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Abaporu

Abaporu! “Aba” - homem; “Poru” - que come. Abaporu, o homem que come. O homem que come o homem, em um sentido cultural. Palavra do Tupi-Guarani que intitulou o quadro de Tarsila do Amaral, presente de aniversário para seu marido, Oswald de Andrade. A pintura retrata a imagem de uma figura humana sentada, plantada no chão em meio a uma ambientação que sintetiza a tropicalidade destas terras por meio de um grande cacto, um sol quente e um céu azul. Seu corpo é nú, seus membros gigantes e sua pequena cabeça cabisbaixa. Pés e mãos, apoiados no chão, se destacam diante da proporção deste corpo. Eis a imagem modernista do Abaporu.

Essa figura torna-se símbolo de um conceito que nascia junto com o quadro: o Antropofagismo Cultural. A ideia é inspirada no ritual de antropofagia que era realizado pelos Tupinambá, conjunto de povos indígenas. Um ritual em que se alimentavam da carne cozida de seus parentes e, por vingança, dos guerreiros inimigos de seu povo. Não era um ato por apetite, mas sim, por uma necessidade espiritual, em que quem se alimentava da carne ganhava força vital, assimilava o outro e se vingava de um parente já morto e comido pelo inimigo. O sacrifício antropofágico era uma forma de preservação do outro, um ritual com diversas etapas e processos formais que precediam o banquete.

Em 1928, Tarsila dá o quadro a Oswald. Depois de bem observada, perguntaram se a pintura não poderia ser chamada de “o antropófago”. Tarsila vai até o dicionário Tupi e descobre: “aba” - homem; “poru” - que come. Abaporu torna-se então o título da obra. Agora a carne não era mais um parente ou um inimigo, ela era a cultura. Enquanto povo de múltiplas origens étnicas, nos alimentamos de diversas culturas, digerimos, misturamos e adaptamos tudo isso, de acordo com o contexto, lugar e época. Surgindo assim, Brasis com diferentes maneiras de viver, falar, cozinhar, pensar e cantar... Uma cultura que se constrói do processo de digestão e síntese de outras. Mas é importante observar que esse processo não é nada harmonioso, sendo caracterizado por conflitos sociais que se fazem presentes até hoje.

Acreditamos que nossos Trabalhos de Conclusão de Curso podem se relacionar de diferentes maneiras com o Abaporu. A escolha de nossos temas foi provocada por um impulso de “digerir” perspectivas não-hegemônicas, que nos ajudam a entender um pouco do que é esse grande impasse chamado Brasil. Trabalhos que procuram, com respeito, cuidado e responsabilidade, dar voz a outras narrativas, outras pessoas, que, em diferentes níveis, foram invisibilizadas pela História Oficial. Também podemos pensar que, no processo de elaboração de nossos TCCs, as pesquisas nos levaram a “deglutir” informações que deixaram questionamentos e provocações. Refletindo, meses depois de terminados os trabalhos, fica a interrogação de como eles afetaram nossas vidas e de como podem contribuir para um ideal de mudança da realidade, de transformação.

Compartilhar nossos trabalhos aqui no Pindorama talvez já seja uma ato que leve o conhecimento como ferramenta de transformação, e que, assim como Tarsila e Oswald olharam para o Abaporu em busca de ressaltar essa identidade plural, possamos contribuir divulgando o que digerimos em nossos estudos. Enfim, agradecemos ao Movimento Pindorama pelo convite e oportunidade de fazer parte dessa jornada.

Em nome deste grupo,
Arthur Versiani e Yasmin de Araujo