Antroposofia e a missão dos povos

A missão das almas dos povos - Rudolf Steiner

2ª CONFERENCIA

8 de junho de 1910.

Ontem mencionamos que as entidades em que devemos ver os espíritos dos povos na sua existência atual se encontram num grau em que estão trabalhando em seu corpo etérico ou vital, a partir do seu eu e da natureza mais íntima de sua alma.

Penso que cada um dos senhores terá de admitir o seguinte: o trabalho daqueles seres em Seu corpo etérico ou vital não poderá ser percebido diretamente pelos órgãos de percepção externos ou visto pelos olhos físicos; isso é reservado ã consciência clarividente. Se, porém, a ação desses seres, a saber, dos espíritos dos povos, influi na vida humana, deve haver algo que de certo modo tome visível, no mundo exterior, uma espécie de impressão e de reflexo desse trabalho dos espíritos dos povos ou Arcanjos. Além do mais, tais entidades, por assim dizer, têm de possuir um corpo físico. De alguma forma, sua corporeidade deve-se expressar. E é provável que encontrem, no mundo em que se acham os seres humanos, uma maneira de demonstrar essa forma física em que se expressam seu trabalho ou ação; porque não há dúvida de que o corpo humano tenha alguma relação com o trabalho dessas entidades espirituais. Comecemos com o corpo etérico ou vital desses seres e com o trabalho que realizam nesse corpo. Teremos de seguir inicialmente as observações da consciência clarividente. Onde é que essa pesquisa clarividente encontra algo que se possa designar um corpo etérico dessas entidades-Arcanjo, e de que maneira devemos encarar esse trabalho? Os senhores sabem que a configuração, a superfície da Terra se apresenta de forma diferente em diferentes lugares, os quais fornecem, da maneira mais diversa, as condições para o desdobramento de peculiaridades e qualidades dos povos. A consciência materialista dirá que clima, vegetação, talvez a água de um determinado país ou de uma localidade da Terra, combinados com uma série de outras circunstâncias externas, sejam responsáveis pelo que se manifesta naquelas peculiaridades e qualidades de um povo. Não é de se admirar que a consciência do plano físico e material fale desse modo; pois essa consciência só conhece o que pode ser visto com os olhos físicos. À consciência clarividente, todavia, as coisas apresentam-se de forma bem diferente. Quem passar com essa consciência pelos diferentes lugares da terra e observar com essa consciência o solo nas diversas regiões sabe que na vegetação física peculiar e na configuração característica das rochas não se exprime tudo o que se sabe daquele solo, da imagem daquela região da Terra. Por outro lado, é compreensível que a consciência materialista considere apenas um abstrato o aroma característico ou até a aura de determinado lugar da Terra. A consciência clarividente de fato percebe sobre cada localidade da Terra a formação nebulosa espiritual característica, que deve ser chamada à aura etérica daquela região terrestre. A aura etérica é completamente diferente nas regiões da Suíça do que nas da Itália, e também nas regiões da Noruega, Dinamarca ou Alemanha. Da mesma forma que cada indivíduo humano possui seu próprio corpo etérico, sobre cada região da superfície terrestre eleva-se uma aura etérica.

Essa aura etérica, todavia, distingue-se essencialmente de outras auras etéricas, por exemplo, das dos seres humanos. Observando uma pessoa em vida encontramos sua aura ligada a ela enquanto viver, a saber, do nascimento até a morte. Portanto, está ligada ao seu corpo físico e muda somente à medida que esse indivíduo evolui relativamente sua inteligência, moral e outras qualidades. Nesses casos, percebemos sempre que a aura etérica transforma-se a partir de dentro, recebe certas inclusões que reluzem e irradiam do interior. Nas auras etéricas que podem ser observadas sobre as várias regiões terrestres a situação é diferente. Por tempos prolongados, mantém inalterado certo matiz básico. Mas também sofrem alterações bruscas; e são justamente elas que as distinguem das auras humanas que se transformam só lenta e gradativamente, e se ocorrerem então, essas transformações vêm de dentro. As auras das várias regiões somente se transformam no decorrer do desenvolvimento da humanidade na Terra, quando um povo abandona seu domicílio, instalando-se numa outra região terrestre. O singular é que de fato a aura etérica sobre certa região não se relaciona unicamente com o que emana do solo, mas em grande escala com o povo que fixara seu domicílio naquela região.

Quem pretende acompanhar os destinos da humanidade em sua configuração real na Terra deve tentar observar esse aspecto da engrenagem das auras etéricas nas várias regiões terrestres. Por exemplo, na era da migração, houve fortes alterações nas auras etéricas da Europa. Daí os senhores vêem que a parte variável de uma aura etérica pode sofrer alterações bruscas, podendo essas transformações, de certo modo, até chegar do lado de fora. Assim, cada uma dessas auras é, de certa forma, uma confluência do que vem do solo com o que as migrações dos povos trazem.

A observação dessas auras pode-nos convencer de que a seguinte afirmação pronunciada com tanta facilidade na ciência espiritual, mas no fundo nunca compreendida em toda a sua relevância, possui a mais ampla realidade: o que a consciência física observa lá fora no mundo é somente Maya ou ilusão. Tal frase, embora enunciada freqüentemente no âmbito da filosofia antroposófica, na verdade é pouco levada em consideração na sua relação com a vida real. É tomada mais como verdade abstrata; todavia, na observação das condições concretas é esquecida, porque só a consciência material é que conta. Não se vê que a realidade de um pedaço de terra habitado por um povo está na aura etérica daquela região, enquanto o que os olhos físicos percebem na camada vegetal verde da Terra, na configuração peculiar do solo e noutros elementos, no fundo, é só Maya ou ilusão exterior, algo como a condensação do que atua na aura etérica. Contudo, a aura etérica relaciona-se apenas com a parte do físico sobre a qual ela, como princípio vivo organizador, pode ganhar influência. Por sua vez. Os Arcanjos que regem as leis espirituais não podem intervir nas leis físicas. Sua influência, pois, não alcança as regiões onde vigoram somente leis físicas, como por exemplo, nas configurações montanhosas, na ondulação do solo, onde as condições físicas determinam as grandes transformações dos povos. Os Arcanjos ainda não chegaram em seu desenvolvimento a ponto de poder intervir nas condições físicas. Em virtude dessa circunstância, de sua dependência desses fatos, são obrigados, de tempos em tempos, a migrar sobre a Terra, incorporando-se no que fez a configuração do solo, como se fosse seu corpo físico que é regido pelas forças físicas. O corpo etérico do povo ainda não pode entrar nessas formações, ainda não pode estender nelas sua ação organizadora.       Por isso o povo escolhe sua terra que se possa mostrar apropriada; e do casamento do corpo etérico, que agora está sendo transformado por forças anímico-espirituais, com aquele pedaço físico de terra, nasce o que se nos apresenta como a fascinação do hábito de uma nacionalidade; é algo que uma pessoa não-clarividente apenas consegue sentir num país, mas que uma pessoa possuidora da consciência clarividente percebe no país e no povo.

Qual é a ação do trabalho, por assim dizer, do Arcanjo e do espírito do povo no corpo etérico que se eleva acima do solo, na parte humana que vive naquele pedaço de solo e que determina o encanto particular da auréola de um povo? A força desse trabalho exprime-se de três maneiras no ser humano. É a aura etérica do povo que age dentro dos indivíduos, permeia-os e os impregna, e isso se dá de modo a surgirem três efeitos diferentes na entidade humana. A interação desses três efeitos produz o caráter particular de uma pessoa que vive nessa aura etérica de um povo. A aura etérica tem efeito tríplice no ser humano. Seu campo de ação são os temperamentos consolidados na vida emocional e no corpo etérico das pessoas; ela age sobre os temperamentos colérico, fleumático e sangüíneo, mas não sobre o melancólico; geralmente, a força da aura etérica de um povo permeia os três temperamentos. Contudo, estes podem ser combinados, nas diferentes individualidades humanas, nas mais diversas maneiras e formas de interação. Conhecemos uma variedade infinita de interação dessas três formas, podendo uma delas influir sobre as outras e vencê-las. Daí resultam as mais variadas configurações, como as vemos, por exemplo, na Rússia, na Noruega e na Alemanha. Isso constitui o caráter nacional de uma pessoa. A diferença que existe entre os indivíduos depende somente do grau de mistura. Portanto, os temperamentos nacionais, nas suas combinações são determinados pela ação da aura dos povos.

Conhecemos, assim, a ação dos espíritos dos povos por toda a Terra. Mas seguem também seus próprios caminhos; pois sua influência sobre os temperamentos não constitui o elemento essencial em seus próprios afazeres. Procedem assim porque as forças no mundo devem estar em ação recíproca e porque o consideram sua missão voluntária. Mas as exigências do próprio eu também se fazem sentir; querem progredir em seu desenvolvimento, para poder locomover-se sobre a Terra e incorporar-se nessa ou naquela região. O trabalho nos temperamentos é, por assim dizer, sua profissão e vocação. Naturalmente, os seres humanos também são beneficiados pelo trabalho dos espíritos dos povos, e estes o são pelo trabalho dos primeiros. É uma ação recíproca. Mais tarde verificaremos o significado dos indivíduos humanos para os espíritos dos povos. É importante, mas o essencial é que possamos acompanhar a ação do espírito do povo, a maneira como se incorpora na Terra, depois volta por algum tempo aos mundos espirituais e novamente se incorpora em outro lugar, e assim por diante. Nessas alternâncias reconhecemos, unicamente, questões do próprio eu desses seres. Para ganharmos uma idéia bem concreta, vamos imaginar agora o corpo etérico humano encerrado no corpo etérico do povo, imaginar a interação desses dois e como o corpo etérico do povo reflete nos temperamentos desse povo, ra mescla de temperamentos dos indivíduos: aí se revela o segredo da ação de um espírito do povo dentro do seu povo.

Com isso, no fundo, esgotamos a missão mais importante do Arcanjo ou espírito do povo. Mas nem de longe teríamos esgotado as peculiaridades de um povo, se quiséssemos considerar somente a forma característica pela qual cada indivíduo se coloca dentro desse povo.

Contudo, não é difícil observarmos ainda outros sinais característicos de um povo. Porém, muitas qualidades de um povo não se poderiam desenvolver se o espírito desse povo não tivesse a oportunidade de encontrar, em sua área, outros seres e colaborar com eles no corpo etérico dos seres humanos. Os indivíduos tomam-se assim a cena do encontro dos Arcanjos com outras entidades que com eles colaboram. A consciência clarividente observa, ao estudar os povos, efeitos bem estranhos dessa colaboração. Observara outros seres misteriosos além dos Arcanjos já caracterizados, seres que de certo modo são aparentados com os Arcanjos, mas de outra forma completamente diferentes deles; tal diferença manifesta-se sobre tudo nas suas forças bem superiores às dos Arcanjos. Os espíritos dos povos atuam de maneira bem sutil e íntima nas almas humanas, ao permearem os diferentes temperamentos. Mas, outros seres atuam neles ainda de uma maneira bem mais forte e vigorosa. Teremos de recorrer aos nossos conhecimentos gerais das hierarquias, a fim de termos uma idéia desses outros seres e acharmos o nome deles. Podemos apresentar assim a hierarquia dos seres:

1. Seres humanos

2. Anjos

3. Arcanjos

4. Arqueus ou Espíritos da Personalidade

5. Potestades ou Espíritos da Forma.

Seguem-se mais outras entidades que, porém, não nos interessam hoje. Lembrando-se do que falamos ontem -vocês também o encontrarão explicado nos meus livros A Crônica do Akasha (*) e A Ciência Oculta vocês sabem, que dentre esses seres são os Arcanjos que passaram pela sua fase humana durante o Velho Sol. Naquela época, os seres que denominamos Espíritos da Forma encontraram-se em seu desenvolvimento dois degraus mais acima na sua fase de Arcanjos, análogos aos Espíritos dos Povos da atualidade.

Na evolução existe uma lei oculta, a lei que faz com que, em cada degrau da evolução, certos seres fiquem atrás, de maneira que no degrau seguinte não alcançam o desenvolvimento normal, mas permanecem, por assim dizer, com o caráter que possuíam em fases anteriores. Entre tais seres atrasados encontram-se também Espíritos da Forma, mas seu atraso manifesta-se de um modo bem peculiar: é verdade que possuem certas qualidades de Espíritos da Forma, qualidades que os capacitam a participar das atividades dos Espíritos da Forma, os quais, nesta fase da Terra, têm conferido aos seres humanos o seu eu. Todavia, não conseguem completar a tarefa, porque não possuem todas as qualidades necessárias a tal fim. O atraso deles consiste em que não absorveram sua fase de Arcanjos no Velho Sol e que o fazem agora na Terra. Assim, são entidades que atualmente se encontram no grau de Espíritos dos Povos, mas possuem qualidades bem diversas destes. A ação dos Espíritos dos Povos na vida humana é bem sutil, porque se encontram apenas dois graus acima dos seres humanos, quer dizer, ainda se sentem aparentados com estes; por outro lado, os Espíritos da Forma, que se encontram quatro graus acima, sentem-se bem superiores. As suas forças vigorosas não se prestariam a agir dentro dos seres humanos de forma tão sutil. Apesar dessa sua robustez, não teriam nenhum outro campo para atuar a não ser o dos Espíritos dos Povos, dos Arcanjos normais.

É importante que saibamos distinguir bem nos mundos superiores, pois, uma observação superficial só nos revelaria Arcanjos. Todavia, devemos saber distinguir entre seres que agora chegaram ao grau de Arcanjos em seu desenvolvimento normal e os que deveriam ter atravessado essa fase durante a época do Velho Sol. Vemos atuar no mesmo âmbito, junto com os espíritos dos povos ou Arcanjos legítimos, outros seres que, embora se encontrem no nível dos Arcanjos, possuem qualidades bem diversas, mais robustas, características dos Espíritos da Forma, com as quais conseguem intervir profundamente na natureza humana. Qual foi, pois, o efeito do trabalho desses espíritos no ser humano durante a atual fase da Terra? Os seres humanos não seriam capazes de se chamar "eu", se esses Espíritos da Forma não tivessem plasmado o cérebro que possuímos hoje. Vemos assim que tais seres podem atuar até para dentro da forma física, embora se encontrem somente no grau de Arcanjos, e entram numa certa concorrência com os espíritos dos povos no próprio terreno destes.

O primeiro que foi realizado por aquela colaboração desses dois tipos de seres é a língua, algo que não poderia ter-se desenvolvido sem a estrutura do corpo humano em sua forma terrena. Na forma do corpo humano temos a atuação dos outros Espíritos dos Povos relacionados com as forças naturais e o ser humano. Quer dizer, não devemos simplesmente atribuir a língua aos mesmos seres que intimamente atuam nos temperamentos dos povos, e como são seres situados dois degraus acima dos seres humanos, conferem a estes sua configuração. Os seres que dão a língua possuem grandes forças, pois no fundo são Espíritos da Forma; como já dissemos, eles atuam na Terra porque lá ficaram, enquanto seus companheiros atuavam no eu, a partir do Sol, para dentro do Universo. Antes do aparecimento de Cristo, os homens veneravam Javé ou Jeová, e depois veneravam a Cristo que atuava a partir do Cosmo. Quanto aos Espíritos da Língua, o homem prefere gostar do que permaneceu com a Terra. Porém, quanto a isso não devemos aplicar nossos conceitos terrestres a todo o Universo. Não seria correto se quiséssemos comparar o fato do atraso dessas entidades no seu desenvolvimento com uma alma que não passou de ano. O atraso delas é resultado de uma grande sabedoria que reina no Cosmo. Se certas entidades não tivessem renunciado à sua evolução normal, continuando seu desenvolvimento na Terra em vez de continuá-lo com o Sol, a língua não poderia ter aparecido na Terra. De certo modo, os seres humanos têm de amar bem sua língua, pois foi por amor que os seres superiores permaneceram com eles, renunciando a certas qualidades a fim de que os seres humanos pudessem passar por uma evolução de acordo com .a alta sabedoria. Devemos estar bem conscientes de que tanto o atraso quanto a antecipação nas épocas de 4esenvolvimento constituem uma espécie de sacrifício, e que os seres humanos não poderiam ter ganho certas qualidades sem esses sacrifícios.

Vemos assim, que, no corpo etérico dos seres humanos e no do Espírito do Povo dedicado a eles, duas entidades diferentes colaboram em seu trabalho: os Arcanjos de evolução normal e os Espíritos da Forma que ficaram parados em seu desenvolvimento no grau de Arcanjos, renunciando à sua evolução ulterior a fim de, durante sua existência na Terra, incorporarem ao homem a língua nacional. Só eles tinham a força para transformar a laringe e todos os órgãos da fala humana, de forma a permitir-lhes manifestarem-se fisicamente na fala. Portanto, devemos perceber como resultado da colaboração dessas duas entidades junto aos Espíritos dos Povos, o fato de o sentimento e o temperamento do povo se nos revelarem na língua. Esses pronunciamentos reveladores da nacionalidade dos seres humanos, por meio dos quais se documentam como membro de um determinado povo: os Espíritos da Forma aliados aos Espíritos dos Povos somente conseguiram tal resultado pelo fato de terem permanecido com suas grandes forças e poderes no nível desses últimos. Além dessa colaboração no terreno dos Espíritos dos Povos, existe ainda outro concurso em âmbito diferente.

Ontem eu disse que os Arqueus ou Espíritos da Personalidade representam as forças que atuam como Espíritos da Época no atual estágio da Terra. Sua atuação dá-se a partir do seu eu e de sua organização anímica para dentro do corpo físico, pondo em movimento as forças desse corpo físico. Devemos pressupor que qualquer coisa que acontecer em certa época, como resultado da ação do Espírito da Época, qualquer progresso da humanidade atribuído a esse espírito corresponde a um trabalho de forças físicas mobilizadas a partir de nossa existência terrestre. Pensando bem, você compreenderão que reais condições físicas são necessárias para que algo possa realizar-se no âmbito do Espírito da Época. Poderiam vocês imaginar que homens como Kepler, Copérnico ou Péricles tivessem vivido e atuado sob circunstâncias diferentes em outra época? Essas personalidades emergem sob bem determinadas condições temporais, configuradas e organizadas pelo trabalho físico de entidades superiores. São realmente as condições físicas que prevalecem nesses casos; aliás, não são condições físicas materialmente fixas e sim configurações na totalidade física de nossa Terra. Às vezes, essa configuração sobressai de maneira bem vigorosa; em outras ocasiões, é necessário que se dê uma estruturação física bem particular, para que o Espírito da Época exerça sua influência de qualquer forma. Como exemplo podemos lembrar que, após a invenção das lentes graduadas, a brincadeira de uma criança numa oficina de polimento juntando algumas lentes de forma que fora possível notar nessa combinação o efeito ótico de "ver à distância", ensejou, pela observância dos princípios óticos assim detectados, a conseqüente invenção do telescópio.

É um fato histórico. Mas quantos processos físicos foram precisos para tudo isso vir a acontecer! As lentes tiveram de ser inventadas, esmerilhadas e combinadas na forma correta. É fácil usar aí a palavra "acaso"; todavia, isso mostra que se renuncia à compreensão da regularidade em tais acontecimentos. São os Arqueus que reúnem as condições físicas necessárias. O trabalho desses espíritos da época que se exprime das mais diversas maneiras tem seu reflexo nas condições físicas reunidas na Terra, num certo ponto e numa certa época. Imaginem vocês quantas coisas físicas de nossa época moderna não poderiam ter-se realizado sem o trabalho dos Arqueus em nossos corpos físicos!

Se os Arqueus atuam dessa forma, dirigindo o espírito da época, devemo-nos perguntar: como é que os espíritos da época ativam o progresso da humanidade? O progresso se dá pela intuição que alguém sente ao ver acontecer algo como que por acaso no âmbito físico. Tais coisas não são meras lendas, embora isso também possa acontecer. Só quero trazer à lembrança a história do candelabro, cujas oscilações regulares Galileu Galilei observara na catedral de Pisa, e que o ajudaram a descobrir a lei do pêndulo, pela qual Kepler e Newton sentiram-se estimulados às suas descobertas. Poderíamos enumerar centenas de casos em que um acontecimento físico foi apanhado pelo raciocínio humano, e que nos poderiam mostrar como os Arqueus ativam as idéias que entram no mundo, influindo no desenvolvimento da humanidade e regulando seu progresso pelas leis então elaboradas. Mas também nesse âmbito, parte dos seres que, nessa fase da existência da Terra, teriam passado normalmente para o grau de Espíritos da Personalidade, agem em conjunto com os outros seres que, na fase da Velha Lua, tinham ficado atrás em seu desenvolvimento, não alcançando o grau de Espíritos da Forma aqui na Terra, como deveria ter sido, mas tendo de agir agora como Espíritos da Personalidade.

Assim, os seres que não renunciaram, já a partir do Vellio Sol, mas somente a partir da Velha Lua, são agora Espíritos da Personalidade; não possuindo, no entanto, as qualidades normais desses espíritos, agem como Espíritos da Forma atrasados. Não estimulam do lado de fora, para que as pessoas cheguem a observar o que acontece no âmbito físico, mas sim estimulam dentro do cérebro, dando ao pensamento uma certa direção. Por essa razão, de nas diferentes épocas o pensar estar sendo estimulado de dentro, cada era possui seu modo de pensar característico. São configurações sutis do pensar, organizações internas que determinam isso. Os Espíritos da Forma atrasados, que possuem o caráter de Espíritos da Personalidade, atuam no íntimo dos seres humanos e produzem uma certa mentalidade e uma bem determinada forma de conceitos. Assim, os seres humanos não são conduzidos somente, de época em época, pelos Espíritos da Personalidade ativantes que os estimulam por fora a realizar isto ou aquilo, mas se sentem também impulsionados por forças internas, de forma que o pensar se manifeste no âmbito físico, analogamente ao que, por outro lado, manifesta-se na fala pela ação dos Espíritos da Forma atrasados. O modo de pensar das pessoas é, assim, manifestação dos Espíritos da Forma que, em nossa era, aparecem como Espíritos da Personalidade. Como vimos, não são Espíritos da Personalidade normais que agem no íntimo das pessoas, deixando-as livres a fazer o que quiserem, mas as apanham de dentro e impulsionam com autoridade interna. Assim podemos distinguir sempre esses dois tipos nos seres humanos estimulados pelos espíritos da época: por um lado há os impulsionados pelos Espíritos da Época normais, por assim dizer, os verdadeiros representantes da época: são seres que tinham de aparecer e agir de uma maneira que não podia ser diferente; por outro lado, temos os seres humanos nos quais predomina a atuação dos Espíritos da Forma atrasados e que denominamos de Espíritos Pensadores. O ser humano é, pois, o cenário em que tudo isto concorre. Essa cooperação exprime-se na ação recíproca da fala e do pensar; nela não concorrem somente os espíritos que se encontram no mesmo grau, os Arcanjos normais, mas os dirigentes dos sentimentos e temperamentos dos povos também concorrem com os Espíritos da Forma estacionados no grau de Arcanjos e com os Espíritos da Personalidade que, em verdade, são Espíritos da Forma atrasados.

Esse relacionamento oferece um estudo extremamente interessante a quem for capaz de observar os diferentes povos através de conhecimentos ou clarividência ocultos. Percebe-se então a maneira de agir dos Espíritos dos Povos normais e, como eles, recebem suas ordens dos Espíritos da Época; percebe-se também a forma de cooperar desses Espíritos dos Povos, no interior dos seres humanos, com os Espíritos da Língua e os Espíritos do Pensar. De maneira que, no interior do ser humano não encontramos somente a ação dos Arcanjos normais, mas também a dos Arcanjos que são Espíritos da Personalidade anormais e que, do lado de dentro, regulam a atividade pensadora de uma certa época. Já pedi a vocês boa vontade na sua compreensão espiritual, pois terei de descrever as condições para as quais nossa vida comum ainda não oferece expressões adequadas e que, por isso, terão de ser explicadas com palavras corriqueiras, dando imagens só aos fatos a serem expostos e que são fatos significativos na evolução da humanidade. Como já disse, é sumamente interessante e importante acompanhar a evolução da humanidade nos tempos modernos, para sabermos que, outrora, fora realmente concluído um contrato mútuo por um dos líderes dos Espíritos dos Povos com um dos espíritos que atua como Espírito das Forças Pensadoras no interior, a saber, um Espírito da Personalidade anormal. O resultado grave e significativo desse contrato revelou-se numa certa época histórica. A fim de tomar esse contrato bastante efetivo, produziu-se um relacionamento especialmente harmonioso com o Arcanjo anormal ou Espírito Dirigente da língua naquela época; temos aí um evento na evolução da humanidade, no qual cooperaram forças de Arcanjos normais e anormais, e que ainda sofreu o impacto do modo de pensar estimulado de dentro por um espírito da Personalidade anormal. Esse contrato entre aquelas três entidades reflete-se na natureza de determinado povo. Falo do povo indiano, o povo que introduzira, na primeira época pós-atlântica, a cultura daquela era. Foi durante a cultura indiana que se deu a conjunção que permitira a cooperação mais harmoniosa entre os três grupos de seres superiores. Com isso, iniciou-se o papel histórico do povo indiano. A essência do contrato concluído naqueles tempos remotos continuava a produzir efeito ainda em épocas já testemunhadas historicamente. É por isso que a antiga língua sagrada dos indianos teve influência tão poderosa, produzindo os efeitos culturais monumentais que perduraram fortemente até épocas subseqüentes. Essa força fora proporcionada pelos Arcanjos anormais que atuavam na língua sânscrita, a qual derivava sua força do contrato acima descrito. Nele também se funda a peculiar filosofia indiana, que, como modo de pensar criativo nascido de dentro dos seres humanos, ainda não teve igual em qualquer povo do mundo; baseia-se nele a coerência interna do pensar indiano. Em todas as outras regiões prevaleceram condições diferentes; só na cultura indiana podemos observar as condições que acabo de caracterizar. Tudo isso toma especialmente atrativo o acompanhamento dessa filosofia, que ganha uma configuração peculiar pelo fato de resultar não de uma predominância do Arcanjo normal sobre o anormal, mas de uma cooperação harmoniosa, fazendo com que cada pensamento seja absorvido pelo temperamento do povo e elaborado com amor em todos os seus detalhes. E a língua continuará atuando porque não ocorrera uma contenda entre o Arcanjo evoluído normalmente e o outro evoluído de forma anormal, luta que teria acontecido em outras regiões, mas houvera uma cooperação entre o dois; por isso, pode-se dizer que a língua, deitada pelo temperamento mais puro, é mesmo produto do temperamento. É esse o segredo desse primeiro povo civilizado da era pós-atlântica.

Ora, devemos observar também em todos os outros povos a cooperação peculiar neles havida entre essas três forças: o Arcanjo ou Espírito do Povo normal e o Arcanjo anormal, por um lado, e por outro lado, entre o que atua internamente no espírito anormal da época que não age como Espírito do Tempo, mas a partir de dentro, e o que o verdadeiro Espírito do Tempo confere ao povo. O verdadeiro conhecimento de um povo consegue-se observando essas forças no seu interior e ponderando a participação de cada fator na constituição do povo. Por isso, tomou-se difícil a quem não toma em consideração as forças ocultas da evolução humana definir a palavra "povo". Examinem vocês quantos livros existem em que se tentou uma definição do conceito de povo, e verão quanto variam entre si. É lógico que divirjam, pois uma pessoa sente mais a influência do Arcanjo normal, outra a do Arcanjo anormal e uma terceira o que provém das diferentes personalidades do povo. Cada um sente algo diferente e o utiliza em sua definição. A Ciência Espiritual nos ensinou que essas definições não são necessariamente errôneas; mas sempre são inspiradas por Maya ou pela ilusão. Do que uma pessoa diz podemos deduzir se está contemplando somente a Maya, deixando fora de consideração as diferentes forças atuantes. Do ponto de vista da Ciência Espiritual, é natural que se ganhe uma noção completamente diferente, se observa um povo como o suíço, que, vivendo no mesmo solo, fala três línguas, e outros povos falando línguas uniformes.

Ainda teremos de esclarecer por que os povos, preferencialmente, vivem a partir do Espírito da Personalidade, quer dizer, moldam seu convívio sobre o concurso das diferentes personalidades. Encontramos na Terra também povos cuja existência é moldada 'mais pelos Espíritos da Personalidade anormais. Esses espíritos não se preocupam com o progresso e o desenvolvimento. Basta observarmos o caráter do povo norte-americano para conhecermos um povo que primordialmente se baseia nesse princípio. Veremos que a História Universal, enquanto história dos povos, pode ser compreendida somente quando aprendermos a acompanhar Arcanjos normais e anormais e Espíritos da Personalidade normais e anormais, na sua respectiva hierarquia e cooperação, pela sucessão dos povos, no decorrer da História Universal.