Antroposofia e a missão dos povos

Estudos sobre a Alma do povo brasileiro

                               

Povos Indígenas do Brasil.

 Wanda Ribeiro[2]

“... exerça cada povo o autoconhecimento e pergunte a si mesmo: o que de melhor tenho a dar? Assim não há dúvida de que fluirá sobre o altar comum o que conduzirá ao progresso global e ao bem-estar total da humanidade.”

 Rudolf Steiner in A Missão das Almas dos Povos

 

Introdução

A ciência espiritual antroposófica, desenvolvida por Rudolf Steiner, mostra o ser humano como co-autor dos acontecimentos que marcam sua época, tendo a possibilidade de agir sobre os mesmos, modificando-os.

 Ainda do ponto de vista da Antroposofia, temos um destino, um carma, no qual está “planejado” o nosso local de nascimento, quem serão nossos pais, nossa família,  quais serão os nossos encontros, enfim, o que irá compor a nossa biografia. Ligado a tudo isso está também, e principalmente, o fato de que “a nossa atual tarefa consiste em desenvolver a alma da consciência... Os diversos povos deste período devem atuar em conjunto para exprimir a alma da consciência. Isso se revela, realmente, em todas as circunstâncias e situações da vida humana.” (Steiner R., 1993, p.8).

 Rudolf Steiner conseguiu reunir  esses e outros aspectos de extrema importância tanto para o indivíduo como para a sociedade, para a humanidade de modo geral, no que ele chamou de “Alma dos Povos”.

 Em palestra proferida em 1910 em Oslo, Noruega,  Steiner já afirmava a importância da chamada”missão das diferentes almas dos povos da humanidade”:   

 “os membros de um povo só poderão dar sua contribuição livre e concreta a essa missão comum (que reunirá toda a humanidade), se antes de mais nada tiverem a compreensão de sua índole étnica, a compreensão do que poderíamos chamar de ‘autocognição da etnia’”. (Steiner R, 1986, p.10)

Considerando a “tarefa” de desenvolvermos a alma da consciência em nossa época,  e que nesta predominam muitas incertezas, preocupações com o futuro do planeta, transformações velozes e sabendo que somos agentes e não meros expectadores, que temos um papel no contexto mundial, cabe-nos perguntar qual é esse papel enquanto nação? Qual a missão do povo brasileiro, dadas as suas características, suas especificidades, sua história singular?

 É dentro desse contexto que o Grupo Pindorama se propõe a estudar e caracterizar a “alma do povo” brasileiro, com vistas a responder àquelas principais questões aqui colocadas.

 Ainda que algumas vezes nos sintamos impotentes,  o fato de sentirmos que estamos todos juntos, no “mesmo barco”, que não é por acaso que formamos um povo habitando um determinado lugar, com determinadas pessoas, de modo singular, nos faz concluir que existe uma razão para tal, apesar de não estar explicita. Encontrá-la é uma das tarefas que o Grupo Pindorama se propõe.

A “Alma do Povo”

Rudolf Steiner caracteriza o que nesse estudo estamos considerando “Alma do povo”:

“O que é então que alguns chamam de ‘alma do povo’ e ‘espírito do povo’? Quando muito, reconhece-se nisso uma qualidade comum de tantas e tantas centenas ou milhões de pessoas comprimidas sobre determinado pedaço de terra. Porém difícil é explicar à consciência moderna que algo que vive independente desses milhões de seres humanos comprimidos num pedaço de terra seja coisa real e correspondente ao conceito de ‘espírito de povo’... Para começar, será necessário conseguir aberta e sinceramente acostumar-se à noção da existência de entidades que não se apresentam ao poder de percepção material ordinário e não se expressam na esfera sensorial; habituar-se à noção de que entre as entidades perceptíveis aos sentidos existem outras invisíveis atuando entre os primeiros, da mesma maneira como a entidade humana atua nas mãos e nos dedos. Assim poder-se-á falar do espírito do povo suíço como se fala do espírito de uma pessoa, distinguindo-se esse espírito da pessoa daquilo que se apresenta nos dez dedos; também se deve distinguir o espírito do povo suíço dos milhões de indivíduos que vivem nas montanhas da Suíça, por ser algo diferente e uma entidade, como o é o próprio ser humano. Os indivíduos distinguem-se desse espírito pelo fato de apresentarem ao poder de cognição humana um exterior sensível. O espírito de um povo não oferece algo que pode ser percebido pelo poder de cognição apenas sensória, como o é o ser humano que pode ser visto e percebido pelos órgãos externos; todavia, o espírito do povo é uma entidade real.” (Steiner R., 1986, p.14).

 

A “Missão das Almas dos Povos” e “Povo”

Como um desdobramento natural de nossa busca pela identificação da  “alma” do povo brasileiro, o Grupo Pindorama procura, ainda, caracterizar a “missão da alma” desse Povo. Tal tarefa também é empreendida tendo como fundamento os estudos antroposóficos realizados por Rudolf Steiner nesse sentido:

“Observando os diferentes povos da Terra e escolhendo o exemplo de um ou outro, teremos nas qualidades peculiares, características desses povos, em sua vida e seus hábitos característicos, uma imagem do que podemos entender como a missão dos espíritos dos povos.”

“Conhecendo a missão dessas entidades inspiradoras dos povos (os chamados Arcanjos)[1], sabemos o que é povo. Povo são pessoas pertencentes a um mesmo grupo e dirigidas por um Arcanjo.” (idem, p. 19).

O Grupo Pindorama e os estudos da “Alma do Povo” brasileiro

O Grupo Pindorama surgiu a partir do impulso de um grupo de pessoas, liderado por Ute Craemer, interessadas em estudar a “Alma do povo” brasileiro a partir da  cosmovisão antroposófica.

O nome Pindorama, escolhido para representar esse Grupo de estudos, é uma “homenagem” aos primeiros habitantes de nosso País.

Pindorama, na língua Tupi-guarani, significa “terra das Palmeiras” e era assim que nossos indígenas denominavam o Brasil antes de seu “descobrimento” pelos portugueses.

A escolha desse nome deve-se a dois motivos: primeiro pelo fato de existir em nosso país uma grande variedade de palmeiras como dendê, babaçu, carnaúba, coqueiro, entre outras. O segundo motivo se remete a uma tradição Guarani, que considera  que a vida na “morada terrena” seja assegurada por cinco palmeiras (Jecupe, K. W., 2001, p.62). Depois de edificado o plano material terreno, os cinco “Seres-trovões, os espíritos co-criadores” têm suas moradas sagradas “marcadas por cinco palmeiras azuis que se erguem nas quatro direções e no centro. A palmeira é um dos seres de grande responsabilidade e poder para a tradição.” (idem, p.78).

O primeiro grupo de estudos formou-se ainda na década de 1980 e inicialmente centrou seus trabalhos nos estudos realizados por Rudolf Steiner em sua obra “A Missão das Almas dos Povos”.

Na década de 1990, os estudos se concentraram naquilo que teriam sido as contribuições dos povos indígenas e africanos à cultura brasileira, procurando, em seguida, dar-lhes a fundamentação antroposófica. 

Foi então que o Grupo passou a ser denominado “Grupo Pindorama”. Também é da década de 1990 a publicação da apostila “Na procura da alma do Povo”, cujo propósito era tornar acessível o que já havia sido pesquisado e despertar o interesse de outras pessoas pelas atividades ali desenvolvidas.

A partir de 2001, os trabalhos do Grupo passaram a contar com vários participantes atuantes em instituições antroposóficas ou de alguma forma interessados naquela cosmovisão, entre os quais professores, médicos, antropólogos, jornalistas e outros.

Desde então o Grupo passou a reunir-se mensalmente,  realizando uma série de palestras proferidas por profissionais de diversas áreas, ligadas ou não à Antroposofia, mas sempre, de alguma forma, à pesquisa dos aspectos formativos da diversidade característica da “alma do povo” brasileiro, enriquecendo, assim, os trabalhos ali realizados.

Em 2001 foi publicado o livro “Valorizando o Índio”,  cuja meta era levar aos professores das escolas Waldorf elementos da educação das crianças indígenas, seus sons, músicas, ritmos e outros aspectos que pudessem ser incorporados ao currículo daquelas escolas, tornando essa cultura uma realidade na prática escolar.

Em 2005 foi realizada a publicação do livro “Revelando a África”, que enfoca vários aspectos do que a África representa para o planeta, segundo a visão antroposófica desenvolvida por J. Lawrence no Capítulo “África, coração do mundo”, do livro Invisible África.

Dando continuidade àquelas publicações, a presente apostila traz o conteúdo de uma série de palestras realizadas por convidados especiais e outros estudos realizados pelo Grupo nos últimos anos.

Elas estão divididas por temas que formam um aspecto dentro da complexa  caracterização de “Alma do Povo”, desenvolvida por Rudolf Steiner em sua obra “A Missão das Almas dos Povos”.

O tema “povos”, por exemplo, que inicia essa série de estudos, constitui um aspecto do que Steiner descreve como “aura etérica”

Segundo Rudolf Steiner, cada região terrestre tem uma ‘aura etérica’. Ele faz uma comparação entre a aura etérica de um ser humano e a aura etérica regional, sendo que a primeira sofre alterações de forma muito mais lenta e “muda somente à medida que esse indivíduo evolui relativamente sua inteligência, moral e outras qualidades.” É uma transformação interior. Já as auras etéricas regionais mantêm por tempos prolongados um certo matiz básico inalterado, porém “também sofrem alterações bruscas; e são justamente elas que as distinguem das auras humanas... As auras das várias regiões somente se transformam no decorrer do desenvolvimento da humanidade na Terra, quando um povo abandona seu domicílio, instalando-se numa outra região terrestre. O singular é que de fato a aura etérica sobre certa região não se relaciona unicamente com o que emana do solo, mas em grande escala com o povo que fixara domicílio naquela região.” (Steiner, R., 1986, p.25).

Nesse primeiro volume, como um dos aspectos a ser investigados é a “aura etérica” do Brasil, que é formada “em grande escala” pelo povo que aqui fixou seu domicilio, principiamos nossas análises por aquele povo que já habitavam nosso país antes de seu “descobrimento” pelos portugueses: os “índios”.

Wanda Ribeiro[2]

pelo Grupo Pindorama

São Paulo, setembro de 2009.

Povos

ÍNDIOS

 Podemos imaginar os sentimentos de coração para coração ao se encontrarem duas pessoas desse tipo: o representante de homens que chegaram da Europa e o de homens que, em tempos remotos, quando se distribuíam em raças, haviam-se radicado no oeste. Nessa ocasião, os índios haviam levado para o oeste tudo o que foi grande na cultura atlântica. O que era o máximo para o índio? Era a possibilidade de continuar a sentir algo da grandeza e da magnificência presente nos tempos da velha Atlântida, época em que ainda estava no início a divisão em raças, e na qual os seres humanos ainda podiam erguer seu olhar ao Sol e perceber os Espíritos da Forma, embrenhando-se através do véu brumoso...” (Steiner R., 1986, p.80)

 

Um índio

Caetano Veloso

Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante

De uma estrela que viera numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros, das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
 
Virá, impávido que nem Muhamed Ali
Virá, que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá, que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee
Virá, que eu vi
O Axé do Afoxé Filhos de Gandhi, virá
 
Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido,
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto, em cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico
 
Num ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente, descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá fará, não sei dizer assim
De um modo explícito
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio

 

A. Apresentação

O “índio”

“O índio não chamava nem chama a si mesmo de índio. O nome ‘índio’ veio trazido pelos ventos dos mares do século XVI, mas o espírito índio habitava o Brasil antes mesmo de o tempo existir e se estendeu pelas Américas para, mais tarde, exprimir muitos nomes, difusores da Tradição do Sol, da Lua e do Sonho” (Jecupé K.W., 1998, p.13).

Para realizarmos nossos estudos sobre os “índios” do Brasil, nada mais adequado que termos um “informante” pertencente àquele povo.

Nosso “eleito” é Kaká Werá Jecupé, que se autodenomina um “Txukarramãe pelo fato de ser um guerreiro sem armas, simplesmente”, cuja tarefa é, segundo ele mesmo, a partir dos ensinamentos que lhe foram passados, “difundir a tradição, plantando agora, para o próximo Ciclo da Natureza Cósmica nessa terra chamada Brasil, sementes ancestrais para o florescimento de uma nova tribo”(idem, p.12).

Os ensinamentos que Kaká nos traz fazem-nos pensar que a música de Caetano Veloso, que abre esse capítulo, foi feita sob medida para ele.

Tais ensinamentos mostram uma estreita proximidade com  a cosmovisão trazida pela ciência espiritual antroposófica, como veremos adiante. Também ao encontro do “ideal” antroposófico, está o fato de desejar plantar agora algo para o que Kaká denomina “Ciclo da Natureza Cósmica” e que a Antroposofia chama de “Época Cultural”.

Essas foram as principais razões para que os “ensinamentos” trazidos por Kaká Werá Jecupé fossem a nossa principal fonte de investigação dos “índios” do Brasil.

 

Kaká Werá Jecupé

Kaká Werá Jecupé é de família Tapuia do norte de Minas Gerais. Seus pais  migraram para São Paulo, onde ele nasceu.  Lá, “tornou-se” Guarani  e foi nomeado Werá Jecupé pelo cacique Guyrá Pepó da aldeia Guarani Morro da Saudade, localizada na zona sul paulistana. Kaká, então, aprendeu com seu padrinho Alcebíades Werá, um “pajé centenário”[3] as “palavras formosas” daquela cultura.

Em Itapecirica da Serra, Kaká Werá desenvolve, já há alguns anos, um trabalho pelo Instituto Arapoty, que procura fazer um resgate da cultura indígena a partir do que ainda existe dela.

Kaká Werá Jecupé desenvolveu um trabalho de pesquisa, tendo vivido em muitas aldeias Guarani[4]. Participou de vários encontros de povos indígenas.

A partir de um convite do Museu do Universo do Rio de Janeiro para apresentar a cosmovisão indígena brasileira, sentiu-se fortalecido para a tarefa de resgatar a cultura daqueles povos, reconstituindo-as e difundindo-as. Em suas palavras:  “trazer a memória das raízes. Devolver a memória de que o povo Tupi é. De que cada parte da natureza faz parte de nós. Não esquecer que nós somos o quanto nós somos: uma chuva, um animal, uma planta. A natureza é o corpo físico de Tupã. Congraçar essa memória com a natureza através dos ritos; sensibilizar novamente o que em nós começou a ser desligado a partir de 1500.”

Breve introdução sobre os principais povos indígenas trazidos por Kaká Werá

Tupi

O povo Tupi tem a sua origem nos primórdios da Terra, na primeira raça[5] humana encarnada, chamada os “povos vermelhos”, os “filhos do Sol”.

Esse povo chegou ao seu apogeu, seu amadurecimento, numa região onde hoje é o Brasil. Nesse amadurecimento, adquiriu a compreensão da vida humana através de uma série de vivências sobre os diversos ciclos temporais da Terra. Naquele tempo não havia separação entre os seres dos elementos  terra, ar, água e fogo e eram entidades superiores que preparavam a encarnação na Terra.

Então, veio uma época em que começaram a chegar seres que vinham de outras estrelas e que não tinham passado pelo mesmo amadurecimento que os filhos do Sol.

Esses seres de outras estrelas trouxeram questões cármicas difíceis e isto começou a pesar. Então houve um conselho cósmico[6], formado por doze pajés anciãos, que eram os guardiões da sabedoria da vida. Por ocasião desse conselho, foi decidido que aqueles doze se encarnariam, de tempos em tempos para que a sabedoria não fosse deturpada ao longo dos ciclos e também para apoiar aqueles seres que não tinham relação com a Terra e seus elementos.

Os primeiros sábios a se encarnar foram Arapitã, Maíra, Urupari.

Essas encarnações, assim como a de Uiba Jubá, o “Flecha dourada”[7] são sempre dos ‘seres do Sol’ e têm como propósito maior a manutenção dos conhecimentos baseados no amor e na sabedoria, embora não se trate de encarnações de uma mesma individualidade.

Aquilo que está guardado na memória sagrada, a sabedoria primordial, que existe como lastro na Terra é um propósito muito antigo. É importante vivificar essa memória para prosseguir no caminho evolutivo para o próximo ciclo.

Muitas almas, que estão encarnadas, terão que fazer o resgate dessa sabedoria numa linguagem adequada: a linguagem inserida na natureza, nos elementos da natureza.

Os Tupi vieram de uma civilização que afundou. O primeiro grupo migrou num círculo de fogo e aqui passaram a interagir com os espíritos da Natureza. Tendo encontrado os povos que já habitavam esse território, se miscigenaram.

A cultura Tupi era muito forte e influenciava os outros povos, como por exemplo, em seus sistemas de agricultura, sua medicina e filosofia.

A palavra Tupi significa ‘Som assentado’, que naquela cosmovisão é o próprio ser humano. “Tu” = som e “Pi” = assento. Essa palavra também encerra a essência dos ensinamentos Tupi, como veremos mais adiante[8]. Quando uma pessoa encarna, ela recebe um banco, um assento, que é o corpo físico. Pode-se, então, traduzir “Tupi” também como “som em pé”, “ser assentado”.

Segundo Kaká Werá, “foram os Tupi, do sul ao norte do litoral do País, os primeiros a terem contato com os portugueses. Entre estes, alguns se tornaram membros da aldeia e tiveram filhos, que em sua maioria eram de uma mãe Tupi, submetida a uma relação imposta.”

Guarani

“O povo Guarani trabalha com ensinamentos recebidos dos grandes pajés. Esses ensinamentos eram dados ao redor do fogo”, afirma Werá.

Os Guarani têm toda sua cultura fundamentada já no limiar da civilização. As suas reservas territoriais são, em geral, áreas pequenas, onde a população tem que sobreviver.

Hoje, esse povo sobrevive graças à venda de artesanato ou da colheita de bromélias, palmito etc.

Na tradição ancestral do povo Guarani, o comer e o vestir estavam diretamente relacionados a sua cosmovisão. Tudo era ritualizado. Hoje, apenas em seus cerimoniais é que eles precisam estar vestidos ‘a caráter’. Mas todo o seu dia-a-dia está ligado àquela cosmovisão de seus antepassados.

Os Guarani têm dificuldade de se relacionar com o homem branco e isto se deve ao fato de a linguagem ter uma importância fundamental em sua cosmovisão: falar é vida, é emitir espírito. Comer, por exemplo, é uma atividade que deve ser feita em silêncio.  Kaká Werá conta um episódio, no qual um índio não conseguia comer numa pizzaria, porque havia muito barulho.

Da mesma forma, o canto, que é a fala entoada, tem seu aspecto espiritual. Todas as noites, sua  aldeia se reúne para entoar as canções sagradas. Existem rituais que têm momentos de recolhimento, quando são entoados os cantos sagrados, onde a cosmovisão é fortalecida. Toda a aldeia se reúne e, na hora em que o sol se esconde, tocam-se rebecas[9].

Segundo Werá, as casas em uma tribo Guarani são de pau-a-pique e não tem saneamento. Eles vivem daquilo que a natureza oferece, sem grandes propriedades materiais, mas repletos de valores espirituais.

Tapuia

O povo Tapuia, “não era um povo único. Eram muitos povos, brotados de diversos lugares: cerrado, litoral atlântico, serra...” (Jecupé, K.W., 1998, p.28).

Tapuia eram os povos que não eram Tupi, habitavam Goiás, Mato Grosso, tiveram mais contato com outros povos no século XIX e XX. “Foram os primeiros a serem escravizados”, afirma Kaká Werá.

O povo Tapuia aprende através dos sonhos, pois eles acreditam que os grandes ensinamentos estão do ‘outro lado’, que não pode ser acessado de olhos abertos. Eles têm, na aldeia,  toda uma educação para entrar nesse estado de sonho. A medicina usa o som, cantos e ervas. Esses sons são sonhados. Existem rituais para entrar em contato com os ancestrais, nos quais pode-se ‘viajar’ até sua morada.

A medicina Tapuia é a que utiliza os elementos e os espíritos da natureza.

Para os Tapuia, cuja tradição oral conta que eles vieram atrás do tatu que se enfiou na terra, só se podia caçar ou pescar se fosse pedida autorização aos espíritos da natureza.

Tupinambá

Os Tupinambá habitavam primeiramente o centro do Brasil. Só mais tarde migraram para o litoral, principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Maranhão. “Os Tupinambá seguiram um caminho guerreiro expansionista. Doutrinaram muitos povos, que se tornaram os Tupi-Guarani, e escravizaram outros tantos, que denominavam “Tapuia”, por acharem-nos muito atrasados em relação à cultura tupi” (Jecupé, K. W., 1998, p. 45).

B. Aspectos centrais das cosmovisões dos povos indígenas estudados por Kaká Werá[10] 

“Tupi, guarani, Tupinambá, Tapuia, Xavante, Kamayurá, Yanomami, Kadiweu, Txukarramae, Kaingang, Krahô, Kalapalo, Yawalapiti. São nomes que pulsam no chão dessa terra chamada Brasil, formando suas raízes, troncos, galhos e frutos.

São Raças? Nações? Etnias?

São a memória viva do tempo em que o ser caminhava com a floresta, os rios, as estrelas e as montanhas no coração e exercia o fluir em Si.” (Jecupé K.W., 1998,p.19)

Introdução

A tradição indígena é mais oral e ritualística. Ela preserva sua memória por ritos, cantos e ensinamentos fechados, secretos. Através dos mitos cada povo expressa um pedaço da memória de seus ancestrais. É a chamada “memória cultural”, “que é a forma original da educação nativa, que consiste em deixar o espírito fluir e se manifestar através da fala aquilo que foi passado pelo pai, pelo tataravô. A memória cultural também se dá através da grafia-desenho, a maneira de guardar a síntese do ensinamento, que consiste em escrever através dos símbolos, traços, formas e deixar registrado no barro, no trançado de uma folha de palmeira transformado em cestaria, na parede, no corpo, através de pinturas feiras com jenipapo e urucum (idem, p. 26).”

Dos elementos da “memória cultural” resgatados por Kaká Werá, julgamos de essencial importância ressaltar aqueles que perfazem a base da visão de mundo, ou cosmovisão, dos povos indígenas, como segue: 

a) A Trindade Indígena

Segundo Kaká Werá Jacupé, “na tradição Tupi, o Sol é a origem dos grandes mestres que se sacrificaram, mas também é o lugar de onde todos nós viemos.”

“Existe um fundamento original, chamado de Kuaracy, que é a palavra que foi designada para o sol, mas se ela fosse traduzida literalmente seria emanação-mã. Kuara significa emanação e a palavra Cy  significa mãe. Então, Kuaracy, para onde retornou aquele ser Sumé[11], é o local de origem comum de todos nós. Por isso a palavra sol na língua Tupi significa literalmente emanação-mãe, a origem de todos, não só dos Tupi.”

Esse sol, Kuaracy, tem uma fonte, que para nós é um grande mistério, que chamamos Ñamandu, muitas vezes é traduzido como silêncio luminoso, outras vezes o inominável.”

“Se perguntar a um pajé guarani o que é Ñamandu ele dirá que é o nome espiritual do sol. Parecerá algo dúbio, mas é a mesma coisa percebida de modo diferente. É um sentido tão profundo que não temos uma concepção racional sobre ele e  Kuaracy, que  é o aspecto feminino dele”, esclarece Werá.

E prossegue, “aí temos outro aspecto, formando uma trindade, que é Tupã; a parte da trindade que é a Manifestação. Tupã é a vibração. Se formos comparar à tradição Cristã, seria o Verbo. “

“Essa é a maneira como eu entendo essa trindade:”

“Oguerojera, que significa desdobramento: Ñamandu desdobra Kuaracy, que desdobra Tupã. Há algo em Ñamandu, que não conseguimos compreender, mas que é o mesmo ser. No meu livro Tupã Tenondé Ñamandu está qualificado como o amor universal. Auquele que podemos intuir, perceber, vibrar, a essência de todas as origens, que tem a ver com o Sol.”

“A palavra mais próxima de Ñamandu é o Imanifestado. Ele é o sol também, mas é aquele momento antes da Manifestação, pois Kuaraci é a Emanação permanente da vida.”

“Quando se fala de Tupã, está se falando da ação criadora, vinculada à Justiça. Ele dá a direção da energia, ele assusta, mas também acolhe, contém, gera a vida. Na tradição Tupi, quando você quer assustar alguém você diz: ‘vou chamar Tupã, o trovão’. E quando quer realizar um projeto, um sonho, você evoca Tupã.  Então ele tem essa dupla característica.”

b) O conselho dos doze sábios

“Na tradição tupi, para preservar o equilíbrio da Terra, não podiam ser deturpados os conhecimentos e, alguns seres, doze pajés velhos ficaram responsáveis pela manutenção desse conhecimento, o quarto mundo, na Quarta dimensão, sobre a região onde hoje é a Amazônia, em outro nível. Eles são chamados de guardiões da sabedoria e junto com a sabedoria de outros mestres, formam a sabedoria cósmica, formando um grande conselho...” (Valorizando o Índio, p. 10).

Kaká Werá nos esclarece, “no mundo em que nós vivemos, o mundo tridimensional, essas sabedorias antigas se perdem. Creio que isso acontece com todas as culturas humanas, não só na indígena. Nós passamos por evoluções e involuções, algumas sabedorias se fragmentam, e muitas se perdem. No nosso caso, no Brasil, nem é preciso falar muita coisa. Não só no Brasil. Nas Américas, nos últimos 500 anos sofremos uma fragmentação de toda uma sabedoria antiga.”

“Há estudiosos, algumas pessoas mais sensíveis, preocupados com essa perda e fazem tentativas de resgate dessas sabedorias.”

“No caso desse conselho de doze anciãos, a evolução, em termos de sabedoria, tem uma continuidade que não é só nesse mundo físico. A evolução humana também tem uma continuidade que não é só no mundo físico.”

“A morte física desagrega os elementos físicos e nosso ser continua em seu caminho espiritual.”

“Embora nosso caminho seja retornar ao sol, ao grande sol,  esse retorno também passa por fases em mundos não físicos. Tem algo que se chama “quarta dimensão”, que nada mais é que um mundo muito semelhante ao físico, mas que não é físico. É um ponto onde nossas almas evoluem após a etapa física. É complexo falar da quarta dimensão, mas no caso desse mito dos doze sábios é importante colocar. Entre a terceira e a quarta tem percalços, desvios, mundos paralelos, mundos diversos.”

“Na cultura ancestral Tupi, a quarta dimensão é continuidade de uma etapa de vida, próxima à vida física: temos corpos, paisagem, mas não são físicos e sim etéreos. Nessa dimensão não existem os tipos de conflitos que existe na terra: guerra, histórias destrutivas. É uma dimensão onde existem templos, escolas, e onde essa sabedoria das raças está preservada num conselho de sábios. Eventualmente, quando essa sabedoria pode servir de apoio para um salto evolutivo, então,  ela é distribuída novamente através de canais, de pessoas que passaram por esse mundo físico, almas, espíritos, que adquiriam essa sabedoria. Fazem parte desse conselho ou não, ou fazem parte das escolas desse conselho e são designadas para renascerem, para reintegrarem de novo o ritmo da evolução humana pela sabedoria. Esse conselho existe sim, essas escolas existem sim, só que não é no mundo físico.”

“No caso do povo Tupi, o local onde essa sabedoria está preservada fica na região onde hoje é a Amazônia. Se na Amazônia  temos esse tipo de conflito no mundo físico, no mundo mais etéreo, na quarta dimensão, existe todo um grupo de seres evoluídos, que procuram, de alguma maneira,  colaborar com a evolução humana transmitindo a sabedoria dessas escolas nesses níveis mais etéreos. É isso o que está na concepção do ‘conselho dos doze sábios’.”

“Cada grupo de evolução tem seus locais de referência em níveis intermediários. No caso da tradição Tupi temos a Amazônia, no caso da tradição inca, da tradição andina, as montanhas do Titicaca. O sul também tem seus locais. Locais etéreos, que são pontos de ligação entre os mundos físico e  o não-físico. Também tem focos intermediários que são locais geográficos, mas não físicos.”

“Esse conselho é de anciãos da humanidade. Dentro desse conselho temos aquele que está ligado diretamente com essa raça, esse povo e não está encarnado.”

“Nossa origem espiritual está dentro de um padrão que chamamos de ‘raça vermelha’, que tem um sentido diferente do entendimento de raça que se tem no senso-comum.”

“Os Tupi fazem parte da raça vermelha, não no sentido físico, mas no sentido espiritual. Entendendo raça aqui como um grupo de almas que configuraram um mesmo sistema de costumes, de padrões culturais. Então, nós nos identificamos como ‘povo vermelho’.”

“Raça”  e “Raça Vermelha”

“Os Tupi provêm do primeiro agrupamento humano, remanescente de uma primeira memória ancestral. Nesse sentido, têm um mestre, um ancião dessa ‘raça’.”

“As outras raças que consideramos são a negra, a branca e a amarela. Embora estejam separadas por cores, não são cores físicas, mas códigos espirituais. Relacionamos essas raças a determinadas forças da natureza e não exatamente a estrutura racial, à cor da pele.”

“Quem são anciãos dessas raças? Também estão relacionados a seres que têm um trabalho de evolução de consciência, a uma sabedoria específica ligada a essas forças da terra, conseqüentemente  do céu.”

“Um exemplo:  a raça vermelha, para nós, está ligada ao elemento terra. E esse elemento está ligado, por sua vez, a um foco evolutivo que tem uma organização de sábios que o focalizam. Os doze sábios estão ligados a esse tipo de qualidade também.”

“Aí, por exemplo, a raça amarela, para nós, está ligada ao elemento fogo e não necessariamente aos orientais, mas aos seres que evoluem por essa qualidade de conexão. A raça negra está ligada ao elemento água e a raça branca, ao ar.”

“E, aí, cada uma dessas raças, enquanto conexões com essas forças, têm determinadas sabedorias mais apropriadas para esses campos de evolução. É nesse sentido.”

 “A cor vermelha, negra, amarela e branca, são mais códigos sagrados do que necessariamente cor da pele.”

‘Uma individualidade passa por todas as cores espiritualmente. Embora passe por todas, tem um ponto de conexão maior. Por exemplo, a raça vermelha, se materializou como raça indígena, os povos da terra, por que a conexão daquela raça se agregou mais àquela qualidade de elemento, a terra. Cada raça tem um mestre daquela qualidade. Não no sentido de um único ser, pois pode ser um conjunto de seres. E dentro desse conjunto, aquele que é um ‘pai’, digamos assim, daquela ‘raça’.”

Nandejaras, os espíritos mestres

Nhande, significa nosso e jará, senhor, que são esse conjunto, nossos senhores. Temos os Nandejaras que passaram pelo circulo de evolução humana e os que não passaram, mas que também são mestres.”

“Por exemplo, o vento tem um Nandejara, um espírito mestre com o qual podemos entrar em contato e extrair ensinamentos que são do reino elemental, assim como o fogo. Não estou falando dos elementais do fogo nem do vento,  mas dos mestres ligados a esses elementos.”

c) Porá-Hey, os sons que curam

“Um conhecimento extremamente antigo dos povos da tradição Tupi trata da importância do som para um grupo, uma comunidade ou um indivíduo, a partir do pensamento e da filosofia desse povo.”

“As palavras Porá-Hey significam som sagrado, ou, em alguns casos, sons divinos, e por isso, sons que curam.”

“Antes de abordar o seu significado mais profundo, Kaká Werá nos conta um pouco da história que remete à origem dessa tradição dos “sons que curam”; a história derradeira das culturas que mantiveram, e que mantêm ainda hoje, este conhecimento.”

“As culturas a que se refere declinam no momento em que nasce o que conhecemos hoje como Brasil. Vêm-se fechando nesses últimos 500 anos, tornando-se dispersas e fragmentadas, escondidas de certa forma das gerações brasileiras.”

“A cultura que trabalha com a consciência do som, com o Porá-Hey, está ligada ao povo Tupi, e este povo faz parte de uma grande nação, que reúne várias etnias da língua do mesmo nome.”

“Das etnias antigas mais conhecidas, há os Tupinambá e os Tupiniquim, que tiveram contato com o ocidente, com os povos franceses, portugueses e holandeses na costa brasileira, e os Tupi-guarani. Estes últimos, dos quais ainda hoje restam alguns grupos, dividem-se mais ou menos em seis etnias que vêm de famílias do mesmo tronco lingüístico Tupi e são:  Guarani-caiowá, Guarani-indiá, Guarani-nandeva, Guarani de Guacá, e os Abaeté.” 

“Voltando ao Porá-Hey e ao seu significado: em tempos remotos, há mais de 2000 anos, a grande nação Tupi foi-se espalhando pela América do Sul, em torno do Brasil (hoje), fazendo um desenho de expansão que, segundo estudos de alguns antropólogos e historiadores, inicia-se mais ou menos nos Andes, na região que faz divisa com Roraima, naquele “miolo amazônico”, descendo até a Patagônia; retomando pelo que hoje é o sul do Brasil - o Rio Grande do Sul -, subindo pelo litoral e encerrando-se depois do Ceará.”

“A expansão Tupi faz este percurso, e leva de quinze a dezoito mil anos para completá-lo. Vai-se expandindo, subdividindo-se e fragmentando-se, e com o passar do tempo, o que une essa nação é um conselho que faz a ponte entre as aldeias e as malocas (na língua Tupi, maloca significa conjunto de ocas, ou cidade).”

“Essas malocas vão-se espalhando, mas mantêm-se unidas pelo conselho de líderes ou de sábios, que normalmente é formado pelas pessoas mais idosas, designadas tamãi (sábios). Na língua portuguesa do século XVI, esta palavra é adaptada para “tamoio”, e nos livros de história do Brasil, infelizmente, tamoio aparece como um povo indígena, ao invés do sábio de cada uma dessas malocas, que podia ou não ser de etnia Tupi.”

“Com o passar do tempo, os Tupi foram criando sistemas de relacionamento com outras tribos, com outros povos, e estes sistemas designavam-se akitamem, - o conselho dos anciães, - ou o conselho dos tamoios.”

“Os sábios eram responsáveis também pela transferência dos ensinamentos sagrados, e muitos deles  eram ainda sacerdotes ou pajés . Tinham que ter, por esse motivo, um conhecimento profundo das leis da natureza. Os sacerdotes nativos lidavam com as forças e os espíritos da natureza, e precisavam conhecer as leis cósmicas. Os tamoios preservavam o conhecimento dessas leis e difundiam-no em determinados círculos, em certos templos. Desta forma, o conhecimento do Porá-Hey ficou guardado na memória dos tamãi, que eram anciãos e sábios. Kaká Werá refere-se principalmente aos que pertenciam ao grupo Tupi, mas havia tamãi de outros grupos também. Existiu no século XVI, por exemplo, um tamoio que se fosse divulgado corretamente, poderia ter sido considerado um herói da nação. Chamava-se Aimberê  e pertencia ao povo Aimoré, que não era Tupi, sendo, apesar disso, considerado um tamoio. Um outro chefe tamoio importante, da região de São Paulo, do planalto, foi Aguaretê.”

“Os últimos conselheiros guardiões dessa sabedoria habitavam regiões que ficavam exatamente entre Rio e São Paulo, onde se encontra hoje Ubatuba, Paraty, Angra dos Reis e Búzios.”

“O Porá-Hey fazia parte do sistema pelo qual os tamoios harmonizavam as comunidades e pelo qual faziam os trabalhos, quer fossem de cura individual, quer fossem de cura da terra. Para os Tupi isso é mais que uma oração, mais que uma reza.”

“No plantio do milho, da mandioca e do mate, que eram e são alimentos que fazem parte da tradição Tupi, a preparação dos canteiros era totalmente feita com esses sons, onde a comunidade reunida produzia os sons sagrados. Ainda hoje algumas tribos, alguns povos, atuam desta forma. Um deles é o povo Guarani, que habita o litoral de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul, o Espírito Santo e o Parque Nacional do Xingu. Também o povo Camaiorá e o Iarapity. Embora este último não seja um povo Tupi, é influenciado e adota as práticas dos Camaiorá, que é um povo Tupi .”

“O Porá-Hey é uma forma de harmonizar o espírito da natureza e compreende o trabalho com o espaço e o ambiente, trabalho de harmonização que leva a “acordar o espírito das coisas”, da Terra e das águas. Compreende também o trabalho individual, de harmonização de pessoas, e o trabalho interno de cada um. Assim, o Porã-Hey é mais do que um sistema de reza, um sistema de palavras para serem recitadas, ou rezadas. Todos os povos do Brasil têm uma consciência, senão da maneira que os Tupi conceberam, sistemática e organizada, uma consciência intuitiva, uma consciência ancestral de Porã-Hey como som de cura, e essa consciência vai mudando de povo para povo. Ela está no povo Kraô, no povo Xavante  e em diversos outros.”

“Não amanhecia o dia sem que as comunidades Tupi se reunissem em torno de um pátio central, em círculo, entoando o Porá-Hey. Esta prática fazia, e ainda faz, parte das comunidades, até mesmo daquelas que, como a Guarani, recebem mais influências da sociedade e que, para sobreviver, têm que interagir com ela. Fazem reuniões matinais ou noturnas, e praticam o Porá-Hey para se harmonizarem, e para se curarem, mantendo a sua conexão com a Grande Vida, com o Grande Curso de Vida.”

“De acordo com a tradição dos tamoios, no início dos tempos, vieram para fundar e organizar a vida na Mãe Terra, Seres divino-espirituais, por eles chamados de Trovão. Esse trabalho foi feito, de acordo com os tamoios, através de cantos e sons entoados por esses Seres. Os tamoios dizem que a criação de todas as coisas que existem na natureza, inclusive o homem, foram edificadas a partir desses sons divinos e sagrados. Os tamoios acreditam, assim como os Guarani, que todo o Universo, incluindo a Terra, e a natureza como um todo, foram compostos por sete sons sagrados. O Porá-Hey  é a entoação de um ou mais desses sete sons, ou engloba os sete sons ancestrais que organizaram o mundo, e fazem com que ele vibre, e se conecte com as energias primordiais, com a Vida Primordial, e assim se renove através da entoação e dessa conexão. Os sons do Porá-Hey não são criados pela razão humana; são sonhados ou intuídos, no decorrer dos tempos, pelo tamiã, tamoio, ou sábio da comunidade, ou por mais pessoas. Os tamoios dizem que existe uma seqüência de notas ancestrais para cada um de nós. É o nosso som pessoal, o nosso som de poder, o nosso Porá-Hey. Entoando esses sons, a pessoa cria uma conexão com o seu espírito ancestral, que é a parte que recebe as energias cósmicas da vida; a porção que trabalha e organiza as energias dentro da pessoa, e revitaliza o seu sistema energético.”

“A prática de Porá-Hey para  os povos da tradição Tupi é cotidiana. No entanto, existem determinados sons entoados de acordo com objetivos específicos, que podem ser de cura, de harmonização de um espaço, ou de formação de um pajé ou sacerdote.”

“No século XVI, uma série de acontecimentos fez com que os últimos tamoios se retirassem da Terra. De 1530 a 1560, mais ou menos, aconteceram batalhas extremamente sangrentas e dramáticas entre os Tupinambá, - dos quais faziam parte os últimos tamoios, os Aimoré, e os Guaianá, que eram povos de São Paulo, - com os portugueses. As últimas grandes batalhas, que acabaram com os tamoios, aconteceram no Rio de Janeiro, na aldeia de Paranapoã, hoje baía da Guanabara, na região de Búzios, e em São Paulo entre Ubatuba e Santos, disseminaram a última nação Tupinambá e fizeram com que esse conhecimento não fosse passado adiante. Os Guarani recolheram-no para ser usado somente nas suas casas de reza, e de canto, chamadas de “ocu”. Todas as comunidades Guarani  têm a sua “ocu”, a sua casa de canto ou de reza. Lá são entoados Porá-Hey e são realizadas as curas da comunidade. É ancorada a força espiritual daquela comunidade, daquele povo. Eles mantêm a prática de Porá-Hey, mas perdeu-se a essência, o conhecimento mais profundo das suas origens, o sentido mais racional por assim dizer. Contudo, algumas aldeias Guarani têm mantido essa memória viva. Recentemente algumas delas lançaram um CD chamado Ñande Reko Arandu, que traz cantos com vozes de crianças. Esses cantos são Porá-Hey, onde o significado de Arandu é sabedoria, e de Ñande Reko, o nosso jeito, o nosso ser, quer dizer, mais ou menos: a sabedoria do nosso povo, o jeito do nosso povo.”

“O Porá-Hey guarani tem dois aspectos: um exterior, que procura manter a memória da trajetória da nação Guarani, contando a viagem do povo desde os tempos ancestrais até os dias de hoje, e um aspecto interior, compreendendo o que é sagrado, onde, ao se pronunciar  aqueles sons, promove-se uma determinada harmonia nas pessoas que ouvem e nas pessoas que cantam. Contém uma parte narrativa e uma parte de cura.”

“Na visão Tupi ancestral, cada um de nós, ou melhor, o nosso corpo, é um assento, uma casa, e o nosso ser tem um som. Para os tamoios, na prática Tupi, cada um de nós, em essência, é um padrão vibratório. Somos postos dentro de um corpo físico que chamamos de py ou atuká, criando-se um “banco sagrado”, um assento que comporta os sons.”

“Entre a nossa parte física e a nossa essência divina existe uma conexão de sete notas, o que pode ser comparado com as sete notas musicais. Existe uma ligação ou um fio entre a parte física e a parte sagrada, ou melhor dizendo, a parte ancestral, e são as sete notas que fazem a amarração do ser. Entre a nossa parte exterior ou física, e a nossa parte sagrada, existe uma amarração de sete sons chamados de Porá-Hey.”

“Na concepção Tupi e dos tamoios, quatro desses sons são ligados às energias da natureza e ajudaram a formar o corpo físico, e três deles ajudaram a formar a essência divina, a essência ancestral.”

“São sons criados ou soprados pelos espíritos divinos e sagrados, ou espíritos ancestrais, quando edificaram a natureza. Três desses sons foram soprados pelo próprio Grande Mistério, ou Ñamandu, fazendo com que existíssemos e existamos desde sempre. É mais ou menos assim o que se narra nos cantos guaranis. Desse modo, é através da entoação de alguns desses sete sons que se cria uma conexão, e que se faz a harmonização.”

“O corpo físico como um todo, é chamado em Tupi de Umbaú e significa flauta andante, porque cada um desses sons tem um alojamento dentro de nós, tem uma correspondência no nosso corpo físico. Os sons não são apenas sutis. A este alojamento no corpo físico, os Tupi chamam ierê, que significa vórtice ou vento. Quando falamos, usamos esses sons o tempo todo, sem a consciência do poder de harmonização que eles têm. Assim, o Porã Hey faz a amarração com a nossa parte mais ancestral, a parte que pulsa dentro de nós. Acreditamos que, se não os entoarmos pelo menos por um pequeno período de tempo, o nosso Ser vai andar pela terra adormecido, e corremos o risco de passar a existência no plano físico, sem termos consciência dele, o nosso Ser.”

“As vogais são, na verdade, as forças mais simples que temos. São a base do Porá-Hey.  Falamos das vogais de todas as línguas, especialmente da língua Tupi. As vogais são sons de poder. São elas que sustentam a força do espírito, e cada uma tem um determinado valor, uma determinada qualidade, e a qualidade de cada vogal vai fazendo uma costura, uma trama energética, construindo as nossas partes sutis e não sutis. É isso que significa para nós o Porá-Hey.”

C. A Sabedoria dos Mitos

“... Entre a época pré-religiosa e a época da verdadeira consciência religiosa houve, no entanto, um estado intermediário. É deste que se originam todas as mitologias, as sagas e as histórias dos mundos espirituais dos diversos povos. É uma idéia abstrata, que nada intui dos verdadeiros processos espirituais, aquela que qualifica como pura invenção da fantasia popular todas as figuras da mitologia... Não, não se trata de fantasias poéticas dos povos...” (Steiner R., 2003, p.24)

Introdução

Rudolf Steiner ressalta no texto acima citado a importância do mito, afirmando que não se trata de meras fantasias, ou seja, eles contêm verdades ligadas aos mais profundos mistérios e aspectos da humanidade. A seguir, citamos três mitos da tradição Tupi-Guarani, ligados àquela cosmovisão, contados por Kaká Werá Jacupé em encontros diversos. Em tais mitos pudemos depreender alguns paralelos na cosmovisão antroposófica, os quais estão descritos logo após a apresentação dos referidos mitos.

a) a Criação[12]

“Tupã cria a Mãe Terra e desenha nela as formas futuras: montanhas, lagos, rios. Agora, precisa de alguém para continuar o trabalho de criação. Ele cuidou das grandes coisas: criou o primeiro ser humano, Tupi-mirim, que significa  “pequeno criador”.

“Esse primeiro ser humano não consegue habitar o mundo físico. Ele retorna a Tupã e diz que não consegue. E ele não consegue porque ele é etéreo, alado, luminoso, semelhante a um pássaro. Então, ele pergunta a Tupã: ‘Como faço para habitar esse mundo?’”

“Tupã responde: ‘procure nas quatro direções. Em cada direção você vai encontrar um mestre, que irá ensiná-lo como habitar esse mundo físico’.”

“Tupã-mirim retorna à Terra e saindo do Nascente vai ao Poente. Lá ele encontra uma pedra, e diz para ela: ‘pedra você pode me ensinar a viver aqui na terra?’ E ela diz: ‘claro que posso. Entra em mim, que você vai aprender’. Ele entra na rocha e medita na terra, pois a rocha faz meditação. Ele experimenta o corpo físico da rocha e diz: ‘ah então é isso que é viver na terra!’ E aí a rocha diz: ‘muito bem, você já aprendeu, agora pode sair’.”

“Depois ele vai em direção ao Sul, onde encontra uma palmeira (a palmeira é muito significativa na tradição). E aí ele fala para a palmeira: ‘como é que eu faço para habitar essa terra?’. Ela fala: ‘entra em mim que você vai aprender’. Ele entra e se torna à palmeira, se enraíza na terra. Então ele fala: ‘Ah isso é que é viver na terra?’ E depois a palmeira responde: pronto, você já aprendeu, agora busque outros mestres.”

“Aí, ele vai ao Norte, ao oposto, onde uma onça, que ele nunca tinha visto. Ele fala para ela: ‘você pode me ensinar a viver nessa terra?’ Ela diz: ‘claro, entre em mim’. E aí ele se torna uma onça. Pela primeira vez ele caminha pela terra, sente o cheiro, vê, corre. Então ele fala: ‘ah, então é isso!’ E a onça diz: ‘ pronto, você já aprendeu. Pode sair, siga seu caminho’.”

“Então , ele sai da onça e vai em direção a uma montanha, no Leste,  e olha no alto da montanha vê uma gruta. Ele sobe. Daquela gruta sai uma luz de dentro dela. Ele entra na gruta e vê que aquela luz que ele via sai de uma serpente prateada. Uma serpente que não causava medo, mas serenidade. Ele fala: ‘você pode me ensinar a viver aqui na Terra’ Ela diz: ‘claro, eu sou o espírito da Terra.’  ‘Como faço par viver aqui’? A serpente vai caminhando em círculos, acumulando do chão um barro, e vai formando duas pernas, quadris, tronco, braços, um molde, que é o do primeiro ser humano. A mãe terra diz: ‘entra aqui que você vai aprender a viver na terra’. Ele encaixa naquele molde. E aí a mãe terra coloca dois cristais que são os olhos e aí fala:  Vai lá fora que você verá o que é a terra. Quando ele sai, olha do alto da montanha e acha tudo maravilhoso, porque ele ainda não tinha visto a terra com olhos cristalinos. Tinha visto com olhos de onça, que é diferente. ‘Nossa, muito interessante’. E sente os pés na terra.”

“A mãe terra diz: ‘junto com o que te dei, você está levando meus dons. Os dons da terra, da água, do fogo e dos ventos.” “E o que faço com esses dons?”, pergunta Tupã-mirim.”

“Você tem quatro dons da minha influência. Com esses dons você me ajudará no mundo a fazer novas formas de vida. O que você quiser”, disse a serpente. “Além dos quatro dons, você recebeu também o dom de Nhandecy – dom de Tupã – e juntando os dons, você será imbatível”, completou a serpente.

“Como é isso? Onde está o dom de Nhandecy?”, perguntou Tupã-mirim.

“Está nas palavras”, respondeu a serpente. E completou: “e atenção, cuidado com o que pensa e com o que fala, pois o que você pensar e falar irá acontecer.”

E então ele desceu a montanha com os dons da Terra e com os dons do Céu. E experimentou o seu ‘poder’ dizendo: “arara”, e surgiu a primeira arara. Disse, então “urkurea” e apareceu uma coruja.  E assim foram surgindos os pássaros e ele viu que tinha o poder da palavra. E continuou, dizendo: “jacaré” e apareceu o primeiro jacaré. E assim aconteceu com os peixes, plantas, animais.

Passado algum tempo, ele retornou à gruta e falou: “Mãe Terra, vim devolver o corpo e os dons que você me deu para viver na terra.”

E ela respondeu: “pode ficar com esse presente, esse corpo, estar sempre assim”.

Ele diz:” eu tive a onça, a palmeira e a pedra e tudo isso eu devolvi. Já aprendi a viver aqui e agora quero voltar para a terra de meu pai.”

A Mãe Terra diz, então, para Tupã-mirim que ele pode ficar com o corpo o tempo que quiser e que, quando se cansar, pode fazer uma cova e lá deixá-lo. Isto poderia ser feito em qualquer lugar, não precisaria volta lá para devolvê-lo.

Kaká Werá esclarece: “essa parte do mito está dizendo que cada um deles elementos: a palmeira, a rocha, a onça fazem parte do mundo material, são agregados materiais, que sustentam nosso ser e quando a gente morre esses agregados se desfazem, o que é da terra vai para a terra, o que é animal vai para animal, vegetal para vegetal, mas algo permanece, que é o ser.”

“Essa parte do mundo fala muito isso: o ser humano é criado no mundo, o mundo de cima, que é o mundo luminoso, etéreo e para viver na terra tem que descer níveis e para isso ele  é recebido pela corte da mãe terra, que trabalha com a realidade dos mundos físicos. Por isso os povos reverenciam tanto as quatro direções, porque são simbólicas, porque representam forças que configuram o mundo físico, que é a força dos elementos: terra, água, ar e fogo, organizam e configuram o mundo físico. e tem as três fases que o homem passa para se tornar humano: o mineral, o vegetal e o animal. E ai quando ele morre no mundo físico, na verdade, são essas fases se desagregando.”

Ele retorna para Araimá, o mundo verdadeiro, a essência divina, Kuaracy (aspecto que Emana) ou Ñamandu (representa aspecto que agrega), mas os dois são os mesmos seres.

 

O  Mito da Criação Tupi-guarani e a concepção antroposófica do ser humano

Todo o percurso pelo qual o personagem teve de passar, descrito nesse Mito da Criação indígena, ou seja, pelos reinos mineral, vegetal, animal e finalmente tornar-se um ser humano pode encontrar um paralelo na cosmovisão antroposófica.

Rudolf Steiner mostra os diversos estágios pelos quais o ser humano passou até chegar à forma que possui hoje na Terra, considerando a aquisição de seus vários “corpos”: físico, etérico, astral e o ‘eu’, até chegar a sua configuração atual.

No livro “A Ciência Oculta”, Steiner esclarece detalhadamente todo esse processo e, mais resumidamente, podemos citar:

“No mesmo sentido em que o homem tem seu corpo físico em comum com os minerais e seu corpo etérico com as plantas, em seu corpo astral ele é da mesma espécie que os animais.” (Steiner, R., 2006, p. 48-49).

Mais adiante, sobre ‘eu’ humano, que no mito indígena podemos identificar naquele momento em que o personagem recebe os olhos de cristais, Rudolt Steiner afirma:

O quarto membro que o conhecimento supra-sensível atribui à entidade humana já não é compartilhado com o mundo manifesto em redor do homem. Trata-se justamente do que o diferencia dos demais seres – algo que o torna o ápice de toda a Criação circundante. O conhecimento supra-sensível dá uma idéia desse membro adicional da entidade humana indicando que também no âmbito das vivências de vigília existe mais uma diferença essencial. Essa diferença se evidencia de imediato à observação de que, em estado de vigília, de um lado o homem se encontra continuamente no centro de vivências que têm necessariamente de ir e vir e, de outro, também tem vivências em que isso não ocorre. Tal fato ressalta especialmente aos se compararem as experiências do homem com as do animal. O animal experimenta com grande regularidade as influências do mundo exterior e, sob a influência do calor e do frio, adquire consciência da dor e do prazer, bem como, sob certos processos regulares que ocorrem em seu corpo, adquire consciência da fome e da dor. A vida do homem não se esgota em tais experiência, pois ele pode desenvolver cobiças e desejos que transcendem tudo isso.”

“Tratando-se do animal, sempre é possível – desde que se investigue suficientemente – descobrir onde, dentro ou fora do corpo, existe o motivo determinante de uma ação ou sensação. No caso do homem, isso não ocorre de maneira alguma. Ele pode criar desejos e apetites para cuja origem não haja suficientes motivos nem dentro nem fora de seu corpo. A tudo o que incide nesse domínio deve-se atribuir uma fonte especial. Essa fonte pode ser vista, segundo a ciência supra-sensível, no ‘eu’ do homem. O ‘eu’ pode, portanto, ser considerado o quarto membro da entidade humana” (idem, pp.49-50).

 

Continuação do mito da Criação 

A Mãe Terra nos deu o corpo, e nós o recusamos e o devolvemos.

Tupã-mirim desceu, criou tudo e nada mais tinha para criar. Resolveu, então, ir para a cachoeira de águas cristalinas e que formava um espelho d´água. Assim, ele se viu pela primeira vez e disse: “Mavutzinim!” (que significa, “que coisa bela, maravilhosa”) – e assim nasceu a primeira mulher, que é nomeada Mavutzinim. Eles caminharam sobre a terra e como ela havia vindo da água, ele quis ensinar todas as coisas a ela. “Com os dons” – ele disse – Já criei tudo.” Ela disse: “Só existem bichos cinzentos e nada coloridos.” Então, ela falou: “Panamby” – que quer dizer “borboleta”, e assim falou o nome de todos os bichos coloridos, pequenos e bonitos. E falou outros nomes de frutas saborosas e flores perfumadas e participou, assim, da criação do mundo.

Ela perguntou a Tupã-mirir o que ele acharia de ter mais gente no mundo. E ele: “Mas como?” Então ela foi à floresta, pegou uma semente de cada árvore, pôs numa cabaça, fechou com um pedaço de pau e fez a primeira maraca. Ela chacoalhou e cantou vários sons e as sementes viraram crianças.  Nasceu a primeira tribo – vemelha, amarela, azul – de várias raças, que se tornaram nossos primeiros pais.

Nosso primeiro ancestral ensinou o que aprendeu: os primeiros fundamentos, os dons da terra e do céu, e ensinou também sobre o cuidado com o que se fala. Até que um dia Tupã-mirim se cansou e falou para Mavutzinim que a contribuição havia se completado e que ele queria voltar. Assim, entrevou sua forma à Mãe Terra e seu ser espiritual saiu e voltou para o  Sol, o Sol que vem do nascente.

Ele resolveu ficar por perto para ver o crescimento dos seus filhos e netos. Passado o tempo, Mavutzinim também se foi e entregou a sua forma, porém o ser dela se transformou na Lua. Mavutzinim olha a Terra de noite e Tupã-mirim olha de dia. A lua e o sol são os nossos primeiros ancestrais.

Nessa mesma tribo, dessas mesmas sementes, haviam nascido dois irmãos considerados os primeiros, cumprindo o papel de líderes, que eram Nahnderu-guaçu (o mais velho) e Nanderykei (o mais novo). Houve um momento em que o mais novo queria conhecer o outro lado do mundo. Tentou convencer a todos, porém nem todos queriam ir. Foi assim que surgiu a primeira desavença, pois o mais velho, além de não querer atravessar o rio, disse que o mais novo fosse sozinho. Houve uma reunião do conselho e foi decidido que metade atravessaria o rio.

O mais novo, com seu grupo, atravessou o rio e sumiu por entre as matas. O mais velho ficou e preservou os fundamentos primeiros. Continuaram vivendo na floresta em casas comunitárias, conhecidas por maloca, grande oca onde viviam várias famílias. O conjunto de malocas é Taba, que significa aldeia. O povo vivia de forma comunitária, coletiva e trabalhava na orça, pesca, confecção de cerâmica e arte.

Passado um longo tempo, o irmão mais velho sonhou que Nanderykei voltaria para casa. Sonhou debaixo da lua cheia, da mãe ancestral, e ficou aguardando. O irmão mais novo, então, voltou para casa com um grupo de guerreiros que criaram as primeiras armas, a discórdia. Eles haviam se subdividido em outros grupos e Nanderykei, quando voltou, não reconheceu a tribo e nem o irmão Nanderu-guaçu. Ele derrubou o irmão e aconteceu a primeira morte com uma flecha poderosa. Nnhanderykei havia se esquecido de sua origem, de onde veio, dos parentes, dos amigos. O irmão abriu os braços para recebê-lo e morreu. O mais novo dominou a tribo e os descendentes do irmão mais novo viveram na base da discórdia até que Tijary, uma mulher anciã, teve um sonho. Nesse sonho semente, ela viu que o tempo de conflito estaria chegando ao fim. Viu o primeiro grupo que atravessou o rio se dividir em três grupos diferentes e como cada um desses grupos foi numa direção diferente. Ela viu grupos de raça branca, amarela e negra retornarem e encontrarem a raça que ficou, a vermelha. Este encontro geraria, num primeiro momento, muita confusão, mas, num segundo momento surgiria um novo povo, o povo dourado.

 

b) Sumé, o ser solar

    A origem do Milho – sacrifício como alimento

“Existem duas versões da formação da cultura Tupi nesse mito. As duas versões falam de um dilúvio. Falam de águas que inundaram uma antiga morada, um antigo lugar. O que  essas duas versões têm de igual é o dilúvio”, lembra Kaká Werá.

 “Em uma dessas versões, escapam, inicialmente duas pessoas, que se agarram ao tronco de uma palmeira. Então, a palmeira salva essas duas pessoas. Um deles é chamado Tamendonari, o outro,  Sumé.”

“Na outra versão, uma roda de fogo é colocada como uma canoa de fogo que voa. Assim,  não são apenas dois que se salvam, mas outros também. Eles são retirados daquele lugar e vão parar num local que hoje seria onde é Amazônia, próximo ao Acre - geograficamente demarca o início da civilização Tupi.”

“Nessas duas versões existem essas diferenças, cantadas ainda em algumas regiões, e falam a história da palmeira que salva essas duas pessoas. E, que quando chegam naquele lugar, são acolhidos por uma tribo local, pelo povo local. É aí que eles se misturam com esse povo e formam uma outra raça, uma outra cultura.”

“Os que chegam são chamados Tupanos, que é de onde vem Sumé, Tamendonari. E  os que estão aqui, que já habitavam essa região são os Guarani, filhos de Guarantã. E dessa união de povos é que se forma a nação Tupi-Guarani.”

“Essa é uma história que é meio mítica, mas para alguns estudiosos, alguns observadores, esse é um acontecimento que realmente ocorreu há milhares de anos atrás.”

“O que se confunde com o mito é essa parte da história da chegada naquela região. Quando chegam lá, a terra estava passando por uma situação de calamidade, porque não existia mais alimento, caça, pesca. A tribo local passava fome.”

“Aí, um cacique, preocupado porque, não só sua família, mas toda a comunidade já estava correndo risco de extermínio, se recolhe à sua oca e pergunta, pede ajuda a Tupã, uma vez que Tupã já que o tinha salvo do dilúvio da morada anterior. Ele pergunta a Tupã como ele deve fazer para que a tribo não seja dizimada. E, Tupã, então,  fala para ele se enterrar vivo, que faça um buraco, se coloque lá dentro, peça para ser enterrado e que, a partir dele será gerado um alimento que servirá a toda a tribo e a todas as gerações futuras.”

“Ele aceita fazer esse sacrifício. Então é aberta uma cova, ele é enterrado vivo e naquele local onde ele é enterrado nasce o primeiro pé de milho, o primeiro awati, como o milho é chamado na língua Tupi.”

 “Para vocês terem uma idéia, a palavra awati, “awa”, que significa ser, espírito e “ti” , que é um sufixo que indica algo precioso, uma preciosidade traduz como o milho é chamado até hoje: um ser precioso, awati.”

“No mito, então, o espírito de Sumé se transforma num sol e o corpo dele, o corpo físico,  transforma-se no pé de milho, nas raízes dele. Mas seu espírito se transforma num sol e ele se torna o mentor, o espírito-mestre, o condutor de todo o nosso povo de lá para cá, de toda a raça Tupi.”

“Seu espírito transforma-se em sol no sentido de adquirir uma expansão espiritual. E também por isso vai para o sol. A tradição Tupi considera um mundo original, chamado Araima, o próprio sol, não só físico, mas como um mundo original. Então, ele ruma para o sol.”

“Enfim, a história é essa. Há uma parte mitológica e uma parte tida como real.”

 

 “Sacrifício” na Cosmovisão Indígena – Sumé, um filho do Sol

Segundo Werá, “o que é importante reforçar dessa de outras histórias da tradição Tupi, é que as pessoas se sacrificam para toda a comunidade e se tornam frutos, como acontece também na história do guaraná e a da mandioca: Mani é enterrada na oca e é daí que vem a palavra mandioca. A filha é enterrada na oca e se transforma num alimento. No caso do guaraná,  são os olhos de uma índia que são enterrados. O guaraná é um alimento que dá força, é muito rico, um energético. Então, há várias histórias que falam de sacrifício e é importante colocar que o sacrifício não é tido como um castigo, nem como uma situação de dor. Na verdade, significa uma elevação, uma ascensão espiritual.”

“A tradição Tupi mostra também que a evolução verdadeira, a elevação verdadeira não é algo que se dá de maneira material, mas de forma espiritual. É o que esses mitos mostram. E, foi isso o que aconteceu com aquele que nós temos como o primeiro grande sábio da raça Tupi, um ‘filho do Sol’, que é esse cacique que é enterrado. Ele é chamado de Sumé nos mitos e também é chamado de Uibá Juba, que significa flecha dourada”, resume Kaká.

 

“Sacrifício”  na Cosmovisão Antroposófica – O Cristo-Sol

Assim como Sumé, Cristo, um ser que veio do Sol, também é o “alimento” espiritual e terreno. Também morreu para salvar seu povo. O evento da morte do Cristo é denominada por Rudolf Steiner como “O Mistério do Gólgota”.

Citamos abaixo uma passagem marcante de uma das palestras de Steiner, onde se pode depreender a importância desse acontecimento:

“... Sim, com o evento do Gólgota foi criado um novo centro. Desde então o Espírito do Cristo está unido à Terra. Ele se aproximou pouco a pouco, e desde essa época está presente na Terra. E cumpre aos homens aprender que o Espírito de Cristo está desde então na Terra, em cada produto da Terra; e que eles reconhecerão tudo do ponto de vista da morte se aí não avistarem implicitamente o Espírito do Cristo, mas reconhecerão tudo do ponto de vista da vida se o virem dentro do mundo.”

“Estamos apenas no início da evolução que é a evolução cristã. Seu futuro consistirá em vermos em toda a Terra o corpo do Cristo; pois desde aquela época Cristo penetrou na Terra, criando nela um novo centro luminoso e permeando-a, luzindo para o Universo e estando eternamente entretecido à aura terrestre” (Steiner, R., 1996a, p.232).

O “sacrifício” do Cristo, que é um ser solar, teve conseqüências determinantes para a Terra como um todo.

Cristo, na cosmovisão antroposófica, é um espírito altamente desenvolvido, cuja vinda ao mundo terreno já havia sido intuída pelos grandes Guias da humanidade em épocas pré-cristãs de “Épocas Culturais” diversas e que encarnou em Jesus de Nazaré, quando este foi batizado por João Batista no Rio Jordão. Ele possui o grau de evolução a que os seres humanos podem atingir se, em liberdade, o reconhecerem como seu Guia e Salvador. Jesus de Nazaré foi o ser humano escolhido e preparado para receber o Cristo.

A Antroposofia mostra que o Cristo veio do sol, Cristo-Sol,  para encarnar em nosso planeta, há mais de 2000 anos. Este processo da vinda de Cristo para a Terra, para a humanidade, a acompanha desde os seus primórdios, ao longo de todas as épocas e culturas pré-cristãs. Na Antiguidade, também o Cristo se sacrificou para que os seres humanos pudessem conquistar valores culturais que um dia, finalmente, os tornassem ‘Homens’. Todos os frutos da Terra, que usamos em nossa alimentação, são resultado deste sacrifício. Podemos, portanto, ver uma ligação com o ser Sumé do mito indígena e com a concepção antroposófica do Cristo.

 

O Milho, awati – ser precioso,  e os três níveis de alimento da tradição indígena

Kaká Werá Jecupé completa: “o milho é um alimento que está presente na cultura sul-americana há muito tempo. Alguns estudos falam em 5.000 anos. E tem muitas variedades (preto, branco, roxo). Atualmente usa-se mais o milho híbrido.”

“Os povos andinos têm conseguido manter o milho tradicional. E os Guarani têm, hoje, uma prática de proteção para esse milho original, mantendo a essência da tradição. Eles vão para o meio da mata e abrem pequenos espaços, sem derrubar essa mata, e plantam esse milho original e depois repassam a semente desse milho, de maneira a manter a essência da tradição, os valores da tradição. O milho não significa só um alimento, mas ele significa toda uma tradição espiritual.”

“A tradição indígena é contra o transgênico. Na visão indígena o transgênico não tem espírito e nós nos alimentamos também do espírito da planta. É bem polêmica essa questão do transgênico.”

“Todo alimento tem a base dos três níveis, os três mundos: o mundo espiritual e ancestral, na seqüência o mundo vibracional energético e depois o mundo físico com sua complexidade. O nível físico é o princípio ativo: proteína, caloria etc, é extremamente importante, não há questionamentos com relação a isso. Mas a tradição indígena considera outros níveis.”

“O alimento transgênico não obedece, não alimenta nos três níveis. Pode alimentar em um dos níveis, mas não nos três. Essa é a nossa lógica.”

 

“Morte” na cosmovisão indígena

Kká Werá prossegue: “na cosmovisão indígena a morte é uma ruptura entre aqueles mundos pelos quais o homem teve que passar para tornar-se um ser humano. Mundos que estão expressos no Mito da Criação, visto anteriormente: o mineral, o vegetal, o animal.”

“Na visão dos três mundos, cada ruptura entre um mundo e outro, cada passagem é uma morte.”

“A morte é a desagregação de um corpo, a princípio, o corpo físico. Na cultura indígena a energia que se desagregou retorna ao mundo original nas suas respectivas dimensões. A morte é vista como uma passagem, não como um fim. E está na ‘encruzilhada’ dos mundos e está identificada com transformação”, esclarece kaká Werá Jecupé.

“Enfim, a morte está muito ligada a essa passagem pelos três mundos. O mundo físico é governado pelas forças físicas; o mundo intermediário é governado pelas energias elementais, que nós reverenciamos como deuses, como divindades, pois são eles que pegam a energia pura e transformam em formas, são os senhores da forma, os encantados e governam cada um o seu reino: o reino da terra, da água, do ar e do fogo;  e o mundo verdadeiro, o mundo da consciência luminosa. Os sentimentos ficam no mundo intermediário. Sensações, sentimentos, estão muito ligados ao mundo intermediário. Entre o espiritual e o físico.”

“Duas coisas podem se confundir: uma é nossa essência primordial, que da maneira que emerge é desde sempre. A outra coisa, que evolui, se transforma, é o que a gente chama de consciência. A gente retorna para o mesmo lugar, mas o que não retorna da mesma maneira é o que nós chamamos de consciência.  O nosso ser, a nossa essência, talvez possa se comparar a um diamante que é tirado da terra. Você pode tirá-lo da terra e colocá-lo no mesmo lugar, depois de lapidá-lo e trabalhá-lo. É o mesmo diamante, mas tem uma qualidade de emanação diferenciada”, diz Kaká Werá.

E ele completa: “tem um sábio, que ele compara muito com a semente. Você pega uma semente de laranja. Essa semente vira um pé de laranja. Ela tem um modelo original dentro dela, que ela já era um pé de laranja nesse modelo. Esse é um mistério sagrado, mas é uma semente. Vai gerar frutos, outras sementes. Vão nascer outras, mas nenhuma será igual. Elas passarão por suas experiências quando forem postas na terra. os galhos se constituirão de forma diferente, o tronco. Existe uma coisa única, que é a experiência. Menos nos transgênicos, que é tudo igual. A experiência humana é igual. Essa semente retorna para o mesmo ponto, e vem e vai inúmeras vezes e tem um objetivo que é um mistério em cada um de nós, mas ela volta diferente”.

 

“Morte” na Cosmovisão Antroposófica

Da mesma forma como na cosmovisão indígena, na visão antroposófica ocorre a separação dos diversos “corpos” dos quais o ser humano se serviu durante sua vida no mundo físico-sensível.

As etapas vivenciadas no pós-morte estão detalhadamente descritas no capítulo “sono e morte” no livro “Ciência Oculta” de Rudolf Steiner.

Seria oportuno, todavia, citarmos uma passagem do referido livro em que podemos perceber  o paralelo entre a Antroposofia e os esclarecimentos que Werá faz sobre o que é eterno e o que é passageiro:

“É nesse mundo que, depois da morte, o eu é imerso com o rsultado que traz consigo da vida física. Esse resultado ainda não está unido à parte do corpo astral não despojada no final da purificação. Aliás, só é despojada aquela parte que, depois da morte, nutria muita afinidade com as cobiças e desejos da vida física. A imersão do eu no mundo espiritual, juntamente com suas aquisições no mundo sensível, pode ser comparada ao plantio de uma semente em terra fértil. Assim como essa semente extrai as substâncias e forças de seu meio ambiente para transformar-se numa nova planta, o desenvolvimento e o crescimento são a essência do eu imerso no mundo espiritual” (Steiner, R., 2006, p. 87)

 

c) Iru, o  cacique da ignorância

    o mal na cosmovisão indígena

Diz Kaká Werá: “é um ponto bem importante para entender algumas coisas. Na mitologia, o Mal passa a existir no seguinte momento.”

E continua: “tem uma história que diz o seguinte:”

“Quando Tupã, que é o senhor do mundo físico, que cria o mundo físico, a Terra, através da emanação do som, através das vogais, ele traz uma primeira humanidade, sempre representada por um casal. O interessante é que depois que vem essa primeira comunidade, na mitologia, ela é harmoniosa, não existe o mal. Ela é plena, não há coisas erradas. Mas quando é fundada a primeira tribo humana já havia na Terra outras qualidades de espíritos. Estes têm um governo, uma regência: quem rege estes espírito é Iru, que tem a característica de ser o espírito da ignorância. Ele tem cinco filhos. Um deles governa a noite e é chamado de Macu. Na tribo humana, as filhas do cacique são muito lindas, belíssimas. E Iru pecebe que eles têm muito poder. Então, ele propõe ao cacique da tribo humana, Akamara, que a filha desse cacique Akamara case-se com seu filho que governa a noite. Mas o cacique nega, ele não quer. Ele diz que não e que o filho dele é muito feio. Ele não é feio, ele não tem uma forma, ele assume diversas formas. Como ele tem o poder de assumir várias formas, ele se transforma de modo a seduzir Yakamara, que se apaixona por ele e nasce uma filha dessa união não-autorizada. Essa filha chama-se Kerawa, a deusa do sono, porque é filha de Macu (da noite) com Yakamara (a princesa do dia, maravilhosa). E é aí que gera-se uma tribo, decorrente desse primeiro momento, que começa a cobiçar coisas. Tem cobiça, disputa, poder, conflitos. Os filhos de Kerawa não se dão bem com os membros da tribo de sua mãe, mas querem o poder, então começa a haver muitas brigas entre eles. E também começa a haver a miscigenação, a mistura entre as duas tribos. Isso com todos os filhos de Iru. O primeiro cacique é chamado de Ianderequeri e Ianderuguçu. Tem uma mistura, que dela é que nascem as pessoas más, de má índole. Um dos filhos é Macunaíma, que Oswald de Andrade traduziu para um romance, o herói sem nenhum caráter.”

Macunaíma é o preguiçoso, o indolente, que quer ganhar a vida fácil. É o que faz rolos. Porque vem de Macu – personificação da preguiça, da indolência.”

Iru governa a ignorância, seu filho governa a noite, a filha dele é a deusa do sono. Ignorância, preguiça, a indolência, sono são referências que vêm de um aspecto dentro da tribo que é a escuridão como símbolo de falta de sabedoria e é aí que vem o mal. Não que ele existisse por si só.  O mal por si só não faz parte da crença antiga. A falta de sabedoria, de luz, a ignorância em si pode trazer a criação do mal.”

“É diferente de outras visões que acreditam que existe o mal.”

 

Como surgiu Iru, o cacique da ignorância?

Kaká Werá Jecupé responde:

“Nos nossos estudos é colocado assim: essa fonte criadora, Ñamandu, tem um aspecto de criar de uma maneira indistinta, não direcionada, permanentemente. E alguns frutos dessa criação adquiriram uma determinada qualidade que chamamos sabedoria. E outros frutos dessa criação não adquiriram essa qualidade. Talvez isso explique o nascimento de Iru. Esta afirmação é uma leitura minha. Iru foi criado pela mesma fonte dos sábios, no entanto tornou-se o rei da ignorância. Ele não adquiriu sabedoria, mas ele tem os mesmos poderes, a mesma característica.  Quando chega o primeiro casal, ele já estava aqui.”

“O símbolo do primeiro casal faz parte da entidade humana que foi programada para cumprir uma etapa evolutiva. Iru, não. Talvez ele represente essas forças caóticas, que sobraram, que vêm, se manifestaram e vão tentando.”

“Kuaraci, que é o sol,  não é um movimento fechado. É um movimento de ondas, de expansão, assim como Ñamandu: movimento de expansão permanente. Talvez, para entendermos melhor a separação de masculino e feminino: num primeiro momento, falamos de um princípio que irradia. Essa irradiação é o Bem e o Mal. Nesse mito, por exemplo, temos forças criativas que podem ser direcionadas para bem ou para mal. A questão da separação deve ser vista de outra forma. Tupã, Kuaraci, Ñamandu têm uma ordem de emanação que seguem níveis, dimensões.”

“Nós usamos uma linguagem: a vida se manifesta em três mundos ao mesmo tempo. Na visão tupi, mundo material, mundo espiritual e um intermediário entre esses dois. Quando a vida emerge é a partir de um “mundo”, de um nível, que se relaciona com outros níveis de um ponto mais espiritual, mais sutil para um mundo mais denso.”

“No mundo da emanação, o mundo de cima, a energia da vida se expande, mas não se polariza. Quando ela desce um nível, quando vem para o mundo intermediário,  ela se polariza, se torna sol e lua, feminino e masculino, dia e noite. E, depois, quando desce mais um nível, nível material, ela se densifica e se fragmenta, se multiplica. Por esse aspecto complementar, talvez fique mais claro.”

“Então temos o mundo da emanação, que é a luz pura. Temos o mundo vibracional, onde as coisas adquirem polaridade. E um terceiro nível onde essa polaridade se multiplica.”

 

O mal na cosmovisão Antroposófica

A concepção antroposófica de luz e trevas, bem e mal,  pode ser encontrada em diversas obras de Rudolf Steiner, e nelas podemos perceber que, assim como na cosmovisão Tupi, o mal não é algo que exista “por si só”, como expressa Kaká Werá com relação ao mito indígena.

Nesse sentido, podemos trazer um “extrato” da visão antroposófica na seguinte citação:

“... Tudo o que é mau, tudo o que é ruim tem, no entanto, seu lado bom, e está fundamentado na sabedoria do mundo. Essas entidades tinham de ser deixadas para trás no mundo a fim de submergir o homem na matéria física, somente dentro da qual ele podia aprender a dizer ‘eu’ de si mesmo, a desenvolver sua autoconsciência...” (Steiner, R., 1996a, p. 228).[13]

 

Ainda sobre os mitos

Para encerrarmos esse capítulo, gostaríamos de ressaltar, mais uma vez, a importância dos mitos em nossos estudos através da citação de dois textos: um de Kaká Werá Jacupé e o outro de Rudolf Steiner.

Ambos descrevem pontos de vista bastante próximos sobre o valor e o conteúdo que os mitos podem nos trazer se observados também a partir de seus aspectos “anímico-espirituais”.

Nas palavras de Kaká Werá Jecupé:

Essas histórias revelam o jeito do povo indígena contar a sua origem, a origem do mundo, do cosmos, e também mostra como funciona o pensamento nativo. Os antropólogos chamam de mitos, e algumas dessas histórias são denominadas lendas. No entanto, para o povo indígena é um jeito de narrar outras realidades ou contrapartes do mundo em que vivemos. De maneira geral, pode-se dizer que o índio classifica a realidade como uma pedra de cristal lapidado que tem muitas faces. Nós vivemos em sua totalidade, porém só apreendemos parte dela através dos olhos externos. Para serem descritas, é necessário ativar o encanto para imaginarmos com são as faces que não podem ser expressas por palavras” (Jecupé, K. W., 1998; p. 68)

Nas palavras de Rudolf Steiner:

“Que são, então, os mitos? Uma criação do espírito, da alma criadora inconsciente. A alma é regida por leis que a fazem atuar em determinada direção para criar além de si própria. No nível mitológico ela cria em imagens, mas estas seguem leis intrínsecas da alma. Poderíamos dizer: quando a alma progride do estado de consciência mitológica para as verdades mais profundas, estas levarão o mesmo cunho que levavam anteriormente os mitos, pois em ambos a criadora é a mesma.” (Steiner, R., 1996b, p. 59).

 

Bibliografia

Jecupé, Kaká Werá  (1998) A Terra dos Mil Povos – História indígena do Brasil contada por um índio, São Paulo: Peirópolis

 ________________ (2001) Tupã Tenondé – A criação do Universo, da Terra e do Homem segundo a tradição oral Guarani, São Paulo: Peirópolis

Steiner, Rudolf (1986) A Missão das Almas dos Povos, São Paulo, Antroposófica.

____________ (1993) Carências da Alma em nossa época. Como superá-las?, São Paulo, Antroposófica.

____________ (1996a, 2ª ed.) O Evangelho segundo João – considerações esotéricas sobre sua relação com os demais evangelhos, especialmente com o Evangelho de Lucas, Antroposófica.

____________ (1996b, 2ª ed.) O cristianismo como fato místico – e os mistérios da Antiguidade, São Paulo, Antroposófica.

____________ (2003) O Apocalipse de João – A revelação bíblica da iniciação cristã, São Paulo, Antroposófica.

____________ (2006, 6ª ed.) A Ciência Oculta  - esboço de uma cosmovisão supra-sensorial, São Paulo, Antroposófica.

_____________ (2008, reimpressão 2ª ed.) A Crônica do Akasha – A gênese da Terra e da Humanidade: uma leitura esotérica, São Paulo, Antroposófica.

Valorizando o Índio – Reflexões sobre a Alma Brasileira, Associação comunitária Monte Azul


[1] Os parênteses não são do autor.

[2] Wanda Ribeiro é cientista social formada pela Universidade de São Paulo-USP e desenvolve diversos trabalhos de pesquisa tendo como fundamentação a cosmovisão antroposófica. 

[3] Jecupé, K.W. (2001)

[4]  Existe uma convenção internacional entre os antropólogos de não usar o plural para designar os povos indígenas e que está sendo aqui respeitada. 

[5] Ver seção “Raça e Raça Vermelha”, página  18.

[6] Esse conselho cósmico está mais detalhado com o título “conselho dos doze sábios”, página 16.

[7] Este mito está descrito adiante, de modo mais completo sob título “Mito do milho”.

[8] Ver seção “Porá-Hey, os sons que curam”, página 19.

[9] Segundo Kaká Werá,  foi com os jesuítas que os Guarani aprenderam a fazer rabecas. 

[10] “Estudos antropológicos registram atualmente 206 povos indígenas no Brasil... e segundo aqueles antropólogos, dos 206 povos ou nações indígenas, há quatro troncos culturais básicos, de onde se ramifica uma grande variedade de dialetos indígenas: Tupi, Karib, Jê e Aruak.” (Jacupé K.W., 1998. p.14).

[11] Ver o mito “Sumé, o ser solar, página 26.

[12] No presente contexto Kaká Werá contou apenas parte do mito da Criação. O mito completo está transcrito logo após a de fundamento antroposófico. A descrição da parte final desse mito tem como base a matéria constante do Boletim da Sociedade Antroposófica nº 54, Ano XVI, “O Canto da Criação do Mundo”, de Susanne Rotermund.

[13] Nas “entidades” a que Rudolf Steiner se refere, as luciféricas, também podemos encontrar  paralelo na entidade de Iru, personagem contado por Kaká Werá Jacupe.