Relatório sobre o V Congresso Panamericano de Antroposofia, realizado de 23 a 29 de julho de 2011, em Buenos Aires, Argentina

 
O congresso teve como tema “Os mistérios da vontade, morte e ressurreição na América”.

O evento aconteceu em Benevidez, local distante de Buenos Aires aproximadamente 20 km, no Patronato de la Infancia.  

O número de participantes foi entre cento e setenta e 180, segundo um dos organizadores, Freddy Halbrich.  

O Grupo Pindorama, cujos participantes estão relacionados abaixo, compareceu como representante da sociedade Antroposófica no Brasil, tendo desempenhado diversas atividades, descritas mais adiante. Além do Grupo, tivemos também a presença de mais cinco brasileiros, identificados a seguir, totalizando onze pessoas provenientes de nosso país.  

O grupo de brasileiros estava composto pelas seguintes pessoas:  

 Pelo Grupo Pindorama:

- Ute Craemer, co-fundadora do Grupo e palestrante
- Marli Pereira, historiadora, co-fundadora do Grupo e palestrante
- Suzana Murbach, euritmista, coreografa e coordenadora da oficina de dança
- Olga Saias, pesquisadora e co-organizadora do Grupo
- Wanda Ribeiro, cientista social, coordenadora e co-organizadora do Grupo
- Maria Cecília Censoni, musicista e cantora  

Contamos ainda com a presença do Sr. Valdemar Setzer, que proferiu conferência como convidado especial (ver abaixo), sra. Daisy Ventri (educadora) e sra. Jacira Cardoso (editora), que participaram ativamente não apenas das atividades do Grupo Pindorama no Congresso como também de outras oficinas, contribuindo assim para marcar presença e interação dos brasileiros e demais países participantes.

Tivemos também a ativa participação de Solange Pavão e Brisa Pavão, mãe e filha, respectivamente. Solange é professora Waldorf na Oficina-escola Arcanjo Gabriel, sediada em Resende, Estado do Rio de Janeiro, destinada a jovens e adultos especiais. Dessa forma, deu-se uma participação marcante do Brasil no evento.    

O cronograma diário do Congresso consistia em:  

Abertura, às 8h45, com a leitura da Pedra Fundamental. Em seguida, uma pequena narrativa de uma passagem da biografia de Rudolf Steiner, segundo pessoas que com ele conviveram, logo depois, a conferência principal matutina, aberta a todo o público presente, logo depois o intervalo para o café e posteriormente as oficinas de artes, que terminavam às 12h30 e então seguia o almoço, com todos os participantes. A tarde iniciava com as oficinas de arte, um intervalo para o café às 15h40 e então ocorria a palestra principal vespertina, com duração de uma hora aproximadamente. Depois seguiam-se apresentações de iniciativas antroposóficas, às 18h45 a leitura do quarto mantra da Pedra fundamental, o jantar às 19h00 e às 21h00, um espetáculo artístico.  

Relacionamos abaixo os temas das palestras apresentadas, bem como seus palestrantes, nas datas e horários em que ocorreram.  

No dia 23/07, sábado ocorreu a palestra inaugural com Daniel Habegger, artista, pintor, docente no Seminário de Pedagogia Waldorf em Buenos Aires. Foi o executor vários murais e quadros na igrejas da Comunidade de Cristãos, inclusive a de São Paulo.  

Dia 24/07, domingo, ocorreu pela manhã a palestra, “Rudolf Steiner e a fundação dos Novos Mistérios”, proferida por Norma Priemer, doutora em bioquímica, ligada a Antroposofia há muitos anos, tendo sido funcionária do Goetheanum e atual tradutora de diversas obras de Steiner na Argentina. À tarde, o sr. Georg Glöcker, astrônomo e matemático alemão, falou sobre “As correntes colonizadoras da América e suas diferenças espirituais”.  

Na segunda-feira, dia 25/07 de manhã, o médico peruano Juan Carlos Veja Mier y Téran falou sobre “Espiritualidade do passado e do futuro na América”, numa apresentação bastante especial, chamando a atenção para a missão das Américas na qual ele estabeleceu a ligação entre os mistérios do mal, que na América encontram um solo favorável, e a missão da transformação destes nos mistérios do Bem, através da metamorfose que deve resultar na correta compreensão e ativação do cristianismo esotérico.

Esse dia 25/07 podemos considerar como um “dia especialmente brasileiro”
, pois, no bloco de iniciativas tivemos a apresentação do Grupo Pindorama, mostrando-o como a iniciativa que busca entender e estudar a alma do povo brasileiro, bem como sua “missão”, segundo a cosmovisão antroposófica. Nessa apresentação, Ute Craemer, baseada em sua própria experiência pessoal,  falou também sobre o conceito de “homem-sem-pátria”, tratado por Rudolf Steiner como algo positivo e não negativo por atingir um nível de evolução onde já não se prende mais ao seu local de nascimento, mas sente-se um ser unido a todos os demais, como em geral ocorre àqueles que se “aventuram” a emigrar ao Brasil, que entre outras características, destacam esse acolhimento típico de nossa país e seus habitantes. Ainda nessa apresentação, a historiadora e co-fundadora do Grupo Pindorama, Marli Pereira, deu uma prévia do que seria apresentado em sua palestra no dia 28/07 à tarde, mostrando a questão da língua como um agente unificador do povo no Brasil, já desde a ocupação pelos indígenas.  

Essa apresentação fez com que os participantes de países como Venezuela e Peru nos procurassem após a apresentação para falar-nos da “inspiração” que nossos estudos trouxeram a eles.  

Ainda nesse “dia especialmente brasileiro”, o professor Valdemar Setzer apresentou a conferência “Como atua o espírito na matéria”, que despertou o interesse e a curiosidade do público presente, por trazer uma nova teoria desenvolvida pelo prof. Setzer sobre o assunto.  

Também nesse dia 25 ocorreu nossa apresentação artística.

Apresentação artística do Grupo Pindorama

Na noite do dia 25/07 fizemos a apresentação artística, constante do programa do Congresso sob o nome “amigos do Brasil”. Tal denominação foi providencial, pois realmente fizemos muitos “amigos”.  

Foram apresentadas várias danças relacionadas às diversas culturas os povos que contribuíram para a formação do povo brasileiro. A coreografia, organização e montagem do espetáculo ficaram a cargo de Suzana Murbach. O povo indígena foi representado primeiramente por um dos participantes de nossa oficina, um argentino, que “incorporou” no palco um índio que seria o receptor de todos os demais povos. Essa recepção pode ser percebida e sentida pela leitura de um pequeno trecho do texto “Tupã Tenondé”, que fala da importância do “som” na cultura indígena e como este é a própria manifestação do ser humano. A partir daí, foram sendo apresentadas danças representativas das culturas européias, africana, oriental-japonesa, entremeadas com apresentações de música popular brasileira, tocadas por Valdemar Setzer e Cecília Censoni, com flauta doce e violão, respectivamente, durante a troca de figurino. Ao final da apresentação, num movimento que manifesta claramente a “miscigenação brasileira”, cantamos uma ciranda, na qual pudemos convidar e incluir todos os participantes, todos realmente, tendo como resultado vivo um sentimento dessa grande harmonia que, mesmo com todos os percalços, caracteriza o grande mosaico étnico, que é o povo do Brasil.  

No dia 26/07, o sr. Horário Müller, administrador de empresas e consultor na área de ecologia social,  falou sobre “A vontade na América e a consciência – Horácio Muller na palestra matutina e à tarde, a Dra. Michaela Glöcker, sobre “Medicina geográfica na América”.

 Na quarta-feira, dia 27/07, pela manhã, ao invés de palestra, foi formado uma mesa redonda, cujo mote era a “sintomatologia da confrontação com o mal”, para o qual foram convidados. A mesa foi composta por com Mariano Kasanetz, pastor da Comunidade de Cristãos de Buenos Aires, Horácio Müller, Carlos Mönckeberg, Juan Carlos Veja com mediação de Freddy Halbrich, um dos organizadores.

 À tarde, o sr. Christopher Budd, inglês, economista e consultor a área da economia associativa, apresentou a conferência “O Eu na Economia Humana”

 Dia 28/07, quinta-feira, a conferência “O corpo da ressurreição do Cristo e a Pedra Fundamental” foi dada por Carlos Mönckeberg, ex-diretor de Sociedade Antroposófica na Argentina e leitor da Primeira Classe da Escola Superior Livre de Ciência Espiritual naquele país na parte da manhã.

 À tarde foi a vez da Conferência: Pindorama, a vontade centrada no coração, do Brasil,
apresentada por Marli Pereira, que tinha como fio condutor a língua,  mostrando-a como elemento do amálgama característico do Brasil e que já se revelara desde os primeiros habitantes, quando dois mil anos antes do “descobrimento” já havia sido desenvolvida uma língua que os “unia”. Com o decreto do marques de Pombal, em 1757, que tornou o português obrigatório, a língua torna-se mais uma vez um fator de “unificação” de povo dentro de um território tão vasto. Foi ressaltada a importância do som na cultura tupi-guarani, resultante da união dos diversos grupos lingüísticos dos primeiros indígenas habitantes de nosso país, mostrando que já o nome Tupi demonstra isso: “Tu” significa “som” e “pi”, assento, ou seja, o ser humano é o “som assentado”, o “som em pé”, no qual o ser humano expressa a sua “palavra-alma” pelo nome que lhe é dado, sendo assim uma manifestação que une céu e terra.

Ute Craemer fechou a palestra demonstrando quanta sabedoria se expressa nessa cosmovisão e em outros mitos conhecidos e estudados no Grupo Pindorama, os quais demonstram muitos dos conhecimentos expressos pela Antroposofia de um modo diverso.  

Oficinas de Arte

O Grupo Pindorama, buscando mostrar um pouco mais sobre o nosso país e como representante da Sociedade Antroposófica no Brasil, ofereceu as seguintes atividades nos cinco dias em que proporcionou as oficinas de arte: a) danças típicas brasileiras, que serviram de preparação para a apresentação artística brasileira, ocorrida na noite do dia 25/07; Este trabalho foi coordenado por Suzana Murbach; b) apresentação do conto de criação do mundo segundo a cosmovisão Tupi-guarani trazido ao Grupo Pindorama pelo índio tapuia Kaká Wera Jucupé e que no V Congresso foi contado por Wanda Ribeiro; c) apresentação e vivência do ritual indígena “porá hey” – os sons que curam, também trazido ao Pindorama por Kaká e apresentado e coordenado no V Congresso por Ute Craemer; e) como atividade final, foi oferecida uma oficina de desenhos de forma africanos, coordenada por Ute Craemer, na qual foi montado um grande e belo painel, contendo os desenhos executados pelos participantes, em duplas, o que resultou num trabalho de integração, harmonia e modelo aos demais participantes, ficando exposto no refeitório do evento.  

Essas atividades foram muito bem recebidas tanto pelos participantes das oficinas como por aqueles que apenas tinham a curiosidade de ver tais trabalhos.    

Espaço para o Grupo Pindorama - Brasil

 O Brasil teve um bom espaço para marcar sua presença neste V Congresso. Além das oficinas de arte, apresentação de iniciativas e a palestra, aqui relatadas, pudemos contar com espaço cedido no saguão principal, onde expusemos o material de divulgação e estudos do Grupo Pindorama tais como livros, apostilas, o conto tupi-guarani traduzido para o espanhol, material artístico e cultural tais como cocares, cesta de xavantes, colares com motivos africanos, entre outros. O interesse pelo público foi bastante grande e foi possível estabelecer vários contatos.    

Painel de encerramento: Missão do Continente Americano

Alguns representantes dos países participantes foram convidados a falar sobre a Missão das Américas e o futuro.  

Ute Craemer, convidada pelo grupo organizador a falar pelo Brasil, agradeceu a oportunidade por estar no presente congresso e poder refletir sobre esse tema. Ele lembrou que através de pequenos passos podemos caminhar em direção ao futuro, sentir que fazemos parte das Américas que têm em seus povos representantes de várias nações européias, os quais podemos ver nas línguas faladas por esses povos como o inglês, o francês, o holandês (nas guianas), o espanhol, o português e suas modificações via línguas indígenas e africanas.  

Ressaltou que se pensarmos de forma trimembrada nos “pássaros” identificados como representantes das Américas, a saber, a águia na América do Norte e o condor na América Latina, poderemos pensar o colibri como o mais ligado à maneira de viver dos brasileiros. Juntando esses três pássaros nas áreas de atuação da Antroposofia, seja na economia, nas artes, na agricultura, chegaremos à “paloma” (pomba) representante da paz, citada em algumas palestras desse V Congresso como uma possível aspiração da missão das Américas.  

Ute chamou a atenção para o fato de que o Grupo Pindorama pode ser um aspecto dessa união para ter uma plataforma de intercâmbio desse aspecto educacional: como fazer a ligação do solo americano, sua história e a Antroposofia. Cada vez mais na Pedagogia, na Saúde, em trabalhos manuais, essa ligação é essencial para a Antroposofia se ligar às Américas. Nesse sentido, o Exercício de Positividade, apresentado por Rudolf Steiner entre os chamados “exercícios complementares” pode transformar em passos concretos os mistérios do mal em mistérios do Bem e obtermos a alegria nessa transformação, necessária às Américas, como várias vezes destacado nesse Congresso. O Exercício de Positividade é reafirmado quando se tem a confiança no que fazemos e quando acreditamos que transformar é possível. Precisamos de mais alianças e tentar entendermo-nos uns com os outros.

Também trouxeram contribuições um representante do México e
um do Peru. O primeiro sugeriu um modo diferente de se pensar a trimembração do Continente americano colocando o pensar na América do Sul, o sentir na América Central e o querer na América do Norte, por exemplo.  

O representante do Peru
lembrou que os cinco congressos representam cinco passos que marcam o avanço dessa preocupação para com a missão das Américas. Entretanto, ressaltou que deve haver uma relação de centro e periferia e periferia e centro com relação às Sociedades Antroposóficas nos diversos países, que precisam se sentir refletidas nas dinâmicas das diversas iniciativas que estão na formação da periferia, cujo centro seria, então, as Sociedades Antroposóficas.

Lançamento do livro “Mistérios do México” de Rudolf Steiner

Aproveitando o tema do Congresso e devido à importância que o assunto tem nesse contexto conforme citado em diversas palestras que compuseram esse evento, Ute Craemer aproveitou a ocasião para anunciar o lançamento do livro recentemente editado pela Editora Antroposófica, “Os Mistérios do México”, no qual Rudolf Steiner descreve fatos nunca antes relatados sobre a América pré-colombiana e um fato importantíssimo que ocorreu no Méxiico, simultaneamente ao Mistério do Gólgota. O lançamento desse livro foi bem acolhido pelos participantes do Congresso, cuja procura foi significativa.  

Apresentação do grupo de jovens

Paralelamente ao V Congresso Panamericano de Antroposofia ocorreu o encontro de jovens e alguns de seus participantes compareceram no dia do encerramento do V Congresso para se apresentarem e essa foi uma excelente oportunidade de união entre as diversas gerações que ali estavam reunidas. Havia jovens de paises diversos como Brasil, Suíça, Nova Zelândia, Argentina e Alemanha. Entre as brasileiras
, duas jovens se destacaram e puderam manifestar-se, uma chamando a atenção para o trabalho social desenvolvido e a outra para a importância de se ter um espaço para os jovens nas Sociedades Antroposóficas tal como eles conseguiram na Sociedade Antroposófica no Brasil.  

Próximo Congresso

Encerrando o V Congresso, foram chamados a apresentar-se aqueles países que gostariam de sediar o próximo congresso. Apresentaram-se apenas Brasil, representado por Ute Craemer e Uruguai e, num rápido consenso, decidiu-se que o congresso a ser realizado em 2014 será realizado no Brasil e aquele que se realizará em 2017, no Uruguai.

Ute Craemer agradeceu a confiança e ressaltou a importância desse evento, mostrando também o quanto nos alegra podermos ser os anfitriões de um acontecimento dessa magnitude.