Antroposofia e a missão dos povos

RUDOLF STEINER

QUINTA CONFERÊNCIA
Dornach, 24 de setembro de 1916


É necessário que, com relação ao que aludimos ontem (*), se diga agora entre nós algumas coisas que de certa maneira também têm relação com algumas exposições feitas por mim. E, uma vez que numerosos amigos, vindos para a assembléia da Associação Joanina para Construções, não estavam presentes naquela ocasião, vou repetir, no decurso das considerações estão para suceder, o que foi falado nestas semanas. Pois, isto também não deixará de ser importante na medida em que muita coisa importante e significativa foi mal compreendida, como me foi dado ver por esta ou aquela observação.

Vamos começar, antes de mais nada, a deixar claro que o curso da evolução, do modo como passamos a conhecê-lo para os grandes fenômenos dos acontecimentos mundiais, se mostra atuante em toda parte. Mostra-se atuante tanto quando examinamos os grandes fenômenos do Cosmos, como também quando examinamos os fenômenos do futuro histórico humano, do desenvolvimento histórico humano. Para o nosso tempo deve interessar-nos muito particularmente a assim chamada quarta época pós-atlântica, descrita como a época na qual se aprimorou e se tornou grande a cultura greco-latina, ou melhor, a greco-romana. Os senhores sabem que devemos calcular esta época, do ponto de vista científico-espiritual, até o início d século 15. Na verdade, com o início do século 15 começa a tornar-se atuante, nas relações culturais européias, aquilo que também apontamos ontem como exemplo. Ao reexaminarmos a quarta época pós-atlântica, este ser greco-romano nos aparece de certa maneira como um reviver daquilo que durante o tempo da Atlântida se passava sobre a Terra como cultura da humanidade. Nós explicamos em diversos lugares com os pensamentos, os sentimentos, e também a vida social dos gregos podem ser esclarecidos quando nos damos conta, justamente, de que essa quarta época pós-atlântica é, num certo sentido, uma repetição da cultura atlântica. Só que a cultura atlântica era mais elementar e muito mais instintiva, enquanto a cultura atlântica era mais elementar e muito instintiva. Enquanto a cultura greco-romana representa uma repetição mais espiritualizada. O que na Atlântida havia sido uma vivência direta foi transformado numa realidade dentro da Grécia, por intermédio da fantasia, das imaginações repletas de fantasia, também do pensamento e da vontade—esta, por sua vez, inspirada pela fantasia.

Todavia, devemos levar em conta que a cultura greco-romana foi uma desilusão para aqueles poderes que designamos com as expressões de poderes luciféricos e arimânicos. Foi uma profunda desilusão. Pois os poderes luciféricos e arimânicos, dessa hierarquia que, de certo modo, está mais próxima da hierarquia humana, queriam que o atlantismo, na sua forma de atlantismo, simplesmente revivesse novamente na quarta época pós-atlântica. 

Tudo o que, na sua essência, como a época atlântica, os senhores podem procurá-lo na “Ciência Oculta” ou no livrinho “Nossos antepassados atlânticos”—tudo o que compõe o essencial da época atlântica, tudo isto deveria, segundo a intenção dos poderes luciféricos e arimânicos, ser repetido durante o período greco-romano. Este propósito foi contrariado porque a humanidade foi justamente trazida para um degrau mais alto, correspondente á era pós-atlântica. Aquilo que perante a Atlântida, é grande e significativamente novo no helenismo e no romanismo, representou uma desilusão espiritual para os poderes luciféricos e arimânicos. Os poderes luciféricos e arimânicos queriam criar no povo grego, através das suas diversas influências, queriam criar um povo inclinado a aprimorar na alma as forças da fantasia, a fim de que as almas ficassem aos poucos cansadas da Terra, para que as almas não tivessem nenhuma tendência a continuar encarnando-se na Terra, porém, de certo maneira, a abandonar a Terra como almas, e a fundar um reino, um planeta próprio. Isto foi aniquilado porque, conduzida por aqueles poderes que chamamos de hierarquias regulares, a fantasia dos gregos—e a influência da fantasia sobre a vida social—foi transformada em alegria pelo terreno. Foi adotado a alegria pelo sensorial-terreno, pois o grego não queria viver apenas no mundo da imaginação repleto de fantasia para aos alienar a alma da existência terrena, porém atingiu a disposição expressa na famosa frase, já citada por mim com freqüência: “É melhor ser mendigo na Terra que rei no reino das sombras”. Através desta vivência do mundo, plena de alegria, entre o nascimento e a morte, o helenismo deveria ser arrebatado, pelos poderes regulares, ao perigo pretendido pelos poderes luciféricos: o de levar para longe as almas, a fim de que os corpos sobre a Terra, que ainda nascessem, passassem a andar sobre a Terra sem eus, e as almas ficassem distantes, num planeta especial para si.

Em contrapartida, Arimã pretendeu, de certa maneira, dar a Lúcifer uma ajuda no romanismo, ao querer dar um feitio ao Império Romano e a seus sucessores a fim de que se formasse um grande mecanismo terrestre, exclusivamente para seres humanos privados de eus. Assim ele teria, de certo modo, se tornado uma ajuda para Lúcifer. Enquanto Lúcifer queria, digamos, retirar para si o suco do limão, Arimã se ocupava, no Império Romano, de exprimi-lo e de ali transformá-lo num organismo estatal mecânico. É desta forma que Arimã e Lúcifer colaboram entre si. Isto foi contrariado, uma vez que o povo do Império Romano desenvolveu o conceito de “Civis”, desenvolveu o conceito de cidadão romano num sentido eminentemente egoísta. O egoísmo humano só pode ser desenvolvido no interior da existência terrena física. Por isso, o intuito de Arimã, de dar feitio isento de eus aos seres humanos, foi contrariado. Exatamente a parte grosseira, sem fantasia , da cultura romana, foi a que contrariou os intuitos de Arimã, pelo egoísmo da política romana e pelo direito romano. 

Desta maneira, a era grega e a era romana foram uma grande desilusão para Lúcifer e para Arimã. Mais uma vez eles não haviam alcançado os seu propósitos. Além disso, este é o destino de Lúcifer e de Arimã: o de atuarem com as suas forças na evolução da Terra e de sempre envidarem os maiores esforços para conter o mais amplo progresso da evolução e fundar um reino para si, e sempre deverem experimentar uma desilusão a este respeito.

Eu tenho dito que aquele, que se questiona porque Lúcifer e Arimã ainda não chegaram ao ponto de finalmente reconhecer que os seus empenhos não têm valor, julga o espiritual segundo o humano. Lúcifer e Arimã têm realmente um juízo diverso do dos homens, e não podemos julgar o que se observa no mundo espiritual do ponto de vista humano, pois senão nos consideraríamos, em breve, mais sensatos que um deus, ou até mais sensatos que um ser pertencente a uma classe hierárquica mais alta. E Lúcifer e Arimã também pertencem, como sabemos, embora sejam espíritos retardatários, a uma classe hierárquica mais alta que o homem. Desta maneira explica-se como eles se desiludem, porém de novo retomam seus esforços. 

A seguir chegou-se à quinta era pós-atlântica. Esta tem tarefas bastante definidas no sentido da progressiva evolução espiritual regular. Enquanto a quarta era pós-atlântica devia aprimorar a vida da fantasia grega e o egoísmo romano, nesta quinta época-atlântica trata-se de aprimorar o dom da contemplação sensorial. Eu caracterizei isto ao designar o ideal da contemplação sensorial da maneira como Goethe o pensou no seu fenômeno primordial—os Senhores podem relê-lo em meus escritos sobre Goethe—a pura contemplação da realidade da realidade sensorial exterior, que não conseguia apresentar-se anteriormente desta maneira porque em toda parte se imiscuía na contemplação da realidade sensorial o que sobrevinha da clarividência atávica. De forma que não se via o fenômeno puro na existência sensorial exterior, porém via-se sempre o que se estendia para além sobre a existência sensorial de maneira visionária e clarividente. Se as pessoas atentassem com um pouco mais de precisão, reparariam que isto é assim, até mesmo pela História exterior, pelas tradições históricas. Platão ainda não considera a visão como uma propriedade tão passiva quanto a consideramos agora na quinta era pós-atlântica, porém o grego Platão ainda diz expressamente: “a visão consiste em uma espécie de fogo que, partindo do olho, se afasta rumo às coisas”. Portanto, o grego Platão ainda sabe algo a respeito da atividade do olhar. Esta atividade precisava ser desfeita, esquecida, perdida, para que pudesse originar-se uma outra capacidade da quinta época pós-atlântica. E esta é a de aprimorar-se paulatinamente na evolução humana, na quinta época-atlântica, portanto no começo do século 15 até o quarto milênio mais ou menos, o dom da imaginação livre, da imaginação que seja entendida em plena liberdade interior. De um lado, o fenômeno primordial, do outro lado, a imaginação livre.

Goethe aludiu ao fenômeno primordial; também aludiu à imaginação livre.

Em várias ocasiões apresentamos diversas coisas dele, precisamente no seu “Fausto”. Estes são os primeiros passos para o que deve pretender a evolução regular inteira da quinta época pós-atlântica. Através disto a quinta época pós-atlântica, de certa maneira, conservará o seu cunho. Mas justamente esta quinta época pós-atlântica deverá enxergar os seus seres humanos como combatentes contra assaltos ainda mais fortes dos poderes luciféricos e arimânicos do que na época greco-romana. Nesta quinta época pós-atlântica, trata-se novamente de conseguir, por um lado, que as almas não se alienem da vida terrena e, por outro lado, que mecanizem elas próprias a vida terrena e lhe dêem um feitio exterior tão puramente mecânico, que se torne impossível ao eu dos seres humanos viver na ordem social terrena, e se despeça conseqüentemente da ordem social

Terrena consagrando-se a uma vida afastada da Terra sobre um planeta especial.

Tais coisas, que podemos chamar de assaltos dos poderes luciféricos e arimânicos, são manipuladas com muita antecipação. E enquanto eles, durante os quatro a cinco séculos da quinta época pós-atlântica, entraram a atuar desde os seus primórdios, já havia sido feita atrás dos bastidores da História Mundial, antes de começar esta quinta época pós-atlântica, a plena e intensa preparação dos poderes luciféricos e arimãnicos para, onde fosse possível, entregar tudo o que a quinta época pós-atlântica produz como capacidade humana e como forças volitivas humanas, ao serviço de um anseio humano que se afasta da Terra, que quer partir da Terra e quer formar um corpo planetário próprio enquanto a terra deve ser desertada segundo o empenho de Lúcifer e de Arimã. Afirmo que foram empreendidos os mais intensos assaltos. E lembrem-se os Senhores daquilo que deu o tom básico à cultura durante a era atlântica. Porque Lúcifer e Arimã querem agora, durante a época pós-atlântica, para que nesta cultura pós-atlântica sejam dadas justamente as capacidades, pelos poderes regulares, capacidade tornadas elementares a fim de que os homens queiram partir.

Portanto, o que for desenvolvido deve ser colocado a serviço do extraterreno, conforme indiquei. A partir de dois lados, de Lúcifer e Arimã , o espírito da antiga vida atlântica deveria, portanto, ser outra vez renovado para que os respectivos impulsos ingressassem na evolução da quinta era pós-atlântica.

Agora, lembre-se os Senhores que na era atlântica os impulsos das almas humanas foram reconduzidos ao que se chamou de Grande Espírito, que foi descrito mais ou menos com um som que ainda ressoa no Tão chinês. Este Tão era a designação do grande espírito no tempo da Atlântida. E o essencial dos esforços luciférico-arimânicos consiste em colocar o posterior, o que já veio ou ainda virá, a serviço do Tão, a serviço do grande espírito. 

Naturalmente não do Grande Espírito, na maneira como este viveu naquele tempo durante a era atlântica, porém na maneira como encontrou um descendente, digamos, uma espécie de pequeno filho, um sucessor. Tentar uma restauração dos impulsos atlânticos constitui esforço luciféricos e arimânico, por não se contar com os poderes regulares da quinta época pós-atlântica, mas por contar-se com o que ficou para trás a serviço do grande espírito Tão. Isto só se tornou possível porque os impulsos da cultura atlântica, que em verdade procederam da Atlântica decaída, foram deslocados para a região que se havia reconstituído após o dilúvio atlântico. E assim, num certo sentido, um membro da descendência do grande espírito havia sido empurrado para o Leste, e aos poucos preparara, nos séculos 10, 11, e 12, lá longe na Ásia, determinados serviços de mistérios. Estes serviços de mistérios haviam adotado certo caráter que consistia essencialmente em renovar o antigo culto ao Tao—não na forma em que os chineses degenerados o mantêm, que em realidade o mantêm intelectualizado, porém na forma em que consistia originariamente—em renovar, portanto, aquela espécie de iniciação que induzia a ver o espiritual elementar que palpita imediatamente abaixo do nosso mundo sensorial, isto é, induzia a perceber efetivamente o grande espírito unitário. E certos sacerdotes destes mistérios atlânticos restaurados—na Ásia—foram iniciados neste antigo serviço atlântico, que naturalmente trouxe ilusões porquanto estava em realidade deslocado para este tempo.

Lá longe na Ásia, um destes sacerdotes chegara ao ponto de realmente conseguir penetrar toda a essência dos impulsos atlânticos. E foi ele quem chegou até ao diálogo com o sucessor, com o sucessor ilegítimo do grande espírito do Tão. Naquela ocasião, foi ele quem transmitiu, lá na Ásia, o que havia recebido pelo grande espírito como inspiração, a um poder leigo exterior, aquele adolescente que depois se tornou conhecido na História como Gengis-can. Gengis-can foi portanto aluno de um desses sacerdotes que fora iniciado nos mistérios asiáticos. E esse sacerdote ensinou Gengis-can o que tentarei encaixar nas seguintes palavras. Ele ensinou-lhe então que acabara de chegar o tempo em que o juízo divino deveria varrer a face da Terra: “ A Você foi transmitido tal juízo divino e Você marchará agora á frente de todos aqueles homens que consumarão, a partir da Ásia, o juízo divino sobre toda a Terra”. Na verdade, esforços semelhantes já haviam sido baseados anteriormente nas campanhas dos hunos, e assim por diante. Mas neste caso instaurou-se essencialmente o furacão mongólico por intermédio deste impulso dos sacerdotes asiáticos, que deveria levar então para cima da cultura européia o que induziria as almas a acreditarem realmente no juízo divino, a sucumbirem ao juízo divino e aos poucos despedirem-se da Terra, a não terem a inclinação de reaparecer sobre a Terra, para que a cultura da Terra fosse aniquilada. Este era o sentido interior das campanhas mongólicas que se estendiam para além da Ásia, e que na verdade como os Senhores sabem, na Europa não se interromperam por ações físicas externas. Deu-se o extraordinário fato de que, no século 13, na batalha de Liegnitz, os mongóis não foram vencidos, os mongóis tornaram-se vencedores.

Entretanto, de uma maneira inteiramente inexplicável, não continuaram a marchar contra a Europa, porém marcharam novamente para a Ásia. De modo que, até de forma externa, se pode ver integralmente como existe um contrapeso, o qual é anunciado posteriormente com naturalidade como sendo de natureza espiritual. Ora, os mencionados europeus realmente não venceram os mongóis na Silésia. Foram vencidos. Mas os mongóis, apesar de não serem vencidos, retiraram-se e voltaram-se para a Ásia. Entretanto, os impulsos, por ter-se exatamente até um certo ponto frustrado externamente o furacão, ou por não ter ele prosseguido , pode-se dizer que estas campanhas permaneceram na Europa como destilados, nos quais sobreviveriam na quinta época pós-atlântica. De maneira que também é claramente perceptível, dentro dos impulsos culturais trazidos do Leste, e também será perceptível posteriormente, aquilo que exatamente naquele tempo devia ser trazido para a Europa como conseqüência dos mistérios do Grande Espírito.

Uma outra parte dos mistérios da antiga Atlântida não foi empurrada lá para o Leste, porém para o Oeste, sobre o solo onde os europeus encontraram posteriormente a América. E lá esgotou-se a parte mais arimânica da ilegítima cultura pós-atlântica. Enquanto na Ásia se consumava mais a parte luciférica, na América consumou-se mais a parte arimânica. Naquela ocasião também deveria ser criado dentro da América o que mais tarde atuaria de forma infecciosa como impulsos vindos do Oeste, do mesmo modo como a outra parte vinda do Leste- e que pudesse atuar de forma infecciosa a partir do Oeste- para inserir o ousado ataque arimânico na quinta época pós-atlântica.

Daí ter sido, mais estimulado, no Oeste, o lado arimânico do conjunto dos mistérios atlânticos. E lá então se chegou, como eu já indicara naquela ocasião àqueles que estavam presentes, a mistérios que farão a mais repulsiva impressão naqueles que houverem crescido dentro da delicada cultura contemporânea, e que não gostarem de ouvir a verdade, porém de aceitar apenas o que alegra a alma, como isto é freqüentemente descrito.

Estes mistérios pós-atlânticos desenvolveram-se principalmente no solo mexicano. Lá se estabeleceram mistérios, que além disso percorriam grande parte da América, daquela América que os europeus ainda não haviam encontrado, lá cultivaram-se mistérios que, se fossem vitoriosos, se os seus impulsos e as suas atuações se tivessem tornado vitoriosos sobre a Terra, teriam expulso as almas da Terra. Portanto, o serviço arimânico, o espremer do limão, teria sido atendido desta maneira. Ter-se-ia cuidado para que a Terra fosse aos poucos desertada, para que a Terra paulatinamente tivesse apenas as forças da morte sobre si, enquanto aquilo que se apresentava justamente como almas vivas se despedissem dela e fundasse então, sob o comando de lúcifer e de Arimã, um outro planeta.

Para providenciar a parte arimânica desta tarefa foi necessário que os sacerdotes dos mistérios atlânticos arimânicos se apropriassem de capacidade que, na mais alta medida, dominassem todas as forças da morte na atuação terrestre; dominassem tudo o que teria transformado a Terra, de certo modo junto com a humanidade, a humanidade física. As almas deveriam ir embora para um reino meramente mecânico, um grande reino totalmente morto, no qual nenhum eu tivesse lugar. Estas capacidades também deveriam ter sido ligadas ao predomínio do mecânico sobre todo o vivente, das inclusões mecânicas sobre toda a vida. Para tal, estes mistérios precisavam ser estabelecidos de uma maneira realmente diabólica. Pois tais forças, da forma como as teriam usado para os poderosos desígnios de Arimã, tais forças só se produzem quando se obtém iniciações de uma espécie bem definida. E estas iniciações arimânicas da era pós-atlântica também eram desta espécie. A cada qual que quisesse adquirir um determinado grau de saber impunha-se que adquirisse este saber mediante capacidades sentimentais bem definidas, que só são adquiridas quando se é assassino. E, desta maneira, ninguém era admitido a um determinado grau desta iniciação sem que tivesse perpetrado um assassinato. Este assassinato era executado em condições muito peculiares. Existia certa instalação: passando por degraus ela levava para cima a uma espécie de cadafalso. Lá então era amarrado aquele que seria assassinado. O seu corpo era atado em posição tal que se podia extirpar o estômago com um corte. Esta operação, a extirpação do estômago, devia ser realizada com uma presteza muito especial. E o que se adquire como percepções perante a vida, por fazer incisões na vida, e por fazer incisões mediante uma arte muito peculiar e sob condições muito especiais, era isto que se teria de alcançar. Portanto, conseguiam apropriar-se de um determinado grau de saber da mecanização da Terra. E cada vez que se progredia nos graus devia-se consumar tais assassinatos adicionais.

Este serviço era dedicado ao sucessor, ao filho do grande espírito, uma vez que este vivia lá longe na América, e ao qual se designava com um som que soa mais ou menos como Taotl. É uma variação arimânica da descendência de Tão: Taotl. Este ser Taotl não apareceu num corpo físico, porém apenas em feitio elementar. Apropriavam-se das suas artes, que em essência consistiam em impulsos para a mecanização da cultura terrestre, mediante estas iniciações, como lhes descrevi. Estas iniciações tinham pois um sentido bem definido. Como disse, aquele que era iniciado, apropriava-se de determinadas forças mágicas negras cujo emprego teria levado a mecanizar a cultura da Terra, a expulsar todo eu, de maneira que não nascessem mais corpos que ainda pudessem ser dotados de eu. Mas, neste caso, aquele que houvesse possuído tais forças—pois as coisas estão sempre interagindo no mundo—também se teria com isto atado á Terra. O próprio iniciado tinha de permanecer junto ás forças da Terra. 

Desta maneira ele apenas se juntava, até certo ponto, aquelas forças que os Senhores aprenderão a conhecer amanhã na apresentação da cena de Faustão, se acompanharem atentamente o que os lemurianos representam: com as forças terrestres, com a parte anímica da Terra, com tudo que a morte efetua sobre a Terra. Mas, com isto, ele próprio teria perdido a sua alma. E ele se salvava com relação á alma por conseguir, por um lado, pelo procedimento da extirpação do estômago, que alma por ele assassinada não mais tivesse prazer em vir para a Terra e , por outro lado, a esta alma era dado simultaneamente—e isto era sua intenção—puxar a sua própria alma para dentro do reino que em seguida seria fundado fora da Terra. Portanto,com isto a alma do iniciado assassinante também devia ser puxado juntamente para dentro do reino de Lúcifer e de Arimã, a ser fundado. 

Diversas anti-seitas foram fundadas para combater este serviço diabólico. Uma destas anti-seitas era a de Tetscatlipoca. Este também era um ser que não aparecia no corpo físico, mas era conhecido por um grande número destes iniciados mexicanos, e só vivia no corpo elementar. 

Tetscatlipoca, era uma espécie de ser assemelhado a Jahvé, ou a Jeová, e na realidade deveria estabelecer um serviço que se oporia a tudo isso, no sentido—portanto, de uma religião de Jeová exatamente adaptada, lá no México, a tais condições culturais horrorosas. Portanto, era um espírito assemelhado a Javé, este Tetscatlipoca.

Além disso existia ali uma outra seita que venerava Quetsalcoatl, igualmente um ser que não aparecia no corpo físico, mas possuía um corpo elementar. Quetsalcoatl era um ser do qual se poderia dizer que se assemelhava ás forças de Mercúrio. Devia atuar de maneira sanante. Lá, a arte da medicina deveria realizar-se principalmente sob a influência deste Quetsalcoatl. Tais seres são sempre descritos por aqueles que os percebem pela clarividência de tal maneira que se pode ter uma impressão da realidade pela descrição. Quando Quetsalcoatl é descrito como um corpo em forma de serpente, como uma serpente verde, emplumada de verde, isto comprova, sobretudo para aquele que compreende tais coisas, que se tratava de um ser real, mas que compreende taís coisas, que se tratava de um ser real, mas que aparece somente no corpo elementar.

Ora, este serviço, que não foi encaminhado publicamente, que foi muitas vezes incentivado dentro de certos mistérios do México, desenvolveu-se ao longo de muitos milênios para elaborar secretamente os necessários impulsos culturais pós-atlanticos dentro de um feitio arimânico. Todavia, lá longe também se desenvolveu um terceiro movimento. Era necessário que se desenvolvessem um movimento contrário. Pois se não se houvessem desenvolvido este movimento contrário, a influência dessas forças, ali formadas, sobre a cultura greco-romana e posteriormente sobre a quinta cultura pós-atlântica, ter-se-iam aos poucos tornado tão grandes que seriam invencíveis perante as forças favoráveis ao progresso. Então se desenvolveu um movimento contrário, por ter nascido um ser que apareceu em corpo físico, em oposição aquelas entidades que nunca apareceram no corpo físico, mas só em corpo elementar. E lá este ser é designado de um modo que eventualmente pode ser descrito em palavras que imitiam a seqüência de sons: Vitsliputsli.

Vitsliputsli é portanto um ser humano, um ser surgido num corpo humano.

Vitsliputsli contém aquela individualidade espiritual que acolheu no corpo humano aquela luta contra os mistérios descritos por mim. De Vitsliputsli narrou-se entre os mexicanos que nascera de uma virgem que fora fecundada sob influência celestial, quando dela se aproximara um pássaro.

Ora, quando se tenta investigar por meios ocultos , tão bem quanto possível, como viveu naquele tempo este Vitsliputsli, lá no Hemisfério Ocidental, descobre-se que, notavelmente , ele viveu no mesmo tempo em que se deu o mistério do Gólgota no Hemisfério Oriental, isto é, entre o ano 1 e o 33. Isto é extraordinário. Este Vitsliputsli foi portanto bem sucedido ao proceder contra o mais importante iniciado dos mistérios mexicanos. Ele se voltou em renhida luta contra aquele iniciado dos mistérios mexicanos.

Era pois um ser humano, um iniciado—nenhum dos três espíritos, porém um iniciado—contra o qual se voltara Vitsliputsli. Portanto, Vitsliputsli um ser supra-sensorial, mas de feitio humano, voltou-se com todos os meios de luta que lá se encontravam á sua disposição, contra aquele iniciado que tinha atrás de si o maior número de assassinatos; que se tornara o mais poderoso, e do qual se pode dizer que, se o seu intento fosse satisfeito, realizar-se-ia justamente uma vitória desta tardia cultura pós-atlântica arimânica. Contra esse iniciado voltou-se Vitsliputsli, e lhe resultou, como já disse, só se pode descobri-lo com meios científico-espirituais – no ano 33, levar à crucificação o mais forte mago negro, de tal maneira que isto acontecesse paralelamente ao mistério do Gólgota, lá no outro hemisfério da Terra. O maior mago negro foi crucificação por mérito de Vitsliputsli, o qual aparecera sobre a terra para este fim. Destarte, despedaçou-se para a quarta época pós-atlântica, primeiramente, a força desses mistérios. Mas eles voltaram a viver. E os senhores podem verificar na própria História o que aconteceu com muitos europeus que foram para o outro lado, para a América: numerosos europeus ainda padeceram a morte por terem sido tratados pelos sacerdotes iniciados mexicanos de forma a serem afivelados sobre os respectivos dispositivos, e com perícia lhes extirparem o estômago. Isto também é conhecido historicamente e é um efeito retardado daquilo que lhes descrevi.

Por meio disto foi incorporado ao mundo ocidental, na medida em que se considere por sua vez o elementar, o impulso que deveria sair exatamente deste lado: o impulso arimânico. Ora, como disse, para a quarta era pós-atlântica este impulso foi quebrado pela crucificação, por Vitsliputsli, do grande mago iniciado negro. Mas posteriormente ainda sobrou tanta força que um assalto posterior poderia ocorrer na quinta época pós-atlântica, o qual então acabaria realmente por revestir a Terra com mecanização, não só para fundar uma cultura que teria culminado exclusivamente em ferramentas mecânicas, mas que também teria transformado os próprios homens em meros homúnculos, de maneira que os eus teriam ido embora. Os europeus precisarem conhecer este mundo. E, na verdade, a era moderna começa exatamente com os europeus tendo sido atraídos para além, para esse mundo.

Portanto, enquanto de um lado, do Leste para cá, os assaltos de Gengis-can e seus sucessores deviam, por assim dizer, executar um juízo divino, no Oeste seria preparada uma atmosfera das mais selvagens forças elementares arimânicas, nas quais os europeus ingressariam. Tais coisas dão-se realmente desta forma, em que Arimã e Lúcifer colaboram plenamente entre si. Por exemplo, os europeus não deviam absolutamente dirigir-se para o outro lado com sentimentos desinteressados. Deviam ir para lá com sentimentos cobiçosos, desejados de se entregarem a toda sorte de ilusões.

Posteriormente poder-se-ia então engrossar o que inicialmente fora envolto apenas em uma fantasia maravilhosa. Pois se engrossou, uma vez que os europeus aprenderam a conhecer na América as riquezas exteriores de uma maneira que chegou a excitar enormemente a sua cobiça. Mas, no início, isto adotara formas mais odeias. Neste caso, vemos novamente a colaboração das forças luciféricos e arimânicas, que sempre trabalham juntas.

Um sucessor de Gengis-can--, que se havia estabelecido na China e a dominava depois que as invasões mongólicas haviam se retirado de sobre a Europa, Cublai-can --, pode regozijar-se na China com a presença de um europeu: Marco Pólo foi profundamente influenciado na corte de Cublai-can – o próprio Cublai-can ainda estava sob a influência daquela iniciação que descrevi anteriormente. Marco Pólo escreveu um livro apropriado para excitar intensamente a fantasia dos europeus em direção ao hemisfério Oeste: “ Mirabilia Mundi”. Nele se falava de uma terra encantada no Hemisfério Ocidental, de uma terra encantada que incitava os anseios de descobri-la. E por esta obra, “Mirabilia Mundi”, Cristóvão Colombo foi estimulado a empreender a sua viagem para a América.

Neste caso, portanto, a cobiça foi corretamente estimulada para dentro da fantasia. As coisas realmente interagem de maneira extraordinariamente refinada. Pois os Senhores precisavam apenas se familiarizar com o fato de que existe um plano na História Mundial. Também existe um plano onde os poderes do mal são levados em consideração. Pelos meios com os quais se examina hoje a História, não se chega realmente a bom termo, porém se observa toda vida histórica apenas pelo seu lado exterior. Somente chegamos a um bom termo quando confrontamos os fatos corretos mediante meios científico-espirituais, a saber, o descobrimento da América, numa época bem determinada, e a incitação á cobiça por uma terra da fantasia, cuja cobiça, por sua vez, era apropriada para retirar as almas da Terra. Por intermédio deste encontro, da descrição de tal terra da fantasia e da incitação a cobiça para descobrir a América num determinado momento, por intermédio disto foi dada a disposição correta, foi dada uma disposição que atuava particularmente sobre as forças anímicas humanas subconscientes, e que podia prosseguir atuando na cultura. Deve-se imaginar Marco Pólo e a sua obra “Mirabilia Mundi” em absoluta correlação com o que estimulou Colombo a navegar para o outro lado, para Oeste. Em realidade, isto está descrito na História exterior.

Desta maneira descrevi para os Senhores o modo pelo qual os impulsos arimânicos e luciféricos exercem influência para realizar os seus ataques contra a quinta época pós-atlântica. Por outro lado, esta quinta época pós-atlântica está formada de modo que o homem vive, por assim dizer, numa esfera intermediária da vida anímica. A vida anímica da quinta época pós-atlântica deve ser protegida da contemplação direta das forças arimânicas.

Deve-se aprender a entrar no seu domínio pela ciência espiritual. Mas a vida exterior deve ser protegida para que se possam desenvolver as forças para as quais já chamamos a atenção, ontem e hoje. Mas, sob a consciência, sob a consciência normal comum, lá em baixo atuam essas forças que foram trazidas para a Terra daquela maneira concretamente descrita. Não se aprende a conhecer a vida da alma humana descrevendo da seguinte maneira generalizada: há um consciente e um subconsciente, e a partir do subconsciente agem para cima os instintos, e assim por diante. Deve-se conhecer o modo como estes instintos são ocasionados sobre a terra.

Precisa-se conhecer o concreto. Por outro lado, em diversas coisas pode-se ver, até um certo ponto, como muito coisa continua a atuar abaixo do consciente que a alma do ser humano descerra na quinta era pós-atlântica.

Pode-se representá-lo como o arimânico, que fora iniciado da maneira como descrevemos, e está atuante, por assim dizer, sob o limiar do consciente, como a lava, como as forças vulcânico, de uma sulfatara (vulcão em estágio senil) : quando se acende um papel em cima dela, desprende-se fumaça. Isto prova que o solo sobre o qual nos encontramos, contém por baixo forças absolutamente terríveis, que neste caso saem por todos os buracos. O mesmo se passa também com as forças da alma. Por baixo do que a consciência sabe, existem as coisas que são influenciadas pelo que lhes descrevi. E estas pressionam depois para cima. Até se revelam um pouco ás vezes, mas normalmente pressionam para cima. E no supra consciente também se encontram, por sua vez, as forças luciféricos, que são descarregadas para dentro da alma, como as vezes são descarregados o raio e o trovão, quando o ar deve ser purificado, as quais também estão, todavia, pouco presentes na consciência, na quinta época pós-atlântica. Um estado intermediário é que a consciência contém nesta quinta época pós-atlântica.

Quando se investiga por sua vez o que vive no subconsciente, passa-se a ver como os ataques arimânicos e luciféricos provêm de duas direções, e como a cultura é verdadeiramente gerada por uma atuação conjunta entre as hierarquias da evolução regular e as forças luciféricas e arimânicas. Ora, exatamente por isso, por este modo de especificação da cultura, o ser humano é guiado de diversas maneiras e em diversos campos da Terra, para os grandes problemas. Pretendo considerar mais o ponto de vista do conhecimento, e o que, do ponto de vista do conhecimento, interfere na vida social. Neste caso pode-se, portanto, pressupor que certas forças arimânicas fluem para dentro da cultura européia – segundo os impulsos que conhecemos – a partir do subconsciente. Estas forças arimânicas guiam para uma direção bem definida, os impulsos que, por sua vez, saem das forças regulares boas da evolução. Pode-se dizer que duas espécies de problemas se apresentaram, duas qualidades de esforços de conhecimento. Mas não se pode, neste caso, dizer que das forças arimânicas, porém da atuação conjunta das forças arimânicas e das forças de evolução regulares, a vida humana recebeu uma determinada coloração. Uma vez que, em razão disto, esta foi levada a dois problemas. Poder-se-ia descrever estes dois problemas como o problema do ímpeto, -- o refletir dirigiu-se paulatinamente para este problema do ímpeto – e o problema do nascimento.Naturalmente tais expressões são obtidas dos fatos mais proeminentes. O que descrevo aqui como problema do ímpeto e como problema do nascimento tem uma extraordinária envergadura.

Quero apenas caracterizar algumas coisas. 

O problema do ímpeto: sob a influência das forças por mim caracterizadas, o refletir humano e o diligenciar humano são guiados para pressentir, para perceber os ímpetos dos seres humanos. O sentido é conduzido para os ímpetos. E disto evolve paulatinamente certa disposição de vida sob a influência do problema do ímpeto. Pode-se dizer que o problema do ímpeto se converte no problema da felicidade, e que o problema da felicidade adquire um matiz muito específico. Por isso, os Senhores vêem em diversos lugares, na quinta época pós-atlântica, especialmente na cultura ocidental, reflexões e diligências orientadas para o problema da felicidade, para a felicidade, para a geração da felicidade na vida. Isto está sob essas influências que eu descrevi. Nisto vemos, por exemplo, como se pesquisa o que pode ser feito a fim de que os homens levem a vida mais feliz possível sobre a Terra. Este estabelecimento da felicidade sobre a Terra torna-se um ideal. Eu não afirmo que isto acontece apenas sob forças arimânicas, também contém forças regulares de evolução.

Portanto, deve-se naturalmente cogitar acerca da felicidade. Mas ela adquiriu um determinado matiz sob o influxo de Arimã, mediante uma sentença puramente diabólica: “O bom é a felicidade do maior número possível de seres humanos sobre a Terra”. Esta é uma frase puramente diabólica, pois define o bom de forma a expressá-lo pela felicidade, e ainda mais pela felicidade do maior número possível, ao qual estaria atrelada a infelicidade da minoria; como desejando retratar um organismo através do seu aprimoramento apenas até os joelhos e , dos joelhos para baixo, se o deixasse perceber.Entretanto, sobretudo a justaposição de felicidade e bom, de felicidade e virtude, é algo que tem um caráter arimânico.

Felicidade e virtude, felicidade e o bom: os gregos, e nas suas melhores personalidades, eram inteiramente inacessíveis á justaposição dos conceitos felicidade e o bom. Mas, exatamente pelas influências arimânicas deveria originar-se na quinta humanidade pós-atlântica uma disposição que procurasse o bem na felicidade. Os Senhores devem considerar tudo que conhecem como Saint-Simonismo, os diversos esforços para encontrar colocações na economia política, a saber, no Oeste da Europa, devem considerá-los sob este ponto de vista, pois só desta maneira os Senhores os entenderão. O próprio Rousseauismo não está isento deste impulso. Estas coisas devem ser estudadas num contexto totalmente objetivo.

Aqui, a segunda coisa, ao lado do problema do ímpeto, é o estado dos sentidos. Pois, na quinta época pós-atlântica, a cultura do sentido deve ser aperfeiçoada. Entretanto, os poderes arimânicos querem reivindicar para si esta cultura do sentido, e por este motivo querem criar a opinião de que a verdade se encontra única e exclusivamente no estado dos sentidos. Em tudo vive o arimânico, na mesma medida em que vive no problema do estado dos sentidos. O problema dos sentidos está intimamente relacionado ao problema do nascimento, da mesma maneira como o problema da felicidade está relacionado ao problema do ímpeto. Para justificar o estado dos sentidos e instintivamente considerar toda a evolução de uma forma puramente sensorial, o tornar-se humano foi, no nascimento, diretamente articulado á evolução dos animais. Nisto os Senhores vêem o caminho pelo lado do problema do nascimento. A ponderação a respeito do nascimento dos homens, em realidade, ocupa muito intensamente aqueles que refletem e diligenciam na quinta época pós-atlântica, a saber, desde o século 15. E aquele que conhece as circunstâncias sabe o que significou este problema: -- De como o homem entra na Terra – de como se cogitou sobre o mesmo, se as almas do pai e da mãe se transferem como alma para as crianças, ou se a alma é dada naturalmente pelos poderes supra-terrenos. O problema do nascimento, no sentido mais amplo, é tarefa da era pós-atlântica. É um problema proposto inteiramente no sentido das hierarquias regulares da evolução. Mas tornou-se arimânico por ter sido transformado em puramente material, por ter sido o homem colocado apenas na extremidade do mundo animal, porque seu estado de alma perante o estado dos sentidos deve ser deixado inteiramente fora de cogitação.

Desta maneira verificamos que, provenientes de um lado, fluem para dentro impulsos que querem transformar o problema do ímpeto em problema da felicidade, não no sentido do bem moral ou bom. Inteiramente no sentido dos poderes regulares o problema do ímpeto seria transformável em problema do bem moral ou bom. Pois desenvolver o bem moral ou bom dentro do problema do ímpeto significa encontrar a espiritualização do problema do ímpeto. Esta é a tarefa regular da quinta época pós-atlântica. Isto deverá ser desenvolvido em poderosas imaginações, para as quais o começo reside em imaginações como as que se encontram no “Fausto”. Mas, pela influência arimânica, o problema do nascimento levou à evolução no estado dos sentidos; portanto, problema de ímpeto para problema de felicidade, e problema de nascimento para problema da evolução no estado dos sentidos.

Ao constatarmos tudo isto proveniente deste lado, vemos os poderes arimânicos como que fluírem para dentro do quinto período cultural pós-atlântico. Eu já disse que com isto, por influírem, de um lado, poderes arimânicos, e de outro lado, luciféricos, a prucura torna-se especializada.

De contrário, na quinta cultura pós-atlântica surgiriam quatro grandes coisas, as quais, dentro de todo o trabalhar, de todo o trabalho, de todo o gerar até ao cultivo do solo do lavrador, penetrariam nas percepções.

Seriam quatro problemas. O primeiro é justamente o problema do ímpeto, o segundo é o problema do nascimento, o terceiro, que foi encomendado á quinta época pós-atlântica, é o problema da morte. O problema da morte, a saber, não só o de descobrir como o homem está inserido na Terra pelo nascimento, porém também o de como passa novamente para fora pelo portal da morte. E o quarto problema é o problema do mal.

Deu-se que estes quatro problemas não atuaram na humanidade cultural distribuídos uniformemente pela quinta época pós-atlântica, exatamente porque, por um lado, Arima mudou a configuração do problema do ímpeto para o do problema da felicidade e o do problema do nascimento para o do problema do estado dos sentidos, e assim exclui a solução correta dos problemas. Por outro lado, em contrapartida, porque Lúcifer dirigiu o sentido da cultura, mais tracejada para o Leste, em direção ao problema da morte e ao problema do mal. E assim os Senhores podem acompanhar com precisão como toda a vida espiritual russa está essencialmente dominada pelo problema da morte e pelo problema do mal, e a vida espiritual do Ocidente pelo problema do ímpeto e pelo problema do nascimento. Justamente no mais poderoso pensador russo do nosso tempo, em Solowjow, os Senhores descobrirão por toda parte como o nervo do seu pensar e refletir reside, de um lado, no problema da morte e, de outro lado, no problema do mal. Neste caso, o problema do mal traz – da mesma maneira como o problema do ímpeto leva ao problema da felicidade-- , igualmente o feitio especial da consideração da vida pecaminosa, a consideração do pecado, o problema dos pecados. Por esta razão, em lugar o problema do pecado e do perdão do pecado, da purificação do pecado, foi atacado de uma maneira tão profunda como a partir do Leste. Mas ao mesmo tempo é irregular o que foi atacado com este problema. Este problema do mal e o problema do pecado foram utilizados simultaneamente por poderes luciféricos para alinhar as almas da vida terrestre mediante o redirecionamento da opinião para o pecado e para a vida do pecado carnal e corpóreo-terrestre. Enquanto, no Oeste, Arimã assesta todos os esforços para emaranhar o homem sobre a terra no estado dos sentidos e para fundar um reino do bem e da felicidade, que vem ao encontro dos ímpetos, provém do Leste a abominação perante o pecado, através da qual as almas devem ser guiadas para longe da Terra, uma vez que a alienação luciférica do ir-se-embora-da-Terra deve ser inoculado pela consideração do problema do pecado e do problema da morte. Por isso uma grande parte da reflexão no Leste se dedica a como a morte será superada por aquilo que acontece com o próprio Cristo, de maneira que se quer encontrar impulsos para a vida na ressurreição. Justamente o que concluí há uma semana: que o Leste se inclina mais para Cristo e o Oeste mais para Jesus, está fundamentado em que o Leste usa o ressuscitado, o espírito, que não é consumido na materialidade, que vence a materialidade. É o problema da morte. Numa das mais belas passagens que Solowjow talvez tenha escrito, ele fala que se a morte – como fenômeno físico, como fato físico-- , significasse uma conclusão da vida humana, o ser humano se igualaria a todos os animais restantes, e ele não seria propriamente nenhum homem, seria um animal. Pela morte o homem se iguala ao animal e pelo mal do qual é capaz pode ser pior que os animais. Neste caso Solowjow alude diretamente a como o seu pensamento foi influenciado pelo problema da morte e pelo problema do pecado, pelo problema do mal. Mas, em toda parte encontra-se a reflexão sobre tais reconhecimentos anímicos, pelos quais a alma não parece ser tocada pela morte, e a vida exterior é disposta de tal forma a efetivamente adotar mais uma vez, de certa maneira, sob os fenômenos justificados da vida, uma tendência a ir-para-longe-da-Terra. Por isso existem, precisamente no Leste, tantas seitas que amortecem a corporalidade, e de certa maneira já derramaram a morte por cima da corporalidade, e querem levar a vida do ímpeto e a vida do nascimento”absurdum” por uma certa inclinação ao sacrifício e coisas semelhantes.

Já no Oeste reside o perigo perante o emaranhar-se na vida dos sentidos, mediante o qual a vida dos sentidos ficaria isenta do eu. Porquanto, se na Terra só a felicidade tivesse de ser estabelecida, o eu nunca poderia viver na Terra. Se apenas o bem tivesse de ser motivado porque a felicidade teria de ser espalhada sobre a Terra, aconteceria em realidade o seguinte, anteriormente demonstrado pela experiência da antiga Atlântida: também no meio da cultura atlântica foram dados grandes impulsos que depois teriam levado a uma felicidade. Os homens haviam visto como sendo uma certa felicidade, em seus efeitos e em sua forma, aquilo que haviam percebido inicialmente como incitamento ao bem. Lá o homem se entregou á felicidade, o homem foi consumido pela felicidade. E a Terra precisou, com relação à cultura atlântica, ser varrida para longe, por assim dizer, porque os homens só tinham conservado a felicidade como um bem. Na era pós-atlantica Arimã quer então fundar diretamente uma cultura da felicidade. Isto se chamaria: espremer o limão e jogar o bagaço fora! – Os eus não poderiam mais viver se apenas uma cultura da felicidade tivesse de ser fundada. A felicidade e o bem, a felicidade e a virtude não são conceitos que possam ser dispostos uns para os outros.

Neste momento, mergulhamos o olhar nos segredos profundos da vida. É legítima fundar uma cultura que, em seus efeitos, conduza evidentemente a uma certa felicidade humana. Esta cultura se torna errada quando se coloca a própria felicidade como desejável. E uma cultura que deve levar a alma humana a reconhecer na sua vida, acima de tudo, a morte e o mal, também se torna errada quando, por ser temida a corporalidade, é evitado antecipadamente o seu contato, com o que pode provocar a morte e com o que pode provocar o mal. Destarte, deve-se transigir com Lúcifer. Vejam. Desta forma deve-se procurar compreender como as forças concretas atuam na existência humana, o que está por baixo e o que está por cima da vida anímica consciente na quinta cultura pós-atlântica. E quando os Senhores conhecerem estes motivos condutores descobrirão como poderão entender muito, muito mesmo, do que é apresentado. Apenas lhes peço que não sucumbam a ilusão, portanto, de que se deve evitar todo o luciférico e todo o arimânico.—Ora, este é justamente o melhor caminho para sucumbir ao luciférico e ao arimânico! Porque aquele que vive com a humanidade deve exatamente saber que Lúcifer e Arimã foram permitidos, até um certo ponto.

Se não pudessem acontecer extravios, o homem jamais chegaria á liberdade.

Se ele não pudesse viver no erro de que a felicidade e o bom poderiam ser a mesma coisa, e se não pudesse soerguer-se novamente acima deste erro, ele jamais chegaria a liberdade. Se ele não pudesse viver na ilusão de que, mediante a erradicação da vida terrena exterior se pode arrebatar a vitória sobre a morte e sobre o mal, se ele não pudesse entregar-se a esta ilusão, ele não chegaria realmente ao triunfo sobre a morte e sobre o pecado. É necessário que estas coisas ingressem na vida humana. Apenas devemos esclarecer-nos a respeito da fala queixosa: -- “Ai, isto é luciférico, e deve ser evitado, aquilo é arimânico, e deve ser evitado. “—Isso não deve tomar conta de nós; porém é preciso colocar-nos de forma correta diante dos poderes reis. Não temos de evitar Lúcifer simplesmente, porém temos de subjugar as forças de Lúcifer em benefício da evolução da cultura humana.

Não temos de evitar Arimã simplesmente, porém temos de subjugar as forças de Arimã em benefício da evolução da cultura humana. Temos de recolhê-las. 

A luta consiste em Arimã querer expulsar as almas. A humanidade tem a tarefa de recolher Arimã com as suas vigorosas forças. Isto inclui, por exemplo, todas aquelas forças do entendimento – trata-se preferencialmente das forças intelectuais, mas elas podem adotar uma forma de índole- que foram aplicadas no problema: “Como se funda um Estado “ Pensem em todas as pessoas que tomaram a seu cargo, mais ou menos teoricamente, mais ou menos praticamente, este problema. Tomaram-no a seu cargo eventualmente porque fizeram os mais intensos esforços para solucionar o problema. Estas forças que foram aplicadas ao problema devem ser destinadas ao bem dos serviços da humanidade. Elas não podem ser arimanizadas ao dizermos que não queremos saber nada de Arimã, que não nos ocupamos com o que, por exemplo, se alega como tendo partido de Arimã nos problemas sociais. Isto não levaria a nada. E exatamente o mesmo se refere a Lúcifer. O impulso, o impulso da sensibilidade, o impulso do sentimento, que a ciência espiritual nos dá, deve consistir certamente em nos postarmos de maneira correta perante as forças ora existentes no mundo. Aquele que não quiser fazê-lo é exatamente igual àquele que diz: -- Os maus elementos. – Não, não os aprecio, não os aprecio nem um pouco. – Certamente estas coisas são unilateralidades. Mas na atuação conjugada do mal e do bem, na sua reunião, estes elementos tornam-se precisamente fecundos na condição de equilíbrio que devemos ocasionar na vida, quando aprendemos, por assim dizer a dominar o arimânico e o luciférico. Neste estado de equilíbrio reside o impulso a ser inserido na vida. E a ciência do espírito deve intermediar tal impulso.

(Terminado de traduzir por Gerard Bannwart, em 22 de março de 1994, atendendo á solicitação de Ute Craemer, para preparar o tema “Alma Brasileira” para o Encontro de Iniciativas de 1994. Revisado por José Fernando da Silva e Ute Craemer em maio de 1996.)