Antroposofia e a missão dos povos

A missão das almas dos povos - Rudolf Steiner

PRIMEIRA CONFERENCIA

7 de junho de 1910 

Tenho a esperança de que este ciclo de conferências que estou iniciando hoje aqui possa contribuir para aclarar alguns aspectos conhecidos da chamada imagem global de nossa filosofia universal. Quero chamar a atenção p'ara a circunstância de que este ciclo apresentará muita coisa pertencente às verdades mais fundamentais de nossa concepção do mundo, abrangendo as- sim elementos ainda bastantes alheios ao pensamento atual dos homens. Por isso, peço aos prezados amigos que tiveram pouca oportunidade de se ocupar das questões mais profundas da concepção científico-espiritual tomarem em consideração que não conseguiríamos progredir nada em nosso campo se não déssemos, de tempos em tempos, um largo pulo e um forte impulso justamente nas partes da cognição espiritual ainda mantidas bastante alheias ao pensar, ao sentir e ao querer atual das pessoas.

Considerando isso, penso que às vezes minhas exposições vão requerer certa dose de boa vontade de sua parte; pois se tivéssemos de reunir todos os documentos e comprovantes das exposições destes poucos dias, precisaríamos de muito mais tempo. Não seguiríamos adiante se não houvesse ressonância ao nosso apelo por boa vontade,se não encontrássemos compreensão espiritual em relação à minha exposição. É verdade que o assunto a ser tratado por nós até em no~os tempos modernos está sendo evitado por ocultistas, místicos e teósofos, precisamente por requerer um grau superior de independência dos preconceitos a fim de se acolher sem possível resistência as comunicações a serem feitas.

O que quero dizer com isso, meus amigos, talvez se compreenda mais facilmente se lembrarmos que quem chega a um certo grau de evolução mística ou oculta é chamado pela designação realmente técnica de "homem' sem pátria". Querendo caracterizar sem rodeios o significado da expressão "homem sem pátria", podemos dizer que designa a pessoa que. em sua concepção das grandes leis da humanidade, não se deixa influenciar nada por tu- do o que geralmente desponta nos homens em função de sua vivência em determinada etnia. Também podemos dizer que o homem sem pátria é alguém capaz de acolher a grande missão da humanidade sem que nele apareçam sentimentos e sensações específicos, determinados por esta ou aquela terra natal. Por isso, vocês vêem que determinado grau de maturidade na evolução mística ou oculta abarca uma visão desembaraçada precisamente do que, em outras circunstâncias e com toda a razão, contemplamos como algo grande, por nós designado como a missão dos diferentes espírito dos povos, em relação à vida humana individual, vale dizer, o que, a partir do fundo terreno de cada povo e do espírito dos povos, fornece as muitas contribuições concretas à missão global da humanidade.

Vamos, pois, descrever a grandeza daquilo de que o homem sem pátria, sob certo aspecto, deve libertar-se. Acontece que os homens sem pátria, desde os tempos primordiais até nossos dias,sempre souberam que, se quisessem caracterizar sua condição de sem pátria em todas as suas implicações, encontrariam bem pouca compreensão. Há um preconceito contra tais pessoas expresso na seguinte repreensão: "Vocês perderam qualquer ligação de índole étnica com a mãe-pátria; vocês não ligam ao que é mais precioso aos outros. Mas não é assim. No fundo e de certa maneira, a condição de sem pátria é um caminho indireto ou pelo menos pode sê-lo -que depois de se ter alcançado o lugar sagrado, a condição de sem pátria, a traz de volta à substância do povo, reencontrando assim a harmonia com o autóctone na evolução da humanidade. Tendo chamado a atenção a essa circunstância, achamos existirem razões para, justamente nesta época, falar-se da maneira mais franca sobre o que denominamos "missão das almas individuais dos povos" neste mundo. Até agora houve razões para se calar quase que completamente sobre t: 1 missão; mas, pelas mesmas razões, deve-se começar a falar dela em nossa época. É de suma importância falar dessa missão, porque o que acontecerá à humanidade em futuro próximo contribuirá, num grau muito maior do que ocorreu até agora, para reunir os homens numa missão humanitária comum. Porem, os membros de um povo só poderão dar sua contribuição livre e concreta a essa missão comum, se antes de mais nada tiverem a compreensão de sua índole étnica, do que poderíamos chamar de "autocognição da etnia". Na antiga Grécia, nos mistérios apolíneos, a expressão "conhece-te a ti mesmo" teve papel muito importante; assim, num futuro não muito distante, as almas dos povos ouvirão o apelo: "Conhecei-vos a vós mesmos como almas dos povos." Essa frase terá uma certa importância para a atuação da humanidade no futuro.

Nossa época encontra extraordinária dificuldade em reconhecer a existência de entidades não existentes à percepção sensorial externa e ao conhecimento material. Menos difícil seria, talvez, reconhecer na atualidade a existência no ser humano, tal como aparece no mundo, de certos membro e partes de sua entidade supra-sensíveis e invisíveis; reconhecer que entidades, como os seres humanos, ao menos fisicamente visíveis em seu lado externo, também tenham sua parte supra-sensível invisível. No entanto, representa uma impertinência para as pessoas de nossa época falar-lhes de entidades que, para a concepção corriqueira, não existem. O que é então que alguns chamam de "alma do povo" e '-'espírito do povo"? Quando muito, reconhece-se nisso uma qualidade comum de tantas e tantas centenas ou milhões de pessoas comprimidas sobre determinado pedaço de terra. Porém difícil é explicar à consciência moderna que algo que vive independente desses milhões de seres humanos comprimidos num pedaço de terra seja coisa real e correspondente ao conceito de "espírito do povo". Por exemplo, para falarmos de algo bem neutro à pergunta: O que o homem atual entende pelo conceito de "espírito do povo suíço"? -receberíamos a descrição bem abstrata de algumas qualidades das pessoas que habitam as regiões suíças dos Alpes e do Jura, e o interrogado teria certeza de que a isso não corresponderia algo discernível pelas forças cognitivas e externas, ou seja, pelos olhos e outros órgãos de percepção. Para começar, será necessário conseguir aberta e sincera- mente acostumar-se à noção da existência de entidades que não se apresentam ao poder de percepção material ordinário e não se expressam na esfera sensorial; habituar-se à noção de que entre as entidades perceptíveis aos sentidos existem outras invisíveis atuando entre os primeiros, da mesma maneira como a entidade humana atua nas mãos e nos dedos. Assim poder-se-á falar do espírito do povo suíço como se fala do espírito de uma pessoa, distinguindo-se esse espírito da pessoa daquilo que se apresenta nos dez dedos: também se deve distinguir o espírito do povo suíço dos milhões de indivíduos que vivem nas montanhas da Suíça, por ser algo diferente e uma entidade, como o é o próprio ser humano. Os indivíduos distinguem-se desse espírito pelo fato de apresentarem ao poder de cognição humana um exterior sensível. O espírito de um povo não oferece algo que pode ser percebi- do pelo poder de cognição apenas sensorial. como o é o ser humano que pode ser visto e percebido pelos órgãos externos; todavia, o espírito do povo é uma entidade real.

De que forma procederemos na ciência espiritual se desejamos formar idéia de uma entidade real? Temos ante nós um exemplo característico disso, se começarmos a dirigir a atenção à natureza do ser humano. Descrevendo o homem do ponto de vista da ciência espiritual, distinguimos nele o corpo físico, o corpo etérico ou vital, o corpo astral. ou de sentimentos. e o que consideramos o membro superior: o eu. Sabemos, portanto, que nesses quatro membros temos todo o ser humano como se apresenta hoje. Sabemos também que a humanidade continuará evoluindo no futuro e" que o eu está trabalhando nos três membros inferiores da entidade humana, de sorte a espiritualizar e transformar esses membros de sua forma inferior atual a uma forma superior no futuro. Quando o eu houver transformado o astral, este se apresentará de forma nova, conhecida pelo nome de personalidade espiritual ou Manas. Assim, um trabalho mais elevado do eu no corpo etérico ou vi- tal transformá-lo-á no que denominamos espírito vital ou Budhi. E por fim o trabalho superior do eu, o esforço de trabalho mais alto que se possa imaginar, é a transformação, metamorfose ou espiritualização do membro mais reticente de sua entidade: o corpo físico. Este corpo físico tornar-se-á o membro mais alto da entidade humana, hoje sua parte mais tosca e material e que, transformado pelo eu, será o homem-espírito ou Atma.

Temos assim três membros da natureza humana que se desenvolveram no passado, um outro no qual nos encontramos atualmente e outros três novos que o eu elaborará no futuro.

Sabemos também que existe algo entre o trabalho realizado no passado e o que será realizado no futuro, na elaboração dos membros superiores. Sabemos que devemos pensar aí em subdivisão do próprio eu incorporado que trabalha numa espécie de entidade intermediária. Dizemos, por isso, que entre o corpo astral como se formara no homem em tempos passados e a personalidade espiritual ou Manas, na qual esse corpo astral transformar-se-á em futuro remoto, encontram-se três membros preparadores que são: a alma da sensação, o membro mais baixo em que trabalhara o eu; a alma racional ou do afeto e a alma da consciência. Portanto, podemos dizer que do que te- remos de realizar como personalidade espiritual ou Manas, por enquanto ainda há muito pouco no ser humano ou apenas o começo. Em compensação, o ser humano preparou-se para o trabalho futuro conseguindo dominar, até certo ponto, seus três membros inferiores. Preparou-se ao aprender dominar o corpo astral ou dos sentimentos, penetrando nele com seu eu e elaborando dentro dele a alma dos sentimentos. Assim como a alma da sensação se relaciona ao corpo dos sentimentos, a alma do intelecto ou do afeto está relacionada de certa forma ao corpo etérico ou vital; assim ela pode ser considerada um modelo fraco do que um dia será o espírito vital ou Budhi. E o que temos na alma da consciência de certo modo foi elaborado pelo eu no corpo físico. Por isso, forma um modelo fraco do que um dia se- rá o homem-espírito ou Alma. E não tomando em conta o que já fora elaborado do corpo astral como começo da personalidade espiritual ou Manas, vemos atualmente no ser humano quatro membros:

1. o corpo físico,

2. o corpo etérico,

3. o corpo astral e

4. o eu, que trabalha neste último.

Além disso temos, qual antevisão dos membros superiores: a alma da sensação,

a alma do intelecto e a alma da consciência.

Temos assim o ser humano caracterizado como uma entidade tal qual se nos apresenta hoje, no momento atual de sua evolução. Quase vemos o eu elaborar os membros superiores, depois de ter recebido como fase preparatória as almas da sensação, do intelecto ou do afeto e da consciência. Vemo-lo trabalhar com as forças dessas almas transformando o corpo astral nos primórdios da personalidade espiritual.

Quem se ocupou, e penso que seja a maioria de vocês, com o que denominamos estudo da Crônica do Akasha, com a evolução da humanidade desde os tempos primordiais e com as perspectivas do futuro longínquo sabe que os seres humanos passaram por uma evolução, cada fase durando muito tempo, em que se desenvolveu primeiro a disposição para o corpo físico, depois a do corpo etérico e por fim a do corpo astral, membros que depois continuaram desenvolvendo-se. Passaram-se longos espaços de tempo; e também sabemos que os seres humanos não absorveram as antigas fases de sua evolução; por exemplo a disposição para o corpo astral, no mesmo estágio da Terra em que se encontra hoje. O corpo astral foi desenvolvido num estágio anterior da Terra, ou seja, na fase da Lua. Reconhecemos a vida atual como conseqüência de vidas anteriores, encarnações anteriores; da mesma forma devemos encarar as encarnações anteriores da Terra atual. O que chamamos de almas dos sentimentos, do intelecto ou do afeto e da consciência, estas se formaram só nesta fase da Terra. Como já dissemos, na fase da Lua formou-se o corpo astral; numa fase anterior, a do Sol, implantou-sé o corpo etérico, e durante a fase de Saturno lançaram-se as bases do corpo físico. Assim, na retrospectiva, vemos três encarnações da Terra e em cada uma a predisposição de um dos membros que hoje fazem parte do ser humano e que no decorrer do tempo passaram por seu desenvolvimento.

Devemos salientar mais um detalhe ao falar dos estágios de Saturno, Sol e Lua. No atual estágio da Terra, como seres humanos estamos passando pelo estado que podemos designar de estado de autoconsciência; da mesma forma, outros seres passaram por esse estado durante os estágios anteriores da evolução terrestre, ou seja, os de Velho Saturno, Velho Sol. e Velha Lua. Usando a terminologia ocidental, a cristã esotérica, podemos dizer que foram os Angeloi ou Anjos que, durante o estágio da Velha Lua da Terra, es- tiveram no estágio em que se encontra hoje o ser humano; são os seres ime- diretamente acima de nós, porque absorveram seu estado humano numa época antes da nossa, ou seja, na da Velha Lua. Todavia, não devemos imaginar que esses seres se pareciam externamente com os seres humanos de hoje: não andavam na Velha Lua como o fazemos hoje na Terra; pois, embora passando por sua fase de seres humanos, não tinham um corpo físico como nós. Apenas o estágio da evolução correspondia à atual situação do homem. Outros seres passaram por sua fase de seres humanos durante o estágio do Velho Sol: são os Archange/oi ou Arcanjos. Encontram-se dois estágios acima do homem, tendo passado por sua fase humana duas épocas antes do homem. Voltando ainda mais para trás, ao primeiro estágio da evolução terrestre, o de Saturno, encontramos seres que então passaram por seu estado humano: são os seres da personalidade ou arqui-iniciadores ou Arqueus. Começando com esses seres humanos nos tempos passados mais remotos, ou seja, durante o estágio do Velho Saturno, e acompanhando as "encarnações" da Terra até nossa época, temos os graus de evolução dos seres até nossa entidade. Para recapitular dizemos: os Arqueus eram seres humanos no Velho Saturno; os Arcanjos eram seres humanos no Velho Sol; os Anjos o eram na Velha Lua e os seres humanos o são na Terra.

Sabendo que no futuro a evolução continua, que continuamos a desenvolver os membros inferiores, que são hoje nossos corpos astral, etérico e físico, indagamos se não seria natural que os seres que passaram por seu estágio de seres humanos em épocas anteriores já agora não se encontrariam no grau em que transformaram seu corpo astral em personalidade espiritual ou Manas. Terminaremos a transformação do corpo astral em personalidade espiritual ou Manas durante a próxima "encarnação" da Terra: no estágio de Júpiter; assim os seres que durante o estágio da Velha Lua eram seres humanos estão terminando a transformação de seu corpo astral durante o atual estágio da Terra. Olhando mais para trás, aos seres que eram seres humanos durante o Velho Sol, podemos dizer: eles já absorveram durante a Velha Lua o que teremos de realizar no próximo estágio da Terra. Atualmente, es- tão empenhados no que só faremos quando o eu transformar o corpo etérico ou vital em espírito vital ou Budhi. Esses Arcanjos encontram-se, pois, dois degraus acima de nós, e quando levantamos os olhos a eles, reconhecemos antecipado neles o que também teremos de realizar no futuro, ou seja, o trabalho no corpo etérico ou vital para transformá-lo em espírito vital ou Budhi. Quando, finalmente, levantamos os olhos aos seres ainda mais altos, os seres da personalidade ou Arqueus, vemos que estes se encontram num degrau mais alto que os Arcanjos, um degrau que o ser humano alcançará num futuro ainda mais remoto, quando puder transformar o corpo físico em homem-espírito ou Atma.

Com a mesma certeza com que vemos os seres humanos da fase atual, devemos reconhecer as mencionadas entidades nas fases de existência que acabamos de caracterizar, nos respectivos graus acima de nós. Com essa mesma certeza podemos reconhece-Ias como realidade. Porem, não é que sua realidade esteja longe da realidade terrena; ao contrário, intervém em nossa realidade e influi em nossa existência. Surge então a pergunta: como os seres acima dos seres humanos influem sobre nossa existência? Se quisermos ter idéia dessa atuação, deveremos tomar em consideração que aqueles seres, por assim dizer, ' iam oferecer-nos em seu trabalho um aspecto espiritual completamente diferente do que oferecem os seres humanos atuais. Existe, pois, uma diferença considerável entre os seres acima de nós e nós mesmos, que nos encontramos ainda na fase de seres humanos. Por estranho que isso lhes pareça, no decorrer dos próximos dias será esclarecido isso. A ciência espiritual pode afirmar que o ser humano no seu estado atual de certo modo encontra-se num estágio intermediário de sua existência. A maneira de o eu trabalhar hoje nos membros inferiores não permanecerá sempre a mesma. O ser humano é coerente em si, formando uma entidade aparentemente não dividida por nada. Isso pode mudar no decorrer da evolução da humanidade e com certeza mudará. Quando um dia o homem ti- ver chegado ao ponto de trabalhar em plena consciência no seu corpo astral .e o seu eu tiver transformado o corpo astral em personalidade espiritual ou Manas, terá chegado em plena consciência a um estágio idêntico ao que possui hoje, no inconsciente ou subconsciente durante o sono.

Imaginem o estado de sono do ser humano. Nele, o corpo astral e o eu saem do corpo físico e do corpo etérico que ficam na cama, enquanto o ser humano como que paira acima deles. Imaginem que, nesse estágio, desperta a consciência ao ponto de poder dizer: "Eu sou um eu", da mesma forma como acontece no estado de consciência vígil durante o dia. A pessoa teria uma visão bem estranha de si própria! Em um lugar sentiria:" Aqui estou eu"; e talvez mais embaixo, longe desse lugar: "Lá estão meu corpo astral e o corpo etérico que me pertencem, embora estejam em lugar diferente de onde me encontro, pairando com meus outros membros". Quando a consciência despertar no corpo astral, fora dos corpos físico e etérico, hoje mesmo o ser humano mais desenvolvido da Terra será capaz apenas de se movimentar livremente no corpo astral e nele será ativo em outras partes do mundo, independentemente dos outros membros que ficarão na cama. Num futuro longínquo, todavia, também estes poderão ser dirigidos do lado de fora, de um lugar para outro. Isto será possível quando o ser humano ti- ver passado do estado de evolução atual do planeta Terra para o de Júpiter, que representa o próximo estágio de evolução da humanidade. Então nos sentiremos nossos próprios dirigentes do lado de fora. Será isso a parte essencial de nossa evolução, o que, contudo, levará a um desdobramento do que hoje chamamos de entidade humana.

A consciência materialista dificilmente achará acesso a isso, porque não é capaz de seguir a evolução do que já na atualidade de certo modo se manifesta de forma real e idêntica à que ocorrerá de maneira geral no futuro do homem. Todavia, se as pessoas ficassem atentas, poderiam perceber tais manifestações já hoje. Veriam que existem certos seres que se adiantaram na evolução a um ponto que o ser humano, tendo aguardado o momento certo, deverá alcançar só no estágio de Júpiter, quando será capaz de dirigir seus corpos físico e etérico. No reino das aves, temos estes seres desenvolvidos precocemente, e precisamente os que todo ano executam grandes migrações pela Terra. Trata-se da assim chamada alma de grupo que está em ligação com o corpo etérico em cada ave individual. Essa alma de grupo dirige as migrações regulares das aves pela Terra; da mesma forma o ser humano, após ter desenvolvido a personalidade espiritual ou Manas, será capaz de ordenar a seus corpos físico e etérico porem-se em movimento. Num senti- do ainda mais alto, o ser humano será capaz de movimentá-los do lado de fora, quando tiver chegado em sua evolução ao ponto de agir transformando seu corpo etérico ou vital. Hoje já existem entidades que são capazes disso: são os Arcanjos, que conseguem o que se pode chamar de "dirigir do lado de fora seus corpos etérico e físico" e simultaneamente continuar trabalhando em seu próprio corpo astral.

Idealizemos o conceito de entidades que vivem ao redor da Terra, na atmosfera espiritual dela, as quais, a partir do seu eu, já conseguiram transformar completamente seu corpo astral, de modo a possuírem uma personalidade espiritual ou Manas perfeitamente desenvolvida. Com esse Manas desenvolvido atuam sobre a Terra e para dentro dos seres humanos, ajudando-os a transformar o corpo etérico ou vital, enquanto estão empenhados em transformar o próprio corpo etérico ou vital em Budhi ou espírito vital. Formando uma idéia dessas entidades encontradas no grau de hierarquia espiritual que chamamos de Arcanjos, temos um conceito do que São os espíritos dos povos dirigentes na Terra. Estes se encontram, pois, no grau dos Arcanjos. Logo veremos como dirigem seu corpo etérico ou vital para atuar dentro da humanidade, incluindo-a em sua atividade. Observando os diferentes povos da Terra e escolhendo o exemplo de um ou outro, teremos nas qualidades peculiares, características desses povos, em sua vida e seus hábitos característicos, uma imagem do que podemos entender como a missão dos espíritos dos povos.

Conhecendo a missão dessas entidades inspiradoras dos povos, sabe- mos o que é povo. Povo são pessoas pertencentes a um mesmo grupo e dirigidas por um Arcanjo. Os membros de um povo recebem do Arcanjo a inspiração para o que são e realizam como membros do povo. Imaginando que esses espíritos dos povos possuem individualidade peculiar análoga à dos seres humanos na Terra, acharemos compreensível que os diversos grupos dos povos representam a missão individual desses Arcanjos. Visualizando espiritualmente na história do mundo como um povo se segue a outro e também como um povo perdura ao lado de outro, seremos capazes de imaginar, ao menos abstratamente (no decorrer das conferências, a forma tomar-se-á cada vez mais concreta) como tudo isso que ocorre no plano histórico é inspirado por essas entidades espirituais. Todavia, ao lado do rastro que deixara a atuação de um povo após outro na evolução da humanidade, nossas almas facilmente perceberão mais um outro elemento. Observando a era posterior à grande catástrofe atlântica, que transformou a superfície da Terra fazendo desaparecer o continente que existia entre a África, a América e a Europa, como as conhecemos hoje, podemos distinguir as épocas em que atuavam os grandes povos que engendraram as culturas pós-atlânticas: a velha Índia, a velha Pérsia, a cultura egipto-caldaica, a greco-latina e a nossa contemporânea, à qual depois de algum tempo se seguirá uma sexta época cultural. Nelas atuaram, um após outro, os diferentes inspiradores dos povos. Sabemos também que, muito tempo após o início da cultura greco-latina, ainda continuava atuando a cultura egipto caldaica, tal como a cultura grega continuava atuando após o advento da cultura romana. Assim podemos contemplar os povos, tanto um ao lado do outro quanto sucessivamente. Em tudo o que se desenvolve nos povos e com os povos, há um progresso na evolução humana. Não importa se consideramos um povo colocado mais alto que outro; tais avaliações pessoais não têm influência sobre o andamento da história. Há uma continuação inexorável no progresso da humanidade, mesmo que isso seja chamado de decadência. Na comparação das diferentes épocas, 5.000 anos antes de Cristo, 3.000 anos antes de Cristo e 1.000 anos depois de Cristo. temos de reconhecer um elemento superior aos espíritos dos povos, algo de que participam. Observemos nossa época: o que faz com que, nesta sala, estejam reunidas tantas pessoas vindas dos mais diferentes povos, as quais se entendem mutuamente ou procuram entender-se sobre a coisa mais importante que as reuniu aqui? Estas pessoas, apesar de procederem do âmbito dos mais diversos espíritos dos povos, têm uma coisa em comum em que se entendem. Analogamente, naqueles tempos, os diferentes povos se entenderam mutuamente, pois há em todas as épocas algo superior às almas dos povos, algo capaz de uni-Ias e de ser entendido até certo grau em toda parte. Esse algo superior é designado "espírito do tempo", nome não muito adequado mas bastante corriqueiro; usa-se também "espírito da época". O espírito da época ou do tempo é um na era grega, outro em nossa era. As pessoas que sintonizam com o espírito da nossa época sentem-se atraídas para a Antroposofia. É o efeito do espírito da época que sobrepassa os espíritos dos povos. Na época em que Jesus Cristo aparecera na Terra, seu antecessor, João Batista, designava o espírito daquela ét>oca com as palavras: "Mudai a disposição de vossas almas, pois o reino dos Céus está próximo!"

Assim é possível encontrarmos o espírito do tempo para cada época, porque sua atuação influi no tecer dos espíritos dos povos, os quais havíamos caracterizado como Arcanjos. Para os seres humanos materialistas de nossa época, o espírito do tempo representa uma abstração sem realidade. Sabemos, porém, que a palavra "espírito do tempo" designa uma entidade verdadeira que se encontra três estágios acima do homem. São as entidades que, já no Velho Satumo, na época mais remota da evolução terrestre, absorveram a fase de seres humanos e, em nossa época, trabalham no âmbito periférico espiritual da Terra, na transformação dela e, ao mesmo tempo, passam pela última fase, a transformação do corpo físico, por assim dizer, ao homem-espírito ou Alma. Estamos na presença de entidades tão elevadas que suas qualidades nos enchem de assombro. Devemos ver nessas entidades os verdadeiros inspiradores ou usando a terminologia do ocultismo os intuidores dos espíritos dos tempos. Eles se revezam em sua atuação, como se um desse a mão ao outro. De um para outro passa a tarefa na seqüência das épocas; por exemplo, o espírito da época grega entregara a tarefa ao da ~ra romana, e assim por diante. Existem, pois, vários desses espíritos do tempo, também chamados espíritos da personalidade. Encontram-se num grau mais alto que os espíritos dos povos. Em cada era age um deles e dá o signo global a essa época; confere suas ordens aos espíritos dos povos, especializando e individualizando assim o espírito global da época, de acordo com os diferentes espíritos dos povos. Na época seguinte, é substituído por um outro espírito do tempo ou Espírito da Personalidade, também chamado Arqueu.

Durante a passagem de um certo número de épocas, um espírito do tempo continua seu desenvolvimento. Podemos imaginar tal desenvolvimento análogo ao nosso; quando morremos, após termos passado por um certo desenvolvimento aqui na Terra, nossa personalidade entrega () resultado desse desenvolvimento à próxima vida terrena. O mesmo se dá com os espíritos do tempo; cada um deles entrega sua tarefa ao sucessor. Depois, continua passando por sua própria evolução, até chegar o momento em que o giro se completará e, numa época futura, voltará a sua vez de atuar como espírito da época num plano mais elevado; quando terá intuído na humanidade o que tiver adquirido em seu desenvolvimento. Levantando os olhos a esses espíritos da personalidade podemos dizer o seguinte: nós, seres humanos, avançamos de encarnação em encarnação e sabemos que, em cada época, quando novamente nos encarnamos, um outro espírito do tempo regerá os destinos da Terra e que, no decurso de nossas encarnações, encontraremos novamente o espírito que rege a época atual. Por essa qualidade dos espíritos da personalidade de ao mesmo tempo descreverem círculos e voltarem a um ponto de partida, também são chamados "espíritos das circunvoluções". Ainda teremos de precisar mais tal designação. Essas circunvoluções são as que o próprio ser humano tem de atravessar, de época em época, voltando de certo modo a estados anteriores que recapitula em nível mais elevado. Podemos perceber a recapitulação das peculiaridades de épocas anteriores, estudando, com a ciência espiritual, a evolução das fases da humanidade na Terra, quando encontramos diferentes indícios dessa repetição de acontecimentos. Dizemos que após a catástrofe atlântica seguem-se sete épocas culturais, em que vemos certa repetição. A fase greco-latina for- ma o momento de transição em nosso ciclo e não tem repetição. Segue em nossa época a recapitulação da época egipto-caldaica. A nossa será seguida por uma outra época, repetição da pérsica, por certo de maneira um pouco modificada; a sétima época será uma recapitulação algo modificada da era da Velha Índia, da época dos sagrados Rishis. Em cada uma dessas recapitulações aparecerão elementos predispostos na época recapitulada. A direção de todos esses eventos está a cargo dos espíritos do tempo.

Para muitas coisas necessitamos dos espíritos dos povos, que fazem .parte da hierarquia superior dos arcanjos: para que na Terra fique vivo, distribuído nos diferentes povos, aquilo que progride de época em época; para que os diversos tipos de pessoas nasçam deste ou daquele solo, desta ou daquela comunidade lingüística; para que se criem as diferentes linguagens em formas. arquitetura, artes e ciências e possam adquirir todas as metamorfoses; e para que se possa acolher tudo o que o espírito da época tenha a dar à humanidade.

Mas ainda precisamos de um mediador entre a missão superior dos espíritos dos povos e os seres que devem ser inspirados pelos primeiros aqui na Terra. De forma abstrata, os senhores não terão dificuldade em reconhecer, na hierarquia dos Anjos. esses mediadores entre dois planos espirituais, entre espírito do povo e ser humano individual. Para que cada indivíduo possa acolher o que o espírito do povo tem a dar a todo o povo e se torne implemento da missão do povo, necessita-se da mediação do Anjo.

Contemplamos assim os seres que passaram pela fase de seres humanos três estágios antes de a atual humanidade ter alcançado essa fase, e vimos como tais seres incorporaram a humanidade em sua consciência e intervêm em nosso desenvolvimento na Terra. Amanhã, teremos de demonstrar como o trabalho dos Arcanjos, de cima para baixo, a partir do seu eu que já completara o Manas ou personalidade espiritual e está tecendo agora no corpo etérico ou astral dos seres humanos, manifesta-se principalmente nas produções, nas qualidades e na natureza de um povo. Os seres humanos estão metidos no trabalho dos seres superiores que os envolve diretamente enquanto membros de um povo. Embora o ser humano primeiramente seja uma individualidade e uma expressão do seu eu, é também membro de um povo, algo que diretamente independe dele. Que culpa tem o indivíduo pelo fato de pertencer a determinado povo e de falar a I íngua desse povo? Isso não constitui feito individual ,ou o que poderíamos chamar de progresso individual; é conseqüência da corrente que o recebeu. O progresso individual é algo completamente diferente. Vendo a vida e o tecer da alma do povo, lembramo-nos em que consiste o progresso individual dos seres humanos e do que precisam para acompanhá-lo. Conheceremos elementos que, por assim dizer, não somente pertencem ao desenvolvimento deles, indivíduos, mas também ao desenvolvimento de entidades totalmente diversas.

Vemos assim o ser humano encaixado na ordem das hierarquias e recebendo em sua evolução, de época em época, a colaboração de seres que conhecemos de outro lado. E vemos também como tais seres têm a possibilidade de se manifestar da maneira individual mais variada e como o que externam influi na evolução dos indivíduos humanos.

Os espíritos do tempo é que dão as grandes diretrizes das sucessivas épocas. As diferentes individualidades dos povos possibilitam ao espírito da época estender-se por toda a terra. Enquanto os espíritos do tempo impulsionam os espíritos dos povos, os Anjos fazem com que estes últimos ajam sobre indivíduos humanos, capacitando-os a cumprir sua missão. Portanto, pela atuação dos Anjos, seres situados entre os espíritos dos povos e os seres humanos, os homens tomam-se implementos na missão dos primeiros.

No decorrer destas palestras teremos a oportunidade de verificar, nessa maravilhosa trama, a ação das mais diversas individualidades dos povos da Antigüidade e da atualidade. Na próxima conferência, começaremos a esclarecer concretamente como é tramada essa textura hoje apenas esboçada, o tecido espiritual que constituirá nossa próxima existência no mundo.