocorre o encontro de outro povo, o povo Tapuia, antepassado de Kaká Werá. 
Dessa forma, como vimos, a mudança na língua Tupi se dá por várias confluências.
A língua JÊ se expressa muito por interjeição (Eh! Eh!, expressão usada muito ainda hoje e que é milenar. O mesmo ocorre com o costume que adquirimos de estalar a língua).
No século XIX, por causa da vinda de D. João VI, a língua Tupi é proibida de ser falada. Isto porque ao chegar no Rio de Janeiro a corte não consegue se comunicar e vê nisso um risco para a hegemonia de Portugal. Então decide proibir a prática da língua Tupi. O livro “Triste fim de Policarpo Quaresma” de Lima Barreto retrata bem esta época. Policarpo Quaresma revolta-se e tenta implantar no Brasil a obrigatoriedade da língua Tupi, a “verdadeira língua brasileira”.
Esta proibição obriga a população a falar/aprender o português, mas as interjeições já estavam incorporadas.
Nos primeiros trezentos anos o índio ainda participa do cotidiano da vida dos povos que colonizaram o País. Depois, ele fica no “em torno”, já não está mais inserido, por exemplo, na vida da Casa Grande, como ocorre com o negro.
No século XX começam as imigrações, as colonizações por imigrantes de outras partes da Europa e isto também influencia muito no sotaque. O “bah!” o “Tché!” utilizados nos Sul são de influência indígena. A palavra “gaúcho” provém de gaichu – guaicuru...
Mas temos que considerar também a influência da própria natureza, o clima e o ecossistema, que também influenciam o ritmo e a nota da fala. Por exemplo, podemos notar que os baianos e os cariocas falam mais devagar que os paulistas.
A língua Tupi é classificada côo “onomatopaica”, porque ela busca explicar o que ela expressa pelo som. Por exemplo, “pipoca”, “soco” e também pelo ritmo. Isto colou na língua portuguesa e a marcou.
Já na Amazônia, a língua portuguesa é ainda mais nova. Lá os povos demoraram muito mais para terem todo este contato com as demais influências. Tem apenas pouco mais de cinqüenta anos.